2010-09-02

José Serra precisa aprender a ser oposição a um partido que é mestre na manipulação e truques sujos

Ser oposição

por Denis Lerrer Rosenfield em 2 de setembro de 2010 Opinião - Brasil

 

José Serra precisa aprender a ser oposição a um partido que é mestre na manipulação e truques sujos

As dificuldades da candidatura Serra expõem um problema de monta relativo ao que se entende por oposição e a como essa deve ser exercida.

A candidatura Dilma, depois do debate da Band, das entrevistas ao Jornal Nacional e da propaganda dita gratuita, abriu uma significativa vantagem que, segundo alguns institutos de pesquisa, pode chegar a 16/17 pontos.
Se esses números se confirmarem e a candidatura Serra não souber criar um fato novo, com alterações de sua estratégia, Lula e o PT conseguirão vencer mais uma eleição presidencial. Não adianta brigar com os números.

Dois fatos da candidatura Serra são particularmente significativos – um o do seu primeiro jingle, outro o de sua aparição televisiva ao lado de Lula.
O jingle é uma peça estrondosa de fracasso certo. Lula aparece nele três vezes, enquanto Serra é apresentado como seu sucessor. Ora, o jingle tucano faz o elogio de Lula que é – queiram ou não os tucanos e seus marqueteiros –  o adversário.

O atual presidente é enaltecido pelo próprio candidato tucano como se ele não tivesse uma candidatura própria, como se o campo estivesse aberto para a apropriação de seu nome e de seu espólio.
Lula capturou bem essa trapalhada e mostrou no programa televisivo de sua candidata que o seu nome e o seu patrimônio pertencem exclusivamente a ele. Ele faz o seu testamento e designa o seu herdeiro. Serra não faz parte de sua linhagem. Nem adianta reivindicar uma parte da herança.


Vou deixar de lado, para efeitos da atual análise, o fato de Serra ter se tornado "Zé", algo totalmente incompreensível, naquele então a 45 dias da eleição, visto que o candidato tucano já tem nome próprio e uma imagem de marca. Todos conhecem Serra, enquanto Zé mais faz lembrar o "Zé" Dirceu. Outra contribuição tucana aos petistas.


Agora, Serra aparecer ao lado de Lula, em uma imagem da propaganda tucana, mostra bem que os tucanos não querem se apropriar da herança tucana, mas sim da herança petista. Eles fogem de si mesmos, eles têm vergonha de si.


Há uma herança tucana apreciável. São os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, em que se destacam, entre outros feitos: saneamento dos bancos estaduais, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a política social que deu origem ao Bolsa Família, a atenção à educação elementar, o início da reforma da Previdência, a consolidação do Plano Real, o aperfeiçoamento e consolidação da democracia representativa, a não conivência com a corrupção e o desvio de recursos públicos, as metas de inflação, a independência operacional do Banco Central, sobretudo a partir da gestão Armínio Fraga, e as privatizações, entre outras medidas e iniciativas. Trata-se de um capital considerável.


Ora, o que fez o PT? Tratou essa herança bendita como "herança maldita", martelando esse mantra anos a fio, procurando, de todas maneiras, desmoralizar a figura do ex-presidente Fernando Henrique, dono evidentemente desse patrimônio. O que fizeram os tucanos? Nada! Terminaram, por omissão, compactuando com tal estado de coisa, deixando que a opinião pública fosse desse modo formada, e isto durante longos oito anos.


Nem souberam defender as privatizações, um sucesso estrondoso. As privatizações de siderúrgicas ineficientes e perdulárias foram adquiridas pela Gerdau e pela CSN, que as tornaram empresas eficientes, rentáveis e grandes pagadoras de impostos, oferecendo renda, salários, empregos e dividendos para os seus acionistas. Tornaram-se empresas globais, que honram o País.


O mesmo aconteceu com a mineração, com a Vale hoje despontando como uma das três maiores empresas do setor no mundo. O caso da privatização da telefonia é, inclusive, um caso a parte, pois de fácil visualização popular. Uma linha fixa chegava a custar 4.000 dólares e era declarada no Imposto de Renda. Hoje, um celular pode ser comprado por menos de 50 reais. Em alguns planos, é grátis.


Acontece que essas políticas deveriam ter sido defendidas durante os mesmos longos oito anos, num processo de disputa pela opinião pública. A opinião pública, em suas ideias centrais, se forma fora dos poucos meses de embate eleitoral, sendo que, nesse, ela somente se cristaliza. Lula e o PT, por exemplo, lutaram pela conquista da opinião pública durante todo esse período, para extrair os seus frutos nas eleições.


Uma pesquisa qualitativa só capta o retrato de um momento. No auge de uma campanha, capta um retrato que foi anteriormente desenhado, ganhando, naquele momento, um contorno definido. A herança maldita foi o desenho elaborado com esmero.
O ex-presidente Fernando Henrique, dono de um grande patrimônio, o patrimônio tucano, tornou-se uma pessoa que os tucanos escondem – escondendo, na verdade, a sua própria história. É como se tivessem vergonha do que fizeram, é como se tivessem vergonha das privatizações. Lula aparece na propaganda tucana e Fernando Henrique não.
Os tucanos caíram na armadilha petista, aliás, muito bem montada neste longo trabalho de formação da opinião pública. Tem-se a impressão de que o ex-presidente é portador de uma doença contagiosa. Ninguém quer dele se aproximar.  
O efeito colateral de tal negação tucana de seu próprio passado governamental reside em que o imaginário eleitoral é apresentado como um debate interno à esquerda, como se ser de direita fosse também fruto de uma outra forma de doença contagiosa. No dizer do presidente, são "trogloditas".


Evidentemente, Fidel Castro, Hugo Chávez, Ahmadinejad e tantos outros ditadores africanos são pessoas de "bem", "progressistas", pois de "esquerda" e "antiimperialistas". Não deveria, portanto, causar nenhum espanto que em um debate eleitoral televisivo tenhamos quatro candidatos que se reivindicam da esquerda.


Além do candidato tucano, temos três candidaturas petistas: Dilma, candidata oficial do partido, Marina, petista até ontem, e Plínio de Arruda Sampaio, que se reivindica das bandeiras petistas não realizadas. Não deveria estranhar a provável vitória de Dilma.


Conclusão: não temos oposição!

Publicado pelo Diário do Comércio em 26/08/2010

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