2013-02-27

O DEBATE QUE ENTROU EM ÓRBITA

O DEBATE QUE ENTROU EM ÓRBITA

Olavo de Carvalho

orbita

Ao longo das últimas décadas, a astrologia tornou-se um sucedâneo de religião para as massas de classe média e um hobby “espiritual” para os letrados.

Montada na onda donovo paradigma que alguns teóricosreclamam para a ciência no século XXI, ela ganhou mesmo ares de respeitabilidade em muitos círculos acadêmicos. Nada parece deter sua ascensão.

Até as reações hostis dealguns religiosos e homens de ciência apenasaumentam sua popularidade.

No mínimo, o que é objeto de debate é objeto de atenção. No entanto, os debates, na sua quasetotalidade, têm se limitado aos aspectos maisvistosos e periféricos da questão astrológica,sem fazerem avançar um passo sequer oesforço para responder às perguntas queconstituem, ou deveriam constituir, o miolodo problema: existe, objetivamente, uma relação entre os movimentos dos astros no céu e o desenrolar da vida humana na Terra? Se existe, qual a sua natureza e o seu alcance? Quais as causas que a determinam? Quais as possibilidade e os meios de conhecê-la cientificamente? Em vez de enfrentar essas perguntas, osadeptos e adversários da astrologia preferemdiscutir o seguinte tópico: “Astrologia funciona?”

O debate toma por foco a astrologia como prática divinatória oudiagnóstica, e deixa de lado a questão dasinfluências astrais propriamente ditas.

Aparentemente, nenhum dos partidos emdisputa se deu conta de que a existência ouinexistência de influências planetárias sobre avida humana, de um lado, e de outro aeficácia ou ineficácia da ciência oupseudociência que se gaba de conhecê-las,são questões perfeitamente distintas, e deque não se pode decidir segunda sem haverantes dado à primeira uma respostasatisfatória.

Pois o que define e singulariza aastrologia não é a afirmação genérica de que“existem influência astrais” (a qual pode seradmitida até mesmo por quem odeieastrologia, como Sto. Agostinho, porexemplo), mas sim a pretensão de já possuir  um conhecimento cabal de suasmanifestações e variedades, ao ponto depoder descrever meticulosamente as diversificações da influência de cada planetaconforme o lugar que ocupe no céu noinstante do nascimento de cada indivíduo emparticular — sem exceções ou dificuldadesnotáveis. Bem pode ser, é claro, que estapretensão seja descabida, maluca mesmo,sem que por isto o fenômeno das influênciasastrais, em si mesmo e independentementedas interpretações que os astrólogos lhedêem, deva ser considerado inexistente.

Por óbvia que seja essa advertência, osprotagonistas do debate astrológico têm preferido omiti-la, confundindo a si mesmos eao público. Invariavelmente, no calor dapolêmica, cada pequeno indício da existênciade influências astrais é tomado comoargumento legitimador da prática astrológicaexistente; de outro lado, cada sinal deineficácia ou erro dos astrólogos é exibidocomo prova da irrealidade das influênciasastrais. Isto em lógica chama-se um nonsequitur: tirar à força, de uma premissa,conclusões que dela não se seguemlogicamente.

Por exemplo, a pesquisarealizada por Michel Gauquelin, na França,que numa revisão de 500.000 horóscopos denascimento encontrou uma correlaçãoestatística altamente significativa entregrupos profissionais e tipos astrólogicos(conforme a posição dos planetas na hora donascimento), é brandida orgulhosamentepelos astrólogos como prova de que“astrologia funciona” (e não somente de que“existem influências astrais”).

Inversa ecomplementarmente, o físico Shawn Carlson,da Universidade da Califórnia, após terverificado, em testes estatísticos, aincapacidade de vinte astrólogos paraidentificarem traços de personalidade combase em horóscopos de nascimento, divulgouesse resultado (na revista Nature) como provade que “não existem influências astrais” (enão somente de que a astrologia nãofunciona, pelo menos tal como praticadaatualmente).Confusões dessa ordem são a regras geralnos debates sobre astrologia, mesmo quandoos debatedores são homens cultos epreparados. Numa recente mesa-redonda naUFRJ, confrontado com um sujeito que, paracúmulo, era professor de metodologiacientífica, não consegui, por nada destemundo, fazê-lo compreender a inépcia deuma discurssão colocada nesses termos. Comos astrólogos, excetuando uns happy few, não tenho logrado resultados melhores. Coisasdesse tipo contribuem para fazer do debate astrológico um sinal particularmente enfáticoda demência contemporânea.

No entanto, a questão das influências

astrais, em si, e independentemente dapolêmica, é da máxima importância para anossa civilização em seu estágio presente. Senos lembrarmos de que a geografia seconstituiu e se expadiu rapidamente comociência a partir do momento em que uma Europa culturalmente unificada partiu para asnavegações e a descoberta da Terra, é fácilperceber, por analogia, que a humanidadeculturalmente unificada de hoje, ao partirpara a exploração do ambiente cósmico emtorno, se defronta com a necessidade urgentede um nova colocação do problema dasralações entre o cosmos e a vida humana,não somente biólogica, mas histórica epsicológica; e este é, precisamente, o tema daastrologia. Este tema sugere, inclusive, aoportunidade de uma recolocação global dasrelações, ainda hoje obscuras, entre ciências“naturais” e ciências “humana”.

A nulidade dos resultados que a astrologia tenha atéagora alcançado na sua investigação, com os métodos peculiares e um tanto extravagantesque emprega, não justifica que seu objetomesmo seja negligenciado.

