2010-10-08

Dilma, uma fala sem sentido, o jornalismo sob a autocensura e a história

Dilma, uma fala sem sentido, o jornalismo sob a autocensura e a história

Caras e caros,
Um texto um tanto longo que trata de três temas com domínios próprios, mas interligados neste caso: o trabalho do jornalismo, o método de um partido e as tramas da linguagem em conexão com a história. No fim de tudo, há até um pequeno passatempo. Vocês vão gostar, acho eu.
*

Boa parte do jornalismo vive sob a forma mais perversa de censura: a autocensura — se é que não estamos diante de coisa pior. Vi ontem Dilma Rousseff no Jornal Nacional. Afirmou o seguinte:
“Sou de uma família católica. Eu sou, SEMPRE FUI, a favor da vida, senão eu não tinha (sic), inclusive, colocado a minha vida em risco em determinado momento. Porque só quem é a favor da vida tem condições e a generosidade suficiente para saber que a gente deve, em todas as circunstâncias, afirmar a vida”.

Vejam o filme — que prova, na minha opinião, que Lula cometeu abuso de poder político e econômico ao fazer a pajelança partidária num prédio público.

Antes que analise essa fala e suas implicações políticas e de linguagem, uma observação. Sei que os petistas andam dizendo o diabo a meu respeito na Internet. Não é de hoje. O chato pra eles é que não podem me acusar de lhes atribuir nada que não tenham feito ou dito. Embora já tenha dado uns bons furos aqui, eu denuncio mais imposturas intelectuais e políticas do que falcatruas. E, às vezes, parece que isso incomoda mais do que se eu simplesmente os chamasse de ladrões.

Entendo os motivos. Diante da acusação de uma irregularidade, eles sempre podem dizer: “Ah, mas fulano também faz!”  Provar o fundo falso dos seus argumentos, a sua mentira essencial, mexe com a sua vaidade, com a ficção que criaram para si mesmos: a de grandes paladinos da ética. Então vou fazer o que faço sempre: analisar no detalhe o enunciado, demonstrar que parte dele não faz sentido e provar que a parte que faz é desmentida pela história. E vou, claro, bater um papinho virtual com alguns coleguinhas.

E começo por este último propósito. Com a fala acima, Dilma está afirmando que é  e que sempre foi contra o aborto — embora, no trecho levado ao ar ao menos, não tenha tocado na palavra. Quem a interpreta para a massa é a repórter Délis Ortiz. Pois bem, leitores: qual é a obrigação — NOTEM BEM: OBRIGAÇÃO! — de um jornalista quando uma autoridade ou político de expressão faz uma afirmação em flagrante contraste com os fatos? Pois não houve um só dos demais cristãos presentes que lembrasse Dilma do vídeo abaixo, por exemplo (se você já viu, siga a leitura depois dele), em que responde a uma pergunta feita por Fernando de Barros e Silva, então editor de Brasil da Folha, ou da entrevista à revista Marie Claire, em 2009.

A Folha sabia, portanto, desde 2007, pela boca da própria Dilma, o que ela pensava sobre o aborto. Avancemos.

Ainda que se quisesse dar de barato que, agora, a candidata é contra a descriminação do aborto, o “sempre fui” OBRIGA o jornalista a, no mínimo, indagá-la, nem que seja nestes termos altivos:
“Excelentíssima, desculpe se pareço impertinente, não vá se zangar, juro que não quero constrangê-la, estou até muito aborrecido de ter de fazer o meu trabalho, sei que a companheira compreenderá, perdoe-me mesmo!, mas Vossa Alteza não afirmou em 2007 que era a favor da descriminação? Não disse à Marie Claire, em 2009, que era favorável à legalização? Então Vossa Santidade (há jornalista que não sabe que isso é só pra papa, leitor!) mudou de idéia?”

Nem isso! Jornalismo à moda antiga, então, nem pensar:
“Candidata, o que a senhora fala agora é diferente do que falou em outras circunstâncias. Mudou de idéia pra se eleger?”
Não seria educado! Os petistas ficariam chateados. Alguns jornalistas ainda chamam a opinião de Dilma, favorável à descriminação, de “boato”.

O método petista
Não se trata de acusar o PT de dizer ora uma coisa, ora outra. O método não é exatamente esse. Reparem que Dilma agora quer que interpretemos que ela é contra o aborto sem nunca ter deixado de ser a favor. Assim como o partido é a favor da Lei de Responsabilidade Fiscal sem nunca ter deixado de ser contra. Assim como pode ser gostosamente capitalista sem abrir mão do socialismo. Aliás, naquele vídeo da Folha, vejam lá, a então ministra diz a Fernando Barros que continua socialista! Deve ser isto que a parte do setor financeiro que a apóia vê nela: pendores socialistas! Tenham paciência!

Assim como outras justaposições do petismo não foram jamais cobradas, também essa vai ficando por aí. O embate, de fato, existe na Internet. Boa parte do chamado jornalismo tradicional se limita a reportar o que está na rede. É uma vergonha! Parece incapaz de informar: “Dilma defendeu a descriminação do aborto em várias entrevistas”. Sabem por que não o faz? Os venais porque trabalham para o PT. E os não-venais porque têm medo da patrulha petista. O partido considera o jornalismo muito ofensivo às vezes…

Agora a fala propriamente
A fala de Dilma é uma coisa espantosa. Estou certo de que o texto era outro, mas ela esqueceu. É por isso que a Palmirinha (exijo a sua volta à TV) usava ponto eletrônico. Vamos ver a sua fala em partes.
“Sou de uma família católica. Eu sou, SEMPRE FUI, a favor da vida, senão eu não tinha (sic), inclusive, colocado a minha vida em risco em determinado momento.”
O que esse “senão”, essa conjunção alternativa de sentido ligeiramente adversativo, faz aí? Quer dizer que aqueles que não são favoráveis à vida jamais a põem em risco, é isso? É nesta hora que a petezada realmente se enfeza comigo — e até alguns amigos me aconselham: “Fique longe disso!”… Eu não!

Pra começo de conversa, Dilma não botou apenas a sua vida em risco, mas também a dos outros. Os grupos terroristas aos quais pertenceu mataram pessoas inocentes. Verdade ou mentira? Acusação ou fato? Mera lorota “da direita” ou verdade documentada?

Mais: é uma bobagem esse negócio de que só quem é a favor da vida a põe em risco. Homicidas compulsivos também podem ser suicidas, como sabem Hitler e Goebbels, para citar dois casos muito famosos. Escarafunchando a psicanálise, aliás, pode-se chegar bem perto da conclusão de que os que se põem permanentemente em risco não respeitam muito a vida alheia também. A especulação de Dilma é histórica, ética e psicologicamente furada!

O mais fabuloso, no entanto, vem agora, nesta verdadeira explosão tautológica — e vou lhes propor um exercício. Atenção!
“Porque só quem é a favor da vida tem condições e a generosidade suficiente para saber que a gente deve, em todas as circunstâncias, afirmar a vida”.

Hein???

Troque a palavra vida por, sei lá, “Corinthians”. A frase fica assim:
“Porque só quem é a favor do Corinthians tem condições e a generosidade suficiente para saber que a gente deve, em todas as circunstâncias, afirmar o Corinthians”.

Troque Corinthians por uma fatia de mortadela. A frase fica assim:
“Porque só quem é a favor de uma fatia de mortadela tem condições e a generosidade suficiente para saber que a gente deve, em todas as circunstâncias, afirmar a fatia de mortadela”.

O que ela quis dizer mesmo? Uma frase em que “a vida” pode ser substituída  pelo “Corinthians” ou por uma “fatia de mortadela” significa qualquer coisa — muito provavelmente, nada! Peça para seu filho de cinco anos criar a sua própria versão do enunciado.

Para encerrar
E não lhes escapou que, não tendo como negar o que antes dissera nem a histórica militância do PT a favor da legalização do aborto, restou tentar resgatar do baú o vitimismo triunfante da militante. Inescapável constatar que mesmo os porões do regime militar tiveram com Dilma mais generosidade do que o Colina e a VAR-Palmares, grupos a que ela pertenceu, tiveram com as pessoas que eles assassinaram. Ou a vida daquelas pessoas não valia nada porque não tinham pedigree militante?

Defesa da vida “em todas as circunstâncias”, menos daquelas, não é mesmo, candidata?

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UM PS GRANDE - Seria muito bom para “eles” se pudessem dizer: “Como esse Reinaldo ofende todo mundo, faz acusações, mente! Vamos processá-lo!”  Pois é! Mas não podem. Não há uma só ofensa neste texto, uma só acusação, uma só mentira. Não sou pretensioso a ponto de dizer que eles não suportam as verdades do meu texto. Não me jacto de minhas pretensões iluministas — deixo essa tarefa de vaga-lume  para meus amigos de esquerda. Não suportam é que eu possa ter da verdade dos fatos uma leitura que não coincide com a deles. Em suma, não suportam é a liberdade. Como já disse Lula , o pensador, é preciso dar a “notícia certa”!

Por Reinaldo Azevedo

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