2011-02-19

A Síria miserável está em paz; o rico Bahrein, mergulhado em sangue

18/02/2011

 

Sayyid_Qutb

às 19:00

A Síria miserável está em paz; o rico Bahrein, mergulhado em sangue

Os protestos se espalham pelo Oriente Médio. Curiosamente, a tirania síria parece imune à onda. Uma tentativa de manifestação ali foi prontamente reprimida e não se falou mais no assunto. Os territórios palestinos também estão, nesse particular ao menos, em paz. Não ocorre a ninguém pedir nem mesmo mais eficiência ao Hamas na Faixa de Gaza e ao Fatah, na Cisjordânia.

O IDH da Síria é 0,589; o do Bahrein, 0,801, mas a Síria está em paz, e o Bahrein, conflagrado. A renda per capita da Síria é de US 4.488 (111º lugar no mundo); a do Bahrein é de US$ 34.662 (a do Brasil é de US$ 10.296…), mas a Síria está em paz, e o Bahrein, conflagrado. A Síria tem um governo hostil aos EUA, e o Bahrein é um importante aliado dos EUA. E a Síria está em paz, e o Bahrein, conflagrado…

Tenho simpatia pela idéia, é o meu lado idealista, de que a prosperidade é menos compatível com a ditadura do que a pobreza, mas logo vem a China para desafiar o meu lado romântico. No campo miserável ou nas cidades prósperas, a tirania vai muito bem, obrigado! Parece que algo além da pobreza ou da ditadura alimenta a revolta no mundo árabe. E tenho pra mim que o fenômeno ainda não foi suficientemente compreendido.

No caso do Bahrein, há um conflito religioso importante. O país é governado pela minoria sunita, à qual pertence a família real, e a maioria da pequena população é composta de xiitas. Mas isso, sozinho, não parece ser suficiente para explicar a energia dos manifestantes. A pobreza do Iêmen é usada como um dos fatores que empurram o povo para a praça, mas o que dizer sobre o rico Bahrein?

“E como você explica o Irã no meio de tudo isso?” Ora, tola seria a oposição iraniana, que está tentando sair às ruas há muito mais tempo, se não aproveitasse a onda para se manifestar. De todo modo, a ditadura por lá se mostrou mais “eficaz”: os líderes do movimento estão em prisão domiciliar, e os cães do regime estão nas ruas e no Paramento exigindo que sejam punidos com a pena de morte.

Vamos com cuidado
A suposição de que qualquer coisa é melhor do que as atuais ditaduras do Oriente Médio é uma idéia estúpida. A possibilidade de que as autocracias sejam substituídas por teocracias fundamentalistas é real. “Ah, pelo menos mudaria o atual status…” É? Esse outro “status” seria exatamente qual?

E o governo dos EUA nessa história toda? Merece um post à parte.

Por Reinaldo Azevedo

 

18/02/2011

às 18:04

A onda

 

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Abaixo, segue um giro pelo Oriente Médio feito pelo Portal G1, com informações das Agências.
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Países do Oriente Médio tiveram novos violentos confrontos nesta sexta-feira (18) durante protestos populares contra governos totalitários, inspirados pela recente queda dos regimes do Egito e da Tunísia. No Iêmen, uma granada explodiu durante manifestação na cidade de Taiz, matando duas pessoas e deixando outras feridas. Outras três pessoas morreram em protestos na cidade portuária de Aden.

Líbia
Na Líbia, onde o número de mortos em confrontos na véspera é calculado em pelo menos 24 pela organização Human Rights Watch, o Exército tomou as ruas da cidade de Benghazi para controlar os manifestantes contrários ao regime de Muammar Gaddafi, coronel que está no poder desde 1969. Os comitês revolucionários, pilares do regime, ameaçaram os manifestantes oposicionistas com uma resposta “violenta e fulminante”.

Guardas da prisão líbia de El Yedaida, perto da capital, Trípoli, mataram três presos que tentavam fugir, informou uma fonte das forças de segurança. Manifestantes capturaram dois policiais e os enforcaram em Al-Baida, a 1.200 a leste da capital, informou o jornal “Oea”, próximo a Seif Al Islam, filho de Gaddafi. Mais cedo, uma fuga em massa de prisioneiros foi registrada em uma penitenciária de Benghazi, a 1.000 km de Trípoli, após uma rebelião.

Bahrein
No Bahrein, país aliado dos EUA, políciais voltaram a reprimir, com tiros e gás, manifestantes que foram às ruas da capital, Manama. Pelo menos 23 pessoas ficaram feridas, segundo o ex-parlamentar xiita Jalal Firooz. Antes, milhares de pessoas compareceram ao funeral de dois xiitas mortos pela violenta repressão policial da véspera. O rei do Bahrein, Hamad bin Isa al-Khalifa, pediu ao príncipe herdeiro que comece um “diálogo nacional” com todos os partidos para resolver a crise. O xeque Salman bin Hamad al-Khalifa tem “todo os poderes” para responder às aspirações populares, disse o rei.

