2011-08-19

O cerne do “pensamento” marcosiano

18/08/2011

às 18:47

Assim se comporta um intelectual do regime. Ou: Lula, “o guia genial” de um intelectual esquerdista no combate ao… Centrão! Ou: O nosso Máximo Gorki

Queridos, o texto é longo, sei. Hoje acordei disposto a ir fundo, hehe. Mas é um dos mais importantes publicados neste blog. Não por causa de fulano ou beltrano, mas por causa da desmontagem de uma tese politicamente vigarista, que, como diria Chico Jabuti, anda nas cabeças e nas bocas dos esquerdistas do complexo “UNICAMPUCUSP”, os justificadores intelectuais de uma doença política chamada “Luiz Inácio Lula da Silva”. É evidente que há bons pensadores na USP, PUC ou Unicamp. Tenho amigos nas três.

Não dá tempo de ler tudo o que sai por aí. Às vezes, batemos olho num título, lemos o nome do entrevistado e pensamos: “Não vale a pena; deixa pra lá”. Durante algum tempo, sei lá, umas quatro ou cinco colunas que ele escrevia na Folha, li um rapaz chamado Marcos Nobre, “professor de filosofia política na Unicamp”. O título comporta certa pompa natural. Não é que ele ensine “ciência política”, o que faz supor um trabalho mais descritivo, de análise: as correntes de pensamento, as ideologias, as afinidades eletivas deste ou daquele. Não! Sem trocadilho, a tarefa dele é mais nobre: é “filosofia política”, o que já nos leva a supor algo mais elaborado, que transcende o terreno da descrição para entrar na floresta escura do pensamento. Logo deixei o dito-cujo de lado. Quando não estava justificando o petismo, cobrava um adernamento à esquerda. Admita-se que se pode fazer isso de modo inteligente. Não era o caso. Por isso bati o olho numa entrevista que ele concedeu ao Estadão no domingo e fui fazer outra coisa. Nem lembro o quê. Qualquer coisa.

Mas um amigo — da academia, diga-se — insistiu: “Você tem de ler!” Ainda protestei: “Porra! Não é coisa que um amigo nos cobre…” Ele insistiu. Li. A que ponto pode descer um “pensador”! Antes que entre no mérito, uma lembrança. Não havia intelectual no Ocidente que ignorasse a tirania de Stálin, os assassinatos políticos, a morte de milhões durante a coletivização da agricultura, a censura, o horror. No entanto, a verdade foi sistematicamente negada pelas esquerdas porque, afinal, julgavam ter uma tarefa mais importante e mais urgente: o combate à contra-revolução, ao imperialismo, ao fascismo… E havia os que simplesmente negavam que houvesse violência na URSS. O escritor francês André Gide, por exemplo, denunciou a tirania já em 1934, depois de uma viagem ao país — “Retour de l’URSS” — e foi tratado como escória pelos intelectuais de esquerda. Como era homossexual, sua crítica foi tomada apenas como chiliques de um pederasta… Ainda voltarei aos intelectuais e a Stálin, vocês verão.

Na entrevista ao Estadão — íntegra aqui —, de maneira oblíqua, o professor expressa a sua insatisfação com a “faxina” promovida no governo Dilma e, claramente, alerta a presidente para os riscos. O cerne do “pensamento” marcosiano está nesta resposta:

E como combater o que o sr. chama de peemedebismo?
De fato, precisamos de uma pequena revolução política. Já tivemos uma pequena revolução econômica e uma pequena revolução social. Se vai ser a Dilma quem vai fazer isso não sei. O peemedebismo tem que acabar.
O problema é que a política da queda de braço da Dilma está organizando o peemedebismo. Fernando Henrique dizia que tinha uma base desorganizada, Lula também. A característica do peemedebismo é ser desorganizado, fragmentado. Dilma está ameaçando organizar o peemedebismo. E a organização do peemedebismo tem um nome: chama-se “centrão”. O centrão é um poder autônomo em relação a partidos e ao governo. O poder de chantagem do centrão é muito grande. Este centrão está sendo reorganizado pelo PMDB - se chama hoje “bloco informal” (anunciado nesta semana por PR, PMDB, PTB, PP e PSC). Este sempre foi o medo do Lula: uma organização do Legislativo independente do Executivo. A organização do peemedebismo significa um travamento como tivemos no governo Sarney e no governo Collor. É muito grave.

