2011-02-05

A difícil arte de ser Caetano Veloso

por Felipe Atxa em 5 de fevereiro de 2011 Opinião - Cultura

 

O cantor na capa da revista Rolling Stone. Há décadas brincando com ambigüidades irrelevantes

Somente Caetano Veloso poderia dizer o que diz e ser levado a sério. É possível horrorizar-se com uma declaração sua, e no minuto seguinte bater palmas. A favor e contra ninguém e nada ao mesmo tempo, Caetano é o mil e uma utilidades da cultura popular brasileira.

Está confuso? Não se engane: andando dois passos para frente e dois atrás, alternada e sucessivamente, ele não sai do lugar há 4 décadas.

Em entrevista à revista Serafina de 30 de janeiro de 2011, Caetano mais uma vez firula para lá e para cá, alterna simpatia e bordoadas como quem joga cartas consigo mesmo (será "paciência" o jogo?). Quem entrevista fica só observando e, no final, cai da cadeira e ajoelha-se. Embora não faça muito sentido, embora o que Caetano fala seja pura forma, funciona há tempo demais para algum jornalista perceber que, de tanto estimular o interlocutor com opiniões contraditórias, tudo relacionado a ele não tem mais importância real.

Sobre drogas, Caetano é favorável a sua liberação, mas "nunca gostou delas". "Vindo de uma família muito católica", ele não dormia sem rezar, mas afirma que "A Record não tem mais rabo preso com o bispo do que a Globo com o cardeal".  O que será que ele quer dizer com isso? Que o "cardeal" vê as fitas do BBB antes de irem ao ar? E qual "cardeal" é esse?

Adepto do candomblé (mas "ateu"), "nunca recebeu seu orixá". Crítico feroz de Lula, a quem chama de "carola", o cantor está "adorando tudo" no novo governo, especialmente porque "Dilma tirou a Bíblia de cima da mesa..." Quanto a isso, retornar ao parágrafo anterior.

Tropicalista, é pai de dois cantores evangélicos e um católico e tem restrições ao "pensamento da esquerda militante" e à "moral das religiões".

De volta às Organizações Globo, não se priva de cantar numa festa fechada da Globosat. Sua irmã Mabel resume que ele é alegre e triste, simultaneamente. Vive no Rio mas diz que São Paulo é "tropicalista", e a capital fluminense não. Talvez tudo isso explique a poética e virulenta confusão mental de Caetano Veloso. Enquanto houver quem lhe dê microfone, ele não vai ter que se decidir - assim fica de bem e de mal com todos, com um pé em cada canoa, acendendo vela para todos os santos que existem.

Os jornalistas, os fãs, os culturetes adoram. Quem foi que falou mesmo que a malandragem vai continuar prevalecendo enquanto nascer otário no mundo?