2011-03-09

O caso John Galliano, o carnavalesco nazista

O caso John Galliano

O estilista John Galliano não gosta de judeus. Corrijo. John Galliano não gosta de judeus, ama Hitler e gostaria de exterminar os que sobraram em novas câmaras de gás.

Eis, em resumo, o "pensamento" da criatura, posto a circular na internet. Foi num café de Paris: Galliano, alcoolizado e com o seu reconhecível traje de palhaço, insulta um casal. A empresa Dior não gostou da brincadeira e fez o que normalmente se faz a um empregado inapto: colocou-o na rua.

Ponto final? Isso pensava eu. Mas o interessante do "caso Galliano" não foi o caso em si. Foram as reações ao caso, que se dividiram em dois tipos e em dois tempos.

28.fev.2011-Michel Euler/AP

O estilista John Galliano chega a delegacia em Paris

O estilista John Galliano chega a delegacia em Paris

Primeiro, houve aplausos: a França pune legalmente ofensas antissemitas e não gosta que um "criador" lhe relembre a sua vasta história de perseguição aos judeus. Do Caso Dreyfus ao consulado de Vichy, o historial não é propriamente limpo. Punir Galliano é exemplar e, mais que exemplar, catártico: uma forma de gritarmos bem alto que não toleramos mais o que nossos antepassados fizeram de baixo.

A essa reação moralista, sucedeu-se outra: a dos que defendem a liberdade de expressão em qualquer circunstância. E que, deplorando a conduta de Galliano, acrescentaram que todos temos direito às nossas sujeiras mentais. Contra judeus, muçulmanos, cristãos. E brancos, e negros, e amarelos, e azuis.

Entendo o moralismo dos primeiros. Inclino-me para concordar com os segundos. Mas, com a devida vénia a ambos, o "caso Galliano" não é um caso de antissemitismo; nem sequer de liberdade de expressão no sentido lato e nobre do termo.

É um caso puramente econômico. Como lembra a sempre sábia "The Economist", a Dior faturou US$ 29 bilhões em 2010. Galliano contribuiu com 4% desse faturamento geral. É fazer as contas: será que uma empresa que fatura US$ 29 bilhões pode dar-se ao luxo de empregar um antissemita ambulante que, ainda por cima, só participa residualmente no bolo geral?

Não pode. O risco não compensa. E a Dior, antes de vender vestidos e sonhos, paga contas e empréstimos. Um pormenor que deveria servir de aviso para "estrelas" várias que, alimentadas pelo circo da bovinidade geral, se julgam maiores do que os cheques que as mantêm.

O caso Galliano, mais que uma questão moral, é sobretudo uma lição empresarial. E até nisso o capitalismo é bom. Disciplina os selvagens.

João Pereira Coutinho

João Pereira Coutinho, 34 anos, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha.com.


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