2011-06-08

Entrevista de Olavo de Carvalho a revista Panorama.

 

Olavo_rindo

Panorama - Existe alguma diferença entre o PT e o PSDB, ou eles são farinha do mesmo saco como se diz no linguajar popular?

Carvalho -
Não são bem farinha do mesmo saco, são as duas lâminas opostas e complementares daquilo que Lênin chamava "a estratégia das tesouras". Cortam por lados opostos, mas produzem uma figura planejada em comum. Veja, por exemplo, essa campanha obscena do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em favor da liberação das drogas. Dirigindo a questão para os aspectos jurídicos e econômicos mais gerais e abstratos, ele camufla o resultado político concreto que a liberação das drogas produzirá fatalmente: a ascensão das Farc à condição de empresa multinacional legítima e partido político legalmente constituído. Isso é a coisa mais clara do mundo. Liberado o comércio de drogas, quem dominará o mercado senão aqueles que já têm o controle absoluto da produção, da distribuição e dos pontos de venda? Transformar-se em empresa e partido, com uma via aberta para a conquista legal do poder, sempre foi o objetivo permanente das Farc, porque guerrilhas, por definição, não visam a uma vitória militar, e sim a uma vitória política. Dar-lhes essa vitória é o objetivo comum do governo e dessa oposição farsesca personificada em Fernando Henrique Cardoso. Não esqueça que PT e PSDB nasceram do mesmo grupo intelectual uspiano que agora domina o cenário político por dois lados.

Panorama - O senhor acredita que a grande mídia nacional é de direita?


Carvalho -
A hipótese é ridícula. A grande mídia nacional, é, na mais ousada das hipóteses, tucana. Verifique por si mesmo: quantos jornais e canais de televisão defendem os valores morais tradicionais que são os da população brasileira? Quantos defendem o cristianismo contra os ataques gayzistas, feministas, etc.? A grande mídia apóia integralmente, fanaticamente, o programa cultural, psicológico e moral da esquerda mais radical, divergindo dela somente na questão da "liberdade de imprensa", que envolve o seu interesse direto. Tal como no caso do PSDB, trata-se apenas de disputa de espaço dentro de um consenso geral esquerdista, e nunca de uma divergência ideológica séria. Pergunte a si mesmo: qual foi a última vez que um cristão conservador dirigiu um jornal ou canal de TV no Brasil? Você vai ter de procurar nos anos 50. Quantos colunistas cristãos conservadores ocupam espaço na grande mídia? Lembre-se da confissão de Luís Garcia, o diretor do Globo: quando o jornal já tinha uma centena de articulistas de esquerda, acharam bom contratar um - unzinho - que lhes parecesse de direita, para disfarçar um pouco, e mesmo assim trataram de chutá-lo fora quando ele começou a falar muito do Foro de São Paulo, numa época em que a mídia inteira jurara fazer silêncio para que essa entidade sinistra pudesse crescer em paz.

Panorama - É verdade que Bill Clinton, quando estudante, se beneficiou de verbas da KGB?

Carvalho -
Não sei. O que é certo é que ele favoreceu o quanto pôde a espionagem chinesa nos EUA e, com a tal "Operação Colômbia", ajudou as Farc a conquistarem o monopólio do comércio de drogas na América Latina. E recebeu milionárias contribuições de campanha do governo chinês. Perto disso, embolsar dinheiro da KGB quando estudante seria apenas um pecadinho de juventude.

Panorama - Barack Obama é um fantoche de Wall Street e das grandes corporações norte-americanas?
Carvalho -
Não. Barack Obama é um fantoche da elite globalista, a qual não é a mesma coisa que "as grandes corporações". Essa elite compõe-se de grandes fortunas que já se libertaram há muito tempo de toda concorrência capitalista e hoje buscam dominar o mundo por meio de controles burocráticos que a tornam uma aliada natural dos movimentos de esquerda. O "Consórcio", como costumo chamá-lo, precisa dos EUA como seu apoio militar, mas ao mesmo tempo precisa debilitar o poder nacional americano e subjugá-lo a controles burocráticos internacionais. É uma situação perigosa e ambígua, que tem de ser manipulada com muita sutileza e infinitos cuidados. Na grande mídia brasileira, você não encontrará um só analista político que entenda alguma coisa do jogo de poder nos EUA. Sobretudo a alternância de disputa e ajuda mútua que se vê entre a elite americana e a revolução islâmica. O mesmo governo que gasta uma fortuna imensa para localizar e matar Bin Laden gasta outro tanto para elevar ao poder, na Líbia, no Egito, etc., a Fraternidade Muçulmana, comando geral do anti-americanismo no Oriente Médio. O esquematismo bocó dos nossos analistas políticos, fruto da pseudo-cultura esquerdista que os formou, não lhes permite compreender nada dessas sutilezas. Os leitores brasileiros são diariamente alimentados com uma ração de imbecilidades provincianas que, vista do exterior, é de fazer dó.

Panorama - Por que a filósofa Marilena Chauí é uma professora de ginásio?


Carvalho -
Não acho que ela sempre tenha sido isso. Seu livro sobre Spinoza, obra de juventude mal recauchutada na idade matura, mostra que ela tinha algum talento quando começou. Ao longo do tempo, porém, ela se deixou imbecilizar pelos compromissos políticos que foi assumindo, ao ponto de se tornar, já não digo uma professora de ginásio, mas uma animadora pedagógica de escolinha do MST. O que eu tinha a dizer sobre ela já foi dito no meu artigo "O Chicote da Tiazinha". Leia e veja se estou exagerando.

