2010-09-26

Igreja rechaça pressão de Chávez sobre opositores Entidade exortou população a "votar livremente" no pleito deste domingo

Eleições na Venezuela

Igreja rechaça pressão de Chávez sobre opositores

Entidade exortou população a "votar livremente" no pleito deste domingo

Mariana Pereira de Almeida, de Caracas

O cardeal Jorge Urosa Savino escuta o presidente Hugo Chávez, em 2006

O cardeal Jorge Urosa Savino escuta o presidente Hugo Chávez, em 2006 (AFP / Andrew Alvarez)

"Só Deus saberá em quem votamos. Portanto, não há razões para ameaças indevidas"

Não é de hoje que a relação entre o governo Hugo Chávez e a Igreja Católica tem se mostrado tensa. Nos últimos meses, porém, a temperatura subiu com as ofensas do caudilho a membros da entidade. O ditador chamou o arcebispo de Caracas, cardeal Jorge Urosa Savino, de "troglodita e golpista de moral pequena", após o religioso dizer que o socialismo bolivariano atropelava a constituição da Venezuela.

Chávez também ensaia a revisão de um convênio com a Igreja, que garante o repasse de parte dos recursos da exploração do petróleo à entidade para obras assistenciais. "Ele está utilizando isso como uma medida de pressão para que a Igreja não se manifeste sobre política. É uma ameaça, que quer dizer: se vocês opinarem sobre a política nacional, vamos suspender esse convênio", afirma o bispo auxiliar de Caracas Jesus González de Zárate.
Foi justamente por causa desta pressão do presidente e sua turma sobre alguns setores da sociedade, que o religioso assinou - junto ao cardeal Urosa e a outros três bispos - um comunicado exortando a população a "votar livremente" nas eleições legislativas de domingo. "Só Deus saberá em quem votamos. Portanto, não há razões para ameaças indevidas", diz o documento, intitulado As Eleições e a Paz.

"O texto ressalta que voto é secreto, ante algumas dúvidas que surgiram devido ao sistema de votação venezuelano totalmente automatizado", afirma Zárate. "Existiram essas pressões indevidas que poderiam se dar tanto por parte dos patrões das empresas quanto dos dirigentes das organizações governamentais."

Mariana Pereira de Almeida/VEJA

O bispo auxiliar de Caracas Jesus González de Zárate

O bispo auxiliar de Caracas Jesus González de Zárate

Jogo de poder - A estratégia de Chávez para lidar com quem o incomoda sempre foi de intimidação e ataque. "O clima entre Igreja e governo tem sido tenso ao longo desta última década não só porque Chávez nos acusou de tomar uma posição partidária, mas também porque ele recorreu à desqualificação pessoal, ao utilizar palavras fortes contra o cardeal: uma reação desmedida às declarações que os clérigos realizam sobre a realidade nacional habitualmente, há mais de 30 anos", pontua Zárate. Ele ressalta que as ponderações da Igreja têm objetivos sociais e não partidários.
O religioso acrescenta que o cardeal Urosa nunca emitiu opiniões sobre as características pessoais do presidente, diferentemente dele. Ele apenas se manifestou sobre um projeto político encabeçado pelo ditador. "A Igreja não responde às ofensas do presidente com uma linguagem igualmente ofensiva. O que tem sido dito, fundamentalmente, é que o chamado "socialismo do século XXI" é um projeto que não está contido na constituição nacional", diz.
Os atritos entre Chávez e Urosa também não são de agora. De acordo com Zárate, a rixa começou em 2005, quando o caudilho se manifestou contra a nomeação do cardeal. Uma regra antiga, que remonta aos tempos em que a Venezuela ainda era colônia espanhola, permite essa intervenção. Contudo, ela não é comum nem bem vista pelos religiosos. "A Igreja nunca esteve de acordo com o fato de o governo poder intervir na organização interna da estrutura eclesiástica. Por isso, as relações entre Igreja e estado sempre foram difíceis na Venezuela".
Histórico - A sequência mais recente de atritos começou em 1999, quando Chávez trocou acusações com a Igreja, contrária à proposta da nova Constituição, aprovada em plebiscito. Na ocasião, o caudilho disse que, às vezes, o "diabo anda de batina". Três anos depois, o ditador acusou a entidade de envolvimento em um golpe para tirá-lo do poder. No referendo de 2007, houve uma nova provocação: Chávez mandou para o "inferno" religiosos evangélicos e católicos que o chamavam de "herege" e faziam oposição à reforma constitucional , desta vez, rejeitada nas urnas.

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