2010-09-04

O antidogmatismo do padre Chesterton

O antidogmatismo do padre Chesterton

por danielpiza

04.setembro.2010 08:09:29

“O ensaio é a única forma literária que confessa, no seu próprio nome, que o ato temerário conhecido como escrever é realmente um salto no escuro.” A frase é de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), o escritor inglês conhecido pelos romances protagonizados pelo Padre Brown e pelos textos em defesa da religião cristã, mas também o representante de um tempo em que o humanismo falava mais alto que os dogmas. “O ensaio é um produto tipicamente moderno, cheio de futuro e da glória da experimentação e da aventura. Ele permanece um tanto indefinível, e reconheço que me assombra a leve suspeita de que o ensaio, com muita probabilidade, irá se tornar cada vez mais concludente e dogmático.”

Essas frases estão na abertura da coletânea O Tempero da Vida e Outros Ensaios, traduzida por Luciana Viégas e publicada pela editora Graphia, numa iniciativa que ainda tem sido rara no meio editorial brasileiro, a de resgatar os grandes ensaístas e críticos. Chesterton foi lembrado recentemente, mas como argumentador religioso, em Ortodoxia, da editora Mundo Cristão. A última vez em que tinha sido lembrado como ensaísta literário e cultural, até agora, foi em 1994, quando a editora Topbooks publicou Doze Tipos, em que analisa desde figuras históricas como Savonarola e São Francisco (repreendendo-o por seu ascetismo) até romancistas como Tolstoi e Charlotte Brontë, poetas como Pope e Byron e autores de aventura como Scott e Stevenson.

Chesterton existiu e pensou numa época de profundas transformações de mentalidade. E reagiu a ela de acordo com seus critérios, que tratou de expor com uma prosa que preza pela complexidade e elegância, conservadora em seu ponto de vista e, no entanto, quase lúdica em seu modo de fundamentá-lo. Não por acaso escreveu que o ensaio é uma “brincadeira”, um “divertimento”, no sentido de que é essencial à literatura como os jogos à vida. Temos, então, um autor que se sente mal com a escalada modernista, com as mudanças morais, com o pensamento de Nietzsche e outros “decadentes” – e que ao mesmo tempo dialoga com eles o tempo todo, exercita paradoxos, mantém o humor sempre presente. Não espanta que tenha influenciado tanto T.S. Eliot, Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa, três criadores moderníssimos que temiam pela perda de coesão e tradição em nome do individualismo enfim vitorioso no século 20.

O grande ensaísta se destaca justamente por saber que suas convicções são provisórias e, por isso mesmo, devem ser defendidas num tom de conversa, de confronto educado – não baseado em achismos ou adjetivos – com outras formas de pensamento. Não é por ter caráter experimental que o ensaio não emite opiniões, não toma partido; ao contrário, ele emite opiniões porque ciente de que não existe um partido único, de que é impossível conciliar todos os opostos e chegar a um meio-termo perfeito e, portanto, estático. O grande autor do gênero, em consequência, não é necessariamente o que nos convence, mas cujo poder de persuasão é admirável mesmo assim.

Chesterton, por exemplo, diz que Lewis Carroll, de Alice no País das Maravilhas, é um autor tipicamente vitoriano em seu gosto “inocente” pelos paradoxos. “Eles tinham de ir para a terra dos contos de fada para que houvesse lógica. Por isso, suspeito que o melhor de Lewis Carroll não foi escrito por um homem para crianças, mas por um professor para professores”, escreve Chesterton em Os Dois Lados do Espelho. Mas Carroll não estava apenas interessado em ensinar as contradições da lógica para os futuros adultos, como os passatempos que elaborava nos jornais; acima de tudo, estava criticando uma sociedade que queria aprisionar a lógica na moral, a sociedade vitoriana, com seus nobres bajuladores, rainhas despóticas e chás pomposos.

Chesterton é mais agudo quando faz observações como a de que Dickens foi mal lido pelos contemporâneos porque seus personagens pareciam ser “caricaturas”. Personagens como Nickleby, Pecksniff e Micawber não devem ser cópias da vida real, mas atos de imaginação que partem da vida real. “Entendemos que Dickens cria como a própria Vida cria”, resume Chesterton. Num ensaio anterior, analisa do mesmo modo Macbeth, de Shakespeare, e chega a uma comparação que, por mais genérica que pareça, nos faz pensar: “Macbeth foi vigoroso no pleno sentido masculino até o momento derradeiro; ele se matou numa batalha. Lady Macbeth foi vigorosa em todo o sentido feminino, que é talvez o sentido mais corajoso; ela se matou, mas não numa batalha.”

Falando sobre a abadia de Westminster ou defendendo a sentimentalidade do cristianismo, rejeitando o “ceticismo relativista” ou prevendo o fim do mundo pela agonia moderna, Chesterton sempre nos conduz adiante na leitura porque jamais é doutrinário ou reacionário. E um liberal que não saiba aprender com um conservador se torna menos liberal. Não faltam exemplos até hoje.

Nenhum comentário: