2011-02-07

Perigo à vista

Perigo à vista

A Irmandade Muçulmana, matriz ideológica das forças revolucionárias no mundo islâmico, pode não ter impulsionado a rebelião egípcia, mas é a única organização que pode dominar o país após a saída de Mubarak.

Olavo de Carvalho - 6/2/2011 - 19h22

Assassinados por compatriotas fanáticos, Anwar El-Sadat e Yitzhak Rabin pagaram o mais alto preço pela paz, mas o prazo de validade do produto que adquiriram está se esgotando rapidamente. A queda de Hosni Mubarak retira do cenário um dos poucos obstáculos que ainda retardavam a constituição da grande unidade estratégica islâmica destinada a
instaurar o Califado Universal, e de passagem, varrer Israel do mapa. Alguns fatores, que as mentes iluminadas dos comentaristas internacionais de praxe não vislumbram nem de longe, contribuem para elevar à enésima potência a periculosidade do momento:

A Irmandade Muçulmana, matriz ideológica das forças revolucionárias no mundo islâmico, talvez não tenha dado o impulso inicial da rebelião egípcia, mas é com certeza a única organização política habilitada a tirar proveito do caos  e dominar o país após a saída de Mubarak. O governo americano sabe disso e vê com bons olhosa ascensão da Irmandade, provando uma vez mais que Barack Hussein Obama trabalha de caso pensado em prol dos inimigos do Ocidente. As desconversas tranquilizantes emitidas pelo Departamento de Estado nos últimos dias são tão contraditórias que equivalem a uma confissão de falsidade: primeiro juraram que a Irmandade estava à margem dos acontecimentos; depois, quando se tornou impossível continuar acreditando nisso, asseguraram que a organização tinha mudado, que tinha se tornado mansa e pacífica como um cordeirinho.

Comentaristas hostis ao governo observaram que, ao voltar-se contra Mubarak, Obama copiava o exemplo de Jimmy Carter, que, também a pretexto de fomentar a democracia, ajudou a derrubar um governo aliado para fazer do Irã um dos mais temíveis inimigos dos EUA e uma ditadura mil vezes mais repressiva que a do velho Xá. A diferença, creio, é que Carter parece ter agido por estupidez genuína, ao passo que Obama, que teve sua carreira apadrinhada por um príncipe saudita pró-terrorista, e cujas ligações com a esquerda radical são as mais comprometedoras que se pode imaginar, segue com toda a evidência um plano racional concebido para debilitar a posição do seu país no quadro internacional, ao mesmo tempo que vai demolindo sistematicamente a economia no plano interno.

A política agrícola do governo Obama parece calculada para fomentar a rebelião. O Egito, país desértico, depende do trigo americano, cujo preço subiu 70% nos últimos meses, enquanto o dólar baixava de valor, criando uma situação insustentável para os egípcios. Com meses de antecedência, analistas econômicos avisavam que a coisa ia explodir.

Rebeliões similares vêm se esboçando em outros países islâmicos, como Tunísia, Jordânia e Iêmen, sempre dirigidas à mesma meta: eliminar os governos pró-ocidentais e ampliar a influência da Irmandade Muçulmana, aliada do Hamas e de outras organizações terroristas. O estado de pânico que se espalhou entre aqueles governos pode ser avaliado pelo fato de que nos últimos meses importaram mais trigo do que nunca, dificultando ainda mais a vida dos egípcios. 

Mesmo unificado em torno do projeto do Califado Universal, o Islã não representaria grande perigo estratégico de curto prazo para o Ocidente, mas nada do que acontece no mundo islâmico está isolado da grande estratégia "eurasiana" que hoje  orienta os governos da Rússia e da China.

A ideia originou-se no "nacional-bolchevismo", um sincretismo ideológico criado pelo escritor Edward Limonov e pelo filósofo Alexandre Duguin nos anos 80. Partindo de um esquema estereotipado da civilização do Ocidente, extraído do livro de Sir Karl Popper, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Limonov sonhava com uma aliança mundial entre todos os virtuais inimigos da mentalidade científico-relativista ocidental, isto é, os amantes de "verdades absolutas".

Como se tratava apenas de destruir o relativismo – e, por tabela, a civilização baseada nele –, pouco importava, para Limonov, que os vários absolutos convocados à luta se contradissessem uns aos outros: a fraternidade negativa podia incluir em si comunistas e tradicionalistas católicos, nazistas, fascistas, islamitas, hinduístas, admiradores de René Guénon e Julius Evola etc. A santa unidade recebia ainda de braços abertos toda sorte de odiadores da América: punks, "rebeldes sem causa", militantes black power e assim por diante.

Na onda de anti-americanismo que se espalhou pelo mundo após a dissolução da URSS, a oferta de apaziguar velhos antagonismos na base do ódio a um inimigo comum pareceu um alívio para muita gente, especialmente guénonianos e evolianos, que, hostis ao "mundo moderno" em geral, viram aí o remédio do seu angustiante senso de isolamento.

O "nacional-bolchevismo" era só uma ideologia, mas Alexander Duguin acabou por superá-lo e absorvê-lo numa formidável síntese estratégica, o "eurasismo",
que hoje orienta a política internacional de Vladimir Putin e cuja primeira vitória substantiva foi a constituição do Pacto de Solidariedade de Shangai (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/060130dc.htm), destinado a ampliar-se até abranger, se possível, todas as forças anti-americanas do universo (especialmente a Irmandade Muçulmana), não apenas em torno de uma vaga proposta ideológica, mas de planos de ação político-militares  bem definidos. Tanto Limonov quanto Duguin são filhos de oficiais da KGB, e o segundo é o maître à penser do homem que mais encarna a KGB no poder.

Seduzidos pela promessa de destruir o "mundo moderno", muitos tradicionalistas de periferia – católicos, ortodoxos ou muçulmanos –, acabarão se tornando os melhores idiotas úteis que a KGB já teve à disposição. A nenhuma dessas inteligências  ocorreu notar que o liberalismo de Karl Popper é uma coisa e a nação americana é outra muito diversa; que a destruição ou marginalização desta última não trará a extinção da execrável "modernidade" e o advento do Reino de Deus na Terra, mas sim o triunfo dos globalistas ocidentais, para os quais a neutralização do poder  americano é a urgência das urgências, e cujas relações com o esquema russo-chinês são bem mais amigáveis do que toda a retórica "eurasiana" dá a entender (o próprio apoio do governo Obama à rebelião egípcia é prova disso). A crise no Egito não é só uma vitória do radicalismo islâmico, mas, por trás dele, do projeto eurasiano.

Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de filosofia.

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