Panorama - Leandro Konder é mesmo um propagandista barato?
Carvalho -
Não. É um homem de talento que se deixou rebaixar a essa condição por comodismo, desejo de afeição, saudosismo e tudo o mais que corrompe um ser humano e faz dele um escravo da sua geração, ou patota de juventude. A intelectualidade esquerdista tem uma capacidade de envolvimento, uma espécie de grude que se cola nas pessoas e destrói suas almas a golpes de lisonja e de chantagem emocional. Até mesmo o grande Otto Maria Carpeaux, um homem de gênio, terminou seus dias como um bobão, um office boy do Partido Comunista que ele intimamente desprezava. Leia a minha introdução ao volume I dos Ensaios Reunidos e verá do que estou falando. Por que o Leandro Konder, uma personalidade muito mais fraca do que o Carpeaux, iria resistir melhor a essa máquina de moer cérebros?
Panorama - O senhor talvez seja um dos poucos brasileiros que dizem que o cantor Chico Buarque é tão significativo antropologicamente quanto à extinta Banheira do Gugu. Como chegou a essa conclusão?
Carvalho -
Chico Buarque de Hollanda é um sambista que encontrou um dicionário de rimas na biblioteca do pai e fez umas letras que, na terra do Teixeirinha, pareciam sofisticadas. Isso é tudo. Não é um poeta de maneira alguma; está, rigorosamente, fora da literatura. Para perceber isso, é preciso ter lido Mallarmé, Saint-John Perse, Ungaretti, Yeats e, de modo geral, a grande poesia universal. Ele mesmo disse, numa de suas letras de samba: "Quem não conhece não pode reconhecer." Ele escreve para um público que não tem a menor experiência da grande poesia e que, por isso mesmo, o aceita como poeta. A importância desmedida que se dá a seus escritos é mais um sinal da miséria cultural brasileira, mas essa mesma miséria impede que as pessoas a percebam. Diga você mesmo, sinceramente, se tem a formação literária requerida para distinguir entre poesia e pseudo-poesia. O provincianismo brasileiro chegou àquele ponto em que o caipira não consegue imaginar nada fora da sua província e acha que está em Atenas. O Brasil simplesmente já não tem uma elite intelectual capaz de perceber as coisas com suas devidas proporções.

Panorama - Não existe nada que o senhor goste nas idéias de esquerda?
Carvalho - A pergunta é um pouco simplória. "A esquerda" é uma tradição cultural e política com mais de duzentos anos de existência, coisa de uma complexidade e riqueza quase inabarcáveis, e, mesmo que se esforçasse muito para fazer só porcaria, teria necessariamente de produzir alguma coisa boa nesse ínterim, ao menos por equívoco. Quando penso "a esquerda", o que vem à minha mente é algo de imensamente mais vasto do que aquilo que se entende pelo termo nesse favelão intelectual que é o Brasil. "A esquerda" é, por exemplo, Charles Péguy, é Jules Michelet, é John Ruskin, é Heinrich Heine, é José Ingenieros. Nem o mais empedernido dos reacionários pensaria em jogar tudo isso fora. Quantas páginas de Lênin, de Marx, de Gramsci, não li com grande satisfação! Faça a sua pergunta a algum cabo eleitoral, não a um homem de estudos.

Panorama - O senhor não considera legítima a luta do MST?
Carvalho - Não é uma questão de legitimidade. É uma questão de receita e despesa. O MST custa uma fábula aos cofres públicos e não contribui em nada nem mesmo para o sustento dos seus próprios membros. Enquanto isso, o tão abominado agronegócio fornece aos brasileiros comida abundante e barata, tapa os rombos da balança de pagamentos e ainda leva pedradas e cuspidas da turma do MST. O MST tem tanto a ver com agricultura quanto eu com a criação de tatus. Aquilo é uma comedeira de dinheiro, uma sem-vergonhice total e, pior, acabou se tornando mais um instrumento para a penetração das Farc no Brasil. "Legitimidade" é um valor abstrato que não tem nada a ver com o caso. No Brasil, "pensar" tornou-se sinônimo de aderir genericamente a símbolos abstratos e ostentar distintivos. Isso é coisa de retardado mental.

Panorama - O que mais prejudicou a humanidade: a ciência, os bancos ou as religiões e por quê?
Carvalho - Faça as contas. O movimento revolucionário, que prometeu nos libertar de todos os males do mundo, matou mais gente, em dois séculos, do que todas as epidemias, terremotos, furacões e guerras desde a origem da espécie humana. Some Revolução Francesa, Revolução Mexicana, Revolução Russa, Revolução Chinesa, etc., e compare com as demais causas de mortandade, incluindo guerras. Nada se compara, em capacidade mortífera, aos construtores de "um futuro melhor". Não é uma questão de opinião. É uma questão de números. Perto disso, acusar as religiões ou a ciência é de uma hipocrisia sem par.

Panorama - O economista Rodrigo Constantino disse que sua vaidade é maior que o seu fanatismo religioso. O que tem a dizer sobre isso?
Carvalho - Um sujeito que começa uma conferência gabando-se dos belos resultados do seu último regime de emagrecimento não deveria chamar ninguém de vaidoso. Constantino é um moleque bobo e nada do que ele diga sobre o que quer que seja tem a mais mínima importância.


http://www.panoramamercantil.com/opiniaonacional.htm

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