2011-09-24

As populações que trabalham e pagam impostos estão se recusando a financiar gente desocupada e parasita

 

O segundo ponto é precisamente este, que está colocado o dilema moral profundo. As populações que trabalham e pagam impostos estão se recusando a financiar gente desocupada e parasita. Este primeiro movimento mostra a contradição da proverbial história da formiga e da cigarra. As formigas não querem mais sustentar as vadias cigarras. Não faz sentido para a população alemã pagar a conta da irresponsabilidade de governos outros, como o grego. O sinal vermelho contra a imoralidade expropriatória acendeu. Não há argumento tecnocrático que convença o eleitorado da justeza dessa causa perdida.

 

NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

nivaldocordeiro
GUIDO MANTEGA NA GLOBONEWS
23/09/2011
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Ontem eu vi a entrevista do ministro Guido Mantega dada à GloboNews. O ministro foi enfático ao dizer que a crise da Grécia – e, por extensão, da Europa – depende apenas de vontade política para ser resolvida, faltando apenas que os decisores ponham os recursos necessários para estancar a crise. Atenho-me a esse trecho da entrevista, pois ele revela duas coisas importantes.

Primeiro, que a tecnocracia teria os instrumentos necessários para o combate à crise e a Europa dispusesse dos recursos para tanto. Isso é falso, pois se assim fosse as crises não se sucederiam. Reduzir a crise a tecnicalidades tecnocráticas é algo absurdo, porque esta crise tem um caráter muito mais problemático e sua solução escapa ao arbítrio. A ciência econômica dita convencional não tem meios para superá-la porque está em jogo o modelo de Estado e o modelo político, algo que transcende à ciência econômica.


O segundo ponto é precisamente este, que está colocado o dilema moral profundo. As populações que trabalham e pagam impostos estão se recusando a financiar gente desocupada e parasita. Este primeiro movimento mostra a contradição da proverbial história da formiga e da cigarra. As formigas não querem mais sustentar as vadias cigarras. Não faz sentido para a população alemã pagar a conta da irresponsabilidade de governos outros, como o grego. O sinal vermelho contra a imoralidade expropriatória acendeu. Não há argumento tecnocrático que convença o eleitorado da justeza dessa causa perdida.


Acrescento que esse conflito distributivo está latente no interior das fronteiras nacionais e as eleições recentes mostram que o eleitorado cansou de dar carta branca à social-democracia. Na verdade, a crise é da social-democracia. O modelo se esgotou, em virtude o abuso que a classe política e a tecnocracia fizeram ao longo do tempo. O modelo encontrou sua própria fronteira. Ele supõe a permanente expansão da carga tributária e dívida pública. Na Europa, ambas estão esgotadas, pois já se encontram na zona de asfixia. Não há solução técnica para o problema.


Da mesma forma, foi encontrado o limite político. O eleitorado disse não ao financiamento dos desocupados dos países quebrados. Nada impede que esse não seja extensivo aos próprios parasitas autóctones. Acho até que isso já está em curso, na medida em que políticos de direita têm obtido crescentes votações. Depois das orgias dos bailouts, uma apoteose da irresponsabilidade tecnocrática, estamos vendo agora o movimento na direção oposta.


Guido Mantega está raciocinando em termos de normalidade e de crises passageiras. Penso que essa é “a crise”, que deverá modificar consideravelmente as forças políticas, o perfil do Estado e o modo de conduzir as políticas econômicas.

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