2011-01-18

“Finge-te de idiota, e terás o céu e a terra”.

 

banana

DO LIXO À RECICLAGEM CULTURAL

"Eles têm grandes números. Nós temos as alturas"
(Tucídides)

Ângelo Monteiro*
especial para o Tango Argentino

O intelectual brasileiro só consegue ser reconhecido como tal quando cumpre seu mandamento chave: seguir sempre a pauta dominante que, no momento, além da suma importância atribuída aos gêneros, consiste em entronizar certas performances emanadas das periferias. É, portanto, um trágico erro de Bernardo Souto – um valente poeta da nova geração – achar que a poesia deveria ultrapassar o vômito da poética de Miró da Muribeca; de igual modo seria gravíssimo, do ponto de vista do artista plástico, não acreditar como o costarriquenho Guillermo Habacuc Vargas que, transformando um vira-lata numa instalação perecível, com sua morte já calculada, estaria elevando o nível das vanguardas da arte no mundo.


É se negar, também, a qualquer respeitabilidade artística não admitir, com Ferreira Gullar, que o espaço institucional das galerias ou das páginas de revistas e jornais é aquele que gera e, ao mesmo tempo, valida a criação artística, quer plástica, quer literária. Dessa forma Bernardo Souto perante essa luminosa ótica assumiu uma atitude fascista (vejam, minha gente, o fascismo nunca esteve moribundo!) quando, além de não seguir o rebanho de Duchamps, deixa de prestar as homenagens devidas a um dos ídolos das letras performáticas: o hoje indispensável Miró da Muribeca, um nome que, inclusive, já mereceu seriíssimas dissertações dos cursos de letras das nossas universidades...


Poder-se-ia alegar, em favor de Bernardo Souto, que o nível mais refinado de suas preocupações culturais não lhe daria acesso a uma atmosfera propícia para se curvar ao pretexto político da arte das periferias, sob a alegação de que os promotores dessa onda pouco estão preocupados com a elevação intelectual do seu ídolo, e que se lhe arranjassem um emprego, em vez de explorá-lo como a um saltimbanco de performances lamentáveis, tudo estaria arranjado.


Ora, esses escrúpulos de natureza estética já denotam um viés ideológico direitista. Assim como desdenhar a incultura e a ignorância consiste, inequivocamente, numa prova mais do que cabal de preconceito. E, nesse caso, o ensaísta Bernardo Souto não está devidamente capacitado para entender as enormes sutilezas da nossa atual cultura nem, muito menos, o trabalho profícuo das nossas universidades de reciclar o lixo cultural e, dessa maneira, fazer com que se cumpra este mandamento de Nelson Rodrigues: “Finge-te de idiota, e terás o céu e a terra”.

Recife, 15 de janeiro de 2011
*Ângelo Monteiro é poeta e filósofo

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