“O diálogo está sempre aberto, e as reformas continuam’, disse o príncipe herdeiro à TV. “Esta terra é para todos os cidadãos do Bahrein… Todas as pessoas honestas devem dizer ‘basta’ neste momento.” O Bahrein, pequeno arquipélago do Golfo com um milhão de habitantes, é governado por uma dinastia sunita, embora a maioria de sua população seja formada por muçulmanos xiitas.

A repressão policial aos protestos deixou três mortos e 200 feridos, de acordo com as autoridades, e quatro mortos segundo a oposição xiita. Ao todo, cinco pessoas já morreram desde segunda, quando tiveram início as manifestações, segundo fontes oficiais.

Jordânia e Omã
Pelo menos oito pessoas ficaram feridas nesta sexta em Amã, capital da Jordânia, quando defensores do governo atacaram centenas de jovens que participavam de uma manifestação para pedir reformas políticas, informaram um médico e várias testemunhas. Estes são os primeiros confrontos violentos desde o início do movimento de protestos políticos e sociais no país, há algumas semanas, e que obrigaram o Rei Abdullah a reformar o governo.

Em Omã, cerca de 300 pessoas, incluindo várias mulheres, se manifestaram pacificamente  no centro de Mascate para pedir aumento salarial e reformas políticas. Os participantes da passeata, a segunda deste tipo em um mês no país, percorreram a avenida da capital que abriga os prédios dos principais ministérios, carregando cartazes com dizeres como “Parem o aumento de preços!”, “Aumentem os salários!” e “Autorizem os bancos islâmicos!”. Apesar dos protestos, os manifestantes juraram lealdade ao sultão Qabus bin Said al-Said, que governa o país.

Irã
No Irã, manifestantes pró-governo foram às ruas da capital, Teerã, pedir a morte dos principais líderes oposicionistas, que estão em prisão domiciliar. O país reprimiu violentamente protestos contra o governo na segunda-feira.

Egito
Os atos são inspirados nas revoltas populares que derrubaram os governos da Tunísia e do Egito e que se espalham por países muçulmanos de regime autocrático nos últimos dias, muitas vezes inspirados por ativistas que usam a internet para organizar e divulgar os protestos.

No Egito, uma grande festa na Praça Tahrir, no centro do Cairo, celebrou uma semana sem o presidente Hosni Mubarak, que caiu depois de 18 dias de protestos de rua de ter controlado o país ao longo de quase 30 anos. Ele renunciou deixando o poder nas mãos de uma junta militar que prometeu garnatir a ordem e fazer a transição do país para a democracia em um prazo de seis meses.

O ato - uma homenagem aos pelo menos 365 mortos durante a repressão policial aos protestos -  foi pacífico e encarado como uma pressão da oposição sobre o Exército em relação à maneira como ocorre a transição democrática.

Liga Árabe
O secretário-geral da Liga Árabe, Amr Mussa, disse nessa sexta que o grupo não recebeu nenhuma solicitação formal para o adiamento da cúpula planejada para março no Iraque. A declaração dele contradiz uma informação dada pelo governo da Líbia. O evento, em 29 de março, é considerado crucial para a reintegração do Iraque ao mundo árabe, mas ocorre num momento crítico para a região, depois dos protestos que derrubaram os governos da Tunísia e do Egito.

A Jana, agência oficial de notícias da Líbia, disse que “circunstâncias na região árabe” haviam motivado o adiamento da cúpula. Questionado sobre isso pela Reuters, Mussa respondeu: “Não recebi nenhuma solicitação formal”. O principal objetivo do Iraque na cúpula é tranqüilizar seus vizinhos. Muitos governos árabes sunitas vêem com desconfiança a ascensão ao poder da maioria xiita do Iraque, e temem que isso amplie a influência regional do Irã, um país xiita e não-árabe.

O sucesso da cúpula em tese ajudaria o Iraque a se reafirmar como um país árabe relevante, e poderia reduzir o apoio tácito de alguns países árabes à insurgência sunita - que, nos últimos anos, foi sensivelmente enfraquecida, mas continua agindo com violência. O egípcio Mussa havia dito no mês passado numa cúpula em Sharm el Sheikh - balneário do mar Vermelho onde o ditador Hosni Mubarak se refugiou ao ser deposto - que a ira dos cidadãos árabes com os problemas políticos e econômicos atingiu níveis sem precedentes.

Por Reinaldo Azevedo

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