Aliás, não foi apropósito da astrologia que Kepler enunciouseu célebre aviso sobre a criança e a água dobanho? Se a astrologia tal como se praticou ese prática hoje é falsa, o que temos de fazer éuma verdadeira, ao invés de proclamar, comuma autoconfiança de avestruz, ainexistência do fenômeno astral sob aalegação de falsidade do que dele se diz. Seos historiadores erram em suas interpretaçãoda Revolução Francesa, ou se os zoólogoseventualmente se equivocam quanto àfisiologia das vacas, isto não constitui motivosuficiente para concluir que a RevoluçãoFrancesa não aconteceu e que as vacas nãoexistem.

Mesmo na hipótese de que nada sesalve da astrologia, mesmo na hipótese deque tudo o que os astrólogos disseram arespeito do fenômeno astral seja rematadabesteira, isto não desculpa o desinteressepela perguntas mesmas às quais a astrologiapretendeu oferecer resposta.

Por tudo isso, é espantoso o contrasteentre o baixo nível do debate astrológico hojeem dia e as discussões que seis ou seteséculos atrás os acadêmicos faziam a respeitodo mesmo tema. Quanto examinamos aspáginas que Sto. Tomás de Aquino, Hugo deS. Vitor, John de Salisbury e outrosintelectuais medievais consagraram aoproblema astrológico, surpreendemo-nos como rigor e a senidade de suas colocações, queconstituem um exemplo para nós.

 

Particularmente Sto. Tomás chegou adesenvolver uma teoria completa dasinfluências astrais, que constitui até hoje umadas mais límpidas colocações do problema epode servir de marco inicial para as nossasinvestigações.

Tendo tocado no assunto, de passagem, na Suma Teológica e nos comentários à Física de Aristóteles, ele lhe dá um tratamentosistemático em cinqüenta densas páginas daSuma contra os Gentios (1258).

Ele não discute a existência das influências astrais,que no seu tempo era geralmente admitida(mesmo pelos que, em nome da religião,condenavam a prática da astrologiadivinatória); esforça-se apenas por definir asua natureza e precisar o seu alcance.

É verdade que sua análise se detém no nívelmeramente conceptual e lógico, sem entrarno campo da investigação empírica. Masquem não sabe que sem conceito claros euma hipótese condutora a investigaçãoempírica é perda de tempo?

O que Sto. Tomás sugere, em essência, éque um corpo não pode exercer nenhumainfluência causal sobre o que não sejatambém corpo; e que, portanto, está excluídaa hipótese de que os astros exerçam qualquerinfluência sobre a psique e o comportamentohumano a não ser por intermédio dealterações fisiológicas (ou fisiopatológicas).Ele chega a sugerir que os astros afetem aformação do embrião e que, produzindo assimconformações corporais diversas, acabem poragir como causas remotas do comportamento humano.

Os movimentos planetários, diz ele, não influenciam a inteligência e a vontadehumanas, mas, atuando sobre os corpos,predispõem a distúrbios passionais quepodem obstar a livre operação da inteligênciae da vontade.A tremenda importância dessasobservações reside em que elas colocam aquestão astrológica na linha de umainvestigação científica possível, tirando-a daesfera dos argumentos metafísicos eteólógicos sobre determinismo e livre-arbítrio.

Mas, passados sete séculos, a lição do grandeescolático ainda não foi assimilada, pois taisargumentos continuam comparecendoinvariavelmente em toda discussão sobre opreblema astrológico, malgrado sua jádemonstrada impertinência e esterilidade.

O tratamento que Tomás deu à questãomostra, ademais, que ela pode e deve serabordada independentemente de quaisquerreivindicações polêmicas sobre a legitimidadeou ilegitimidade da astrologia enquantoprática.

Esta lição também não foi assimilada.Em resumo, no século XII estávamos maisperto de uma colocação racional do problemado que estamos hoje em dia, justamentequando ele se revela mais importante eurgente.

De outro lado, é claro que, se em vez deinvestigar diretamente o fenômeno astralcontinuarmos polemizando sobre “a”astrologia, não chegaram a nada.

“A”astrologia é um amálgama enorme e confusode códigos simbólicos, mitos e preceitos empíricos, procedentes de épocas ecivilizações diversas, numa variedade que serebela contra toda tentativa de reduzi-la a umcorpo unitário de doutrina. Como pronuciar-nos, de um só golpe, sobre a veracidade oufalsidade de uma massa tão heteróclita? Só aignorância fanática ou o desejo de aparecer explicam que alguém se disponha a tomarpartido num debate que se coloque nesseternos.

Mas, se os interessados no debateastrológico estão atrasados de sete séculosem assimilar a lição de Tomás, é que estãoatrasados de vinte em assimilar a deAristóteles, o qual ensinava que, de um sujeito equívoco, nada se pode predicar univocamente

. “A” astrologia é muitas coisas. Talves algumas delas sejam verdadeiras,outras falsas, umas valiosas, outrasdesprezíveis.

Quando essa mixórdia milenarse houver transformado num corpo teóricoexplícito, à custa de depurações dialéticas emetodológicas como as que Sto. Tomás realizou para um aspecto em particular, entãoe somente então poderemos debater comproveito sobre sua veracidade ou falsidade.

Até lá, tudo o que podemos fazer é declarar,humildemente, se gostamos dela ou não.Quanto a mim, é claro que gosto.

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