Comento
Nem vou discutir essa história de “pequena revolução” disso ou daquilo porque os próprios termos já definem o pensamento. “Pequena revolução” é o correspondente político de uma “pequena gravidez”. Também na filosofia política, as palavras fazem sentido, pois não? Sigamos. O leitor poderá dizer. “Pô, Reinaldo, mas não entendi o que há de mal aí; parece até razoável”. Eu sei. O capeta também parece razoável até a assinatura do contrato… Releiam. Na prática, Nobre está afirmando que a ação política de Lula, no que concerne à base aliada, em especial ao PMDB, consistiu em controlar “o Centrão”.

Um “pensador” de esquerda, como Marcos Nobre, quer-se um “dialético”. A dialética é a alegoria de mão dos justificadores do mal. Consiste basicamente em extrair o bem da essência do mal; em demonstrar que aquilo que vemos, que é escancaradamente eloqüente, é só uma etapa de um Bem futuro.

A dialética é uma das religiões dos ateus. Acham a hipótese de Deus irrealista, estúpida mesmo. Mas estão certos de que o mal acaba levando a um salto de qualidade que o transforma no bem.

Para este senhor, a melhor maneira que Lula encontrou de “neutralizar” o Centrão foi fazer tudo o que o PMDB (e outros patriotas) queriam, entenderam? Não é que ele compactuasse com a sacanagem, com a lambança, com a sem-vergonhice. Nada disso! Estava apenas sendo estratégico. Ao supostamente neutralizar essas forças, conseguiu, então, implementar seu programa. A síntese do pensamento marcosiana poderia ser esta: “Lula fez tudo o que as forças do Centrão queriam para neutralizar as forças do Centrão”. É mais ou menos como, ao perceber que se vai ser assaltado, entregar tudo ao ladrão antes que ele saque a arma. Para todos os efeitos, foi uma doação voluntária, não uma chantagem.

Assim, resta a Marcos Nobre censurar — de modo um tanto vexado, claro! — o suposto comportamento moralizador de Dilma. Ela estaria conduzindo a uma regornização do Centrão, que seria o que de pior pode acontecer na política brasileira. Como as palavras fazem sentido e como a lógica já existia antes de Nobre entrar na floresta escura do pensamento, ele está dizendo que Dilma, e não Lula, atua como um agente de regressão política, ainda que não queira. Marcos Nobre chegou, depois de alguns livrinhos, aonde José Dirceu e Lula chegaram sem ler borra nenhuma! É a obra mais evidente de todo intelectual do regime: a inutilidade do conhecimento.

Falei que voltaria a Stálin. Os bate-paus do stalinismo explicaram o acordo Stálin-Hitler como a mais genial e formidável decisão estratégica de seu líder. O tirano só estaria tentando ganhar tempo para organizar a máquina de guerra. Ainda hoje, professores de história repetem essa farsa em sala de aula. Não é que fascismo e socialismo fossem, afinal, farinhas do mesmo saco original e que os dois totalitarismos tivessem a democracia liberal como adversária comum. Nada disso! Stálin só estava dando um jeito de enganar Hitler… Assim como Lula passou oito anos enganando o PMDB, o PR e afins… E como os enganou? Ora, entregando-lhes ministérios de porteira fechada. Foi a face mais doce e mais rentável do ludíbrio.

Nobre está alertando Dilma para os riscos. Leiam isto:
Mas esta estratégia não é livre de riscos, certo?
Não só é arriscado como também tem data de validade. Ela não pode fazer isso por quatro anos porque, desta forma, o sistema político como um todo aparece como vilão. Não dá para levar esta situação além do primeiro semestre de 2012. É em 2012 que o político fará sua base para uma candidatura em 2014. Não se pode apoiar um candidato num contexto em que todo e qualquer político é corrupto. A tática da Dilma até agora deu certo porque ela consegue se apresentar como alguém que luta contra o sistema político por dentro do próprio sistema. Também deu certo porque ela conseguiu ampliar o cordão sanitário. O cordão sanitário vem desde o governo FHC - são aquelas áreas consideradas intocáveis pelo peemedebismo, geralmente saúde, educação e política econômica. Dilma queria estender este cordão aos Transportes, por causa das obras de infraestrutura. Até o momento, deu certo. Mas tem limite, porque o sistema político se volta contra ela.

