2010-09-24

O desmanche da democracia – O Estado de S. Paulo Editorial

Publicado em 24 de Setembro de 2010 às 8:12

lula-bebado11

A escalada de ataques furiosos do presidente Lula contra a imprensa – três em cinco dias – é mais do que uma tentativa de desqualificar a sequência de revelações das maracutaias da família e respectivas corriolas da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra. É claro que o que move o inventor da sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff, é o medo de que a sequência de denúncias – todas elas com foros de verdade, tanto que já provocaram quatro demissões na Pasta, entre elas a da própria Erenice – impeça, na 25.ª hora, a eleição de Dilma no primeiro turno. Isso contará como uma derrota para o seu mentor e poderá redefinir os termos da disputa entre a petista e o tucano José Serra.

Mas as investidas de Lula não são um raio em céu azul. Desde o escândalo do mensalão, em 2005, ele invariavelmente acusa a imprensa de difundir calúnias e infâmias contra ele e a patota toda vez que estampa evidências contundentes de corrupção e baixarias eleitorais no seu governo. A diferença é que, agora, o destampatório representa mais uma etapa da marcha para a desfiguração da instituição sob a sua guarda, com a consequente erosão das bases da ordem democrática. A apropriação deslavada dos recursos de poder do Executivo federal para fins eleitorais, a imersão total de Lula na campanha de sua afilhada e a demonização feroz dos críticos e adversários chegaram a níveis alarmantes.

A candidatura oposicionista relutou em arrostar o presidente em pessoa por seus desmandos, na crença de que isso representaria um suicídio eleitoral – como se, ao poupá-lo, o confronto com Dilma se tornaria menos íngreme. Isso, adensando a atmosfera de impunidade política ao seu redor, apenas animou Lula a fazer mais do mesmo, dando o exemplo para os seguidores. As invectivas contra a imprensa, por exemplo, foram a senha para o PT e os seus confederados, como a CUT, a UNE e o MST, promoverem hoje em São Paulo um “ato contra o golpismo midiático”. É como classificam, cinicamente, a divulgação dos casos de negociatas, cobrança e recebimento de propinas no núcleo central do governo.

Sobre isso, nenhuma palavra – a não ser o termo “inventar”, usado por Lula no seu mais recente bote contra a liberdade de imprensa que, com o habitual cinismo, ele diz considerar “sagrada”. O lulismo promove a execração da mídia porque ela se recusa a tornar-se afônica e, nessa medida, talvez faça diferença nas urnas de 3 de outubro, dada a gravidade dos escândalos expostos. Sintoma da hegemonia do peleguismo nas relações entre o poder e as entidades de representação classista, o lugar escolhido para o esperado pogrom verbal da imprensa foi o Sindicato dos Jornalistas. O seu presidente, José Camargo, se faz de inocente ao dizer que apenas cedeu espaço “para um debate sobre a cobertura dos grandes veículos”.

Mas a tal ponto avançou o rolo compressor do liberticídio que diversos setores da sociedade resolveram se unir para dizer “alto lá”. Intelectuais, juristas, profissionais liberais, artistas, empresários e líderes comunitários – todos eles figuras de projeção – lançaram ontem em São Paulo um “manifesto em defesa da democracia”, que poderá ser o embrião de um movimento da cidadania contra o desmanche da democracia brasileira comandado por um presidente da República que acha que é tudo – até a opinião pública – e que tudo pode.

Um movimento dessa natureza não será correia de transmissão de um partido nem estará atado ao ciclo eleitoral. Trata-se de reconstruir os limites do poder presidencial, escandalosamente transgredidos nos últimos anos, e os controles sobre as ações dos agentes públicos. “É intolerável”, afirma o manifesto, “assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.” “É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais nem mesmo em fingir honestidade.” O texto evoca valores políticos que, do alto de sua popularidade, Lula lança ao lixo, como se, dispensado de responder por seus atos, governasse num vácuo ético.

Lula Contemplates his Navel

Wed, 06/24/2009 - 5:25am

Lula Points to his Navel (Archive)

Lula Points to his Navel (Archive)

As Obama has said, "Lula's the man." So, all ears tuned in on Lula the other day in Londrina, Paraná when he spoke of his role in achieving the licensing of the Madeira River dams. What follows is a direct transcript of Lula's words of wisdom, with the help of a translator to more clearly elucidate his technical arguments:

" So I think that today we no longer should no longer discuss these themes ideologically, and we should instead sit around the table and discuss how we can make them (the projects) better...I remember it as if it were yesterday, Dilma (Lula's Chief-of-Staff and presidential candidate) took part when we were to approve the hydroelectric projects for the Madeira River, Santo Antônia (Santo Antônio) and Juruá...Jirau. The fight you can not even imagine, how we wasted months discussing the grains of sand that were at the bottom of the river...We had to contract the best professor in the world in this area, who was an Indian who came from the United States, and who delivered to me a pot of sand from the bottom of the sea to show how sand runs, and what it would do and what it wouldn't do.

Translation - "The Madeira dams had a serious sedimentation problem that could affect the dams' operation and result in flooding territory in Bolivia, so we took some money from the World Bank and hired a French scientist who works with the dams industry to tell everybody not to worry."

When we solved the problem of the sand, someone else came to me and talked about the fish, that there were a lot of catfish and that the little fish wouldn't be able to swim, to dam there in the Andes, that whole thing. I made a commitment, for when I leave the presidency, to buy a canoe, catch the little catfish, put them in the canoe, take them to the other side and bring them back. No, no.

When the person was telling me that we couldn't build the dam because of the catfish, I asked: what catfish? Maybe she didn't remember, but she didn't know the name of even one catfish. And I told her: is it the mandi-chorão you're talking about? Or the African catfish? Or the pintado? Or the pirarara? Or the cachara? Because, in reality, it was very theoretical. And I got a friend of ours, from Campo Grande, Jaime, of Project Pacu, who is the largest fish-raiser today, and he raises all those fish from the Madeira River, where we're building the dams, in captivity. And I have there in the Alvorada Lake (in Brasília), not in the big lake, but rather in the little lake inside, I have a fish that weighs 20 kilos.

Translation - "We know that the Madeira dams will destroy valuable fish stocks and maybe even lead to their extinction, but I don't really care what happens to them, so I have tried to make the entire issue appear ridiculous and make the public laugh at legitimate environmental concerns."

So, we did it. Finally we did it. And when everything was ready, someone came to say the following: look, you can't because there is a pool of water there which has mercury, and you can't build a dam. We had to get the Ministry of Health and send a team there. It would have been cheaper to resettle the families in a penthouse apartment in Copacabana rather than build the dam. Finally, we built the dams.

Translation - "We know that private companies will only invest in dams if the government subsidizes them. The government will end up having to deal with the serious social and health problems caused by the dams, but I'll be out of office by then, out fishing."

Nenhum comentário: