2011-02-20

Agressões poéticas

 
Piramides
 
Agressões poéticas

Durante semanas, o mundo viveu na praça Tahrir. Não na praça Tahrir real, no Cairo, onde o povo se reuniu para exigir a queda de Mubarak…

Mas numa praça Tahrir imaginária, espécie de estado da natureza de Rousseau, onde não existia maldade ou mesquinhez. Ler e ouvir os nossos ‘enviados especiais’ não era saber através deles o que se passava realmente no Egipto; apenas o que se passava nas suas peculiares cabeças, muito amantes da efabulação e de delírio.

Cheguei a temer que alguns enlouquecessem de tanto amor pelos egípcios. Estas fantasias começaram a rachar; e descobre-se agora que, no Cairo do lirismo, abundaram assaltos, espancamentos e até, vejam só, ‘agressões sexuais’, uma delas em plena praça contra uma conhecida jornalista americana. Sartre dizia que, nas revoluções, os homens fazem amor com a História.

No Egipto, a rapaziada preferiu o que estava mais à mão, partindo do pressuposto de que ‘agressão sexual’ não se refere a um simples pontapé nas partes. Melhor assim: chamar os bois pelos nomes teria estragado o poema e, além disso, ‘estupro’ ou ‘violação’ nunca fizeram boas rimas.

 

José Pereira Coutinho

 

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/opiniao/joao-pereira-coutinho/agressoes-poeticas

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