2011-08-25

Quero ver é coragem para, por exemplo, contestar o vitimismo palestino que explode bombas em Israel e justifica seu gesto como expressão da revolta do oprimido.

25/08/2011

às 17:32

Questões de princípio. E a torcida fácil e óbvia dos tolos

Fui professor. Tenho paciência infinita com quem quer aprender. Fui e sou aluno. Tenho uma disposição insaciável para saber mais. Mas não tenho tempo para a burrice arrogante, que substitui os fatos pelos votos de bons princípios. Não é preciso ser muito esperto para ser contra as ditaduras. Mas já é preciso ter alguma inteligência e ter lido alguns livros para combatê-las sem ferir os princípios em nome dos quais elas estão sendo combatidas. É questão de método e de rigor intelectual.

Não venham alguns cretinos tentar me dar aula sobre as ditaduras árabes. É fácil fazer discurso contra Muammar Kadahafi, Bashar Al Assad ou Hosni Mubarak quando estão sendo combatidos por seus adversários internos. Quero ver é coragem para, por exemplo, contestar o vitimismo palestino que explode bombas em Israel e justifica seu gesto como expressão da revolta do oprimido. Que todos sejam favoráveis ao bem, ao belo e ao justo, convenham, não há grande novidade nisso. É possível que Gengis Khan não dissesse algo muito diferente sobre si mesmo. Hitler e Stálin não tinham outra coisa em mente que não uma humanidade ajustada, não é mesmo? Todos são favoráveis às boas intenções… Alguns matam milhões por isso!!!

Quando boa parte dos coleguinhas babava a sua satisfação com o Megalonanico do Itamaraty, eu estava na contramão. Não comecei a criticar as maluquices da política externa brasileira em 2009, mas em 2003, quando Celso Amorim, numa votação de jornalistas, foi considerado o melhor ministro, ao lado de Antonio Palocci… Aquele antiamericanismo chulé parecia, assim, uma coisa tão altiva, tão à altura das expectativas redentoras dos bobalhões!

A queda de Hosni Mubarak no Egito é, em si, uma boa notícia? Em si, é. Quando Hitler desmantelou a SA, do tarado Ernst Röhm, aquela era, em si, uma boa notícia. Não estou fazendo paralelo nenhum entre os dois eventos. Estou apenas destacando que, em história, “boas notícias” não existem em si; é preciso ver o que anunciam e prenunciam e analisar as circunstâncias em que se dão. Que Mubarak tenha caído, aplausos! Que terroristas palestinos passem pelo Sinai para ir praticar atentados em Israel, bem, eis um péssimo sinal. O mundo não é plano!

Bashar Al Assad é um carniceiro desprezível? É, sim! Também no caso sírio se revelam as desditas da política externa brasileira? Sim! Era perfeitamente possível fazer o discurso regulamentar, segundo o qual os sérios devem resolver seus próprios problemas, sem precisar ir lá bater papo com o sanguinário, como fez o Itamaraty. Mas eu quero saber, sim — é o dever de todo bípede que não tem o corpo coberto de pêlo ou penas — quem é que está mobilizado para depô-lo. Acreditam os idealistas que a democracia é uma idéia que está no éter e que toma corpo com o Facebook e o Twitter? Adiante! Não é a minha crença.

Sim, a queda de Kadafi é, em si, uma boa notícia, mas a participação da Jihad Islâmica — comprovada! — no movimento que o derrubou é uma péssima notícia. A queda de Kadafi é, em si, uma boa notícia? Sim, mas o prêmio por sua cabeça, instituído por um governo que ainda nem se consolidou, é uma péssima notícia. Trata-se do prenúncio de um método. Se é democracia o que se quer por lá, o tirano tem de ser entregue o Tribunal Penal Internacional. Eu não lido com a morte, mas com a vida. Questão de princípio — e, se quiserem, de fé também. Não tenho vergonha da minha fé. Eu me orgulho dela.

Otan, ONU, Obama e outros
É puro obscurantismo das supostas luzes ignorar que a Barack Obama, David Cameron e a Otan jogaram no lixo a resolução da ONU, mesmo aquela, redigida numa linguagem cheia de intenções subterrâneas, o que, em si, já é uma lástima. Nenhum deles tinha mandato para entrar na guerra civil e atuar em favor de um dos lados do conflito. E eles o fizeram. Nenhum deles tinha mandato para fornecer armas aos rebeldes. E eles forneceram. Nenhum deles tinha mandato para tentar matar kadafi. E eles tentaram. Eu estou com pena daquele vagabundo? Não! Eu estou com pena das instituições! O tirano apanhava aqui quando se abraçava a Lula, sob o silêncio cúmplice de alguns entusiastas de agora da “democracia na Líbia”.

Eu quero que gente como Kadafi vá para o diabo que a carregue porque quero um mundo organizado segundo regras, não segundo o triunfo da vontade de quem pode mais — numa vila ou no Planeta. Não reconheço aos senhores Barack Obama ou David Cameron o direito de violar uma resolução da ONU porque o objetivo da ação da Líbia era combater um notório violador de qualquer princípio civilizado. Ou não era isso? Este escriba reconhecer ou não o direito da dupla é irrelevante na ordem das coisas, sei bem. Não se trata de uma decisão com desdobramento prático. É só uma questão de princípio.

E também deploro a má consciência desses iluministas de meia-tigela. Quando Bush invadiu o Iraque, teve início uma grita que não cessou até hoje. Atribuem-se as atuais dificuldades dos EUA ainda àquela guerra, o que é, para dizer pouco, uma afirmação estúpida. “Bush invadiu o Iraque ao arrepio da ONU”. A ONU não tinha votado resolução nenhuma — e, ao menos, o “odiado” presidente não pode ser acusado de ter violado um mandato conferido pela organização. Obama violou. O republicano foi à guerra com autorização do Congresso; Obama se dispensou de pedi-la.

Alguém duvida que um republicano qualquer, se estivesse no lugar de Obama, estaria apanhando como um cão sarnento? E que se note: do jornalismo, nem cobrei a crítica a Obama ou a especulação sobre os riscos de os EUA entrarem numa guerra civil ao lado da Jihad Islâmica. Cobrei apenas a informação, para o arbítrio dos leitores, de que a Otan, sob o patrocínio de Obama e Cameron, DESRESPEITOU A RESOLUÇÃO DA ONU.

Isso é tão certo quanto dois e dois são quatro. E nem por isso Kadafi deixa de ser um tirano asqueroso, que merece terminar seus dias na cadeia. Eu acho que o fim do ditador pode conviver com a verdade.

PS - Uns bobocas estão dizendo que a minha opinião se parece com a de Chávez. É coisa de gente estúpida, que ignora o que pensa o bandoleiro e o que penso. Mas atenção! Ainda que houvesse uma coincidência nesse particular (não há), eu não mudaria de opinião por isso. Chávez não está entre as minhas referências. Eu jamais levo em consideração o que ele pensa ou deixa de pensar. Quem primeiro avalia a opção de seus inimigos ou adversários para depois fazer a sua escolha se torna refém daqueles a quem repudia. Eu faço este blog porque sou livre e porque tenho leitores igualmente livres. E até envio um último recado: recomendo aos que têm a ambição de me combater que parem com a tolice de sempre tentar dizer o contrário do que digo. Libertem-se de mim! Passem a ter vida própria.

Por Reinaldo Azevedo

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