Vamos ver. Dilma não está pulando por boniteza, mas por necessidade. Não promove uma faxina, ou como queiram chamar, de moto próprio, mas porque os escândalos estão vindo à tona. Fazer o quê? Não dispõe da popularidade — e da cara-de-pau — de Lula para fazer de conta que nada aconteceu. Prestem atenção a isto: “Não se pode apoiar um candidato num contexto em que todo e qualquer político é corrupto. A tática da Dilma até agora deu certo porque ela consegue se apresentar como alguém que luta contra o sistema político por dentro do próprio sistema.” Quem está dizendo que “todo e qualquer político é corrupto?” Ninguém! Dilma tampouco. Ele tem razão numa coisa: ela também é cria desse ambiente, mas só haveria alguma contradição em sua ação se estivesse atuando por iniciativa própria. Não está! Nobre, com seu fatalismo blasé, nos informa que nada há a ser feito. O esforço moralizador da política expõe o líder à reação do sistema. O corolário: melhor condescender com a bandalheira, preservando os bons propósitos.

Ah, os fatos
Há outra coisa que filosofia política nenhuma consegue anular: o peso dos fatos. Leiam isto, e já começo a caminhar para a conclusão.
E se o Executivo tentar governar sem o Congresso?
Seria a chave para a formação do centrão. Dilma tem três espadas apontadas para sua cabeça: a Emenda 29 (que regulamenta os gastos com saúde), a PEC que estabelece o piso para policiais civis e os royalties do petróleo. Todas estão na mão do Congresso. O governo pode não depender do Parlamento - se não quiser fazer grandes reformas, o que é o caso da Dilma -, mas não pode contorná-lo.

Que coisa! Vamos, então, às três espadas. Está em todos os arquivos. A candidata Dilma Rousseff prometeu, em campanha, aprovar a Emenda 29, que garante mais verba para a Saúde. Não vou entrar no mérito de cada “espada” porque o texto ficaria quilométrico. O fato é que ela prometeu. No caso da PEC 300, a que iguala o piso dos policiais ao do Distrito Federal, este pobre escriba (snif, snif…) já deu a cara ao tapa algumas vezes, criticando-a. Está tudo em arquivo. E não é só o piso de policiais civis, não. Na prática, o dos militares também. Como quebraria os estados, aprovou-se uma emenda ao texto original: o que cada unidade da federação gastar a mais, se aprovada a proposta, será coberto pelo Tesouro. Sabem o nome do político que mais se comprometeu com ela e que deu a maior força para que ela prosperasse? Michel Temer! Quanto à divisão igualitária dos royalties do petróleo, dizer o quê? Para não perder apoios regionais importantes, fundamentais para a eleição de Dilma Rousseff, o governo Lula não moveu uma palha para derrotar a proposta, nada! A própria candidata ficou de bico calado. Só para registro: o tucano José Serra deixou claro que era contra.

Assim, o dito “Centrão”, se existisse, não estaria impondo a Dilma nada com que ela não tivesse se comprometido, direta ou indiretamente, quando candidata. A “filosofia política” de Marcos Nobre não resiste aos arquivos.

Nas décadas de 30, 40 e 50, Nobre estaria buscando as razões estratégicas que justificavam a brutalidade stalinista: o combate aos contra-revolucionários, ao imperialismo, ao fascismo… Como Nobre é Nobre, e não Máximo Gorki, ele justifica Lula em nome do combate ao… Centrão!

Como se diz em Dois Córregos: “Vorrrta, ruela!” Eu nunca entendi a origem da expressão (“vorta” é do verbo “vortá”, que é o contrário de “ir”). Sei que quer dizer isto: “Credo! Que nojo! Que coisa mais asquerosa!” É o latim que a gente fala lá de vez em quando. Traduzo: “Vade retro!”

Por Reinaldo Azevedo

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