2010-08-19

O assassinato da política.

O assassinato da política. Agora os isentos petistas acham que Serra foi “agressivo”

 

Por Reinaldo Azevedo

Antevi aqui anteontem que não se diria por aí uma linha sobre o caráter escancaradamente autoritário e personalista da campanha petista na TV, em que um único homem, Lula, coloca-se como o donatário do povo, passando-o, mero objeto de seus desígnios — mas com sua concordância, em eleições que seriam meramente homologatórias —, para outras mãos, de sua inteira confiança. Ele próprio, avisou, andaria por aí a cobrar o que está errado, telefonando para a sua “presidenta” pedindo correções — seria, assim, o condestável da República. Dono do povo, é inventor de Dilma.

Batata! Não se disse um “a”, nada, zero! Isso quer dizer que a quase totalidade da imprensa brasileira considera isso muito razoável — “democrático”, diriam muitos. Essa gente chamava de “democráticas” até as eleições promovidas por Hugo Chávez — procurem e acharão. Em compensação, Serra apanhou barbaridade. Por quê? Por causa, justamente, de seu programa na TV.

Não acho que foi exatamente uma maravilha. Mas, ao menos, encontravam-se ali propostas concretas, compromissos assumidos, na área da saúde. Para o meu gosto pessoal, a campanha seria bem mais politizada — vamos ver os próximos dias. Qual a natureza da crítica quando feita de boa-fé? Serra teria se comportado como um candidato a ministro da Saúde (era um programa temático, é bom lembrar), não a presidente, faltando uma fala de apelo mais geral e abstrato. Tendo a concordar, sim, com aspectos dessa análise. A rigor, o eleitor de São Pulo viu que as campanhas de Serra e Alckmin, feita pelo mesmo marqueteiro, são muito parecidas, como eram em 2006. Há quatro anos, Serra tinha a eleição assegurada; Alckmin, não. Agora é o contrário. Se há uma mesma linha de campanha para quem lidera com folga e para quem está atrás nas pesquisas, a lógica sugere que algum ajuste se faz necessário — e não na campanha de quem lidera, é evidente.

Mas a crítica não enveredou por aí. Basta ler. Está em curso a pura depredação, a ânsia de liquidar logo a disputa, para fazer cumprir predições antigas de que Lula definiria o jogo, e ponto final! Li verdadeiras apologias à “superprodução” da campanha petista, tomada sempre como o oposto do suposto acanhamento da propaganda tucana — boa parte dos textos vazada entre o desdém (para um lado) e o triunfalismo (para outro). E a questão democrática? E o que cada uma das campanhas dizia no que concerne à política, aos eleitores? Nada! Nem uma linha. Serra estaria se negando, assim, a confrontar Lula, a fazer política etc. Então tá. Chegou a quarta-feira.

Debate Folha/UOL e a agressividade
Veio o debate Folha/Uol. Ele está no ar para quem quiser ver. O candidato tucano fez críticas ao governo, cobrou posições da candidata do PT; apontou incoerências — e foi alvo, igualmente, de críticas e cobranças. Estava ali, enfim, alguém de oposição. Foi o que bastou! Certo jornalismo (falo a respeito dele na seqüência do texto) sacou da algibeira a palavra “agressividade”. Isto: Serra estaria sendo “agressivo” como reação, então, às pesquisas eleitorais. Embora a estrutura do debate fosse outra, repetiu o tom da atuação do debate feito na TV Bandeirantes.

Como se decretou a sua “agressividade” — acusação que, na verdade, partiu dos petistas  —, logo se buscou, como se diz, “repercutir” o que seria uma nova estratégia para enfrentar as más notícias nas pesquisas. Então é preciso ouvir pessoas que referendem a tese. E elas foram ouvidas. No Globo Online, quem endossava esse ponto de vista eram o “isentos” Marco Aurélio Garcia e Rui Falcão. Na Folha Online, Gaudêncio Torquarto, um articulista que está na área de influência de Michel Temer, vice de Dilma Rousseff.

E em que consistiu a “agressividade” de Serra? Ora, vejam o debate: em apontar o que considera falhas na administração — e se espera, afinal de contas, em todas as democracias do mundo, que o candidato da oposição o faça. Até outro dia, especialmente quando ainda não era candidato, o tucano era convocado para um bate-boca. Não com Dilma, candidata então só oficiosa, mas com Lula. Sim, queriam que Serra partisse para o confronto pessoal com quem não iria disputar eleições. Como ele declinava do convite, afirmava-se: “Estão vendo? Não quer se comportar como oposição!” Agora, quando decide confrontar, em tom bastante respeitoso (há o vídeo!), a candidata do governo, porque é a hora, aponta-se a “agressividade” que teria nascido da “adversidade”.

Estado terminal
Não me lembro, desde que leio jornal — e já faz tempo porque comecei a militar com 14 anos — de uma imprensa, com as exceções de praxe, como a que leio agora. Em 1975, ainda sob forte censura, já dava para perceber uma dissonância ou outra, que se acentuou durante o processo de abertura. Vieram as eleições de 1982, as Diretas-Já, Sarney, as diretas propriamente, Collor, Itamar, FHC… E o jornalismo foi-se tornando cada vez mais crítico. Agora à distância, já dá para caracterizar algumas coisas: muitas das divergências eram, a partir de um certo momento, ação partidária. Só que “O Partido” chegou ao poder — e o que era contestação transformou-se em mera justificação do presente. Ocorre que “O Partido” tem valores. Serão valores democráticos? Já volto aqui.

Antes que o processo sucessório fosse deflagrado, definiu-se em amplos setores da imprensa e em alguns aparelhos que até chegam a se confundir com institutos de pesquisa que a sucessão, no Brasil, se daria segundo a vontade de Lula. A equação considerada fatal era esta: presidente muito popular faz seu sucessor, pouco importando se algumas democracias do mundo já demonstraram, na prática, que pode não ser assim. Basta que se recue no tempo — a Internet pode servir para derreter memórias, mas também pode servir para reavivá-las — e se verá: mesmo quando Serra vencia a disputa no primeiro turno, asseverava-se: “Vai mudar”. E se estabeleceu uma doxa: Lula elege quem ele bem quiser. E o noticiário passou a perseguir esse futuro. Em muitos casos, esforçou-se para construí-lo. Era o caso de perguntar: “Eleições para quê? O fututo está selado!” Leiam a Folha de S. Paulo hoje: “Eleições para quê? O futuro está selado!”

Dilma, hoje, está na frente. Os analistas diriam, então, satisfeitos: “Viram como estávamos certos?” Porque, no passado, asseverava-se que tudo iria mudar, praticamente não havia notícia positiva para o tucano. Porque acabaram mudando, continua a não haver notícia positiva para o tucano, claro!, pouco importa o que ele faça e o que aconteça. É o que se viu no debate Folha/UOL: a superioridade de Serra no encontro ficou patente, embora Dilma Rousseff não tenha sido um deastre. Mas não! Isso jamais se dirá. Ao contrário: a candidata petista está despertando em certos círculos uma perversão intelectual inédita (vejam qual é no post abaixo deste). Desempenho de Serra? A Folha decretou a morte da candidatura tucana na edição desta quinta. Basta ler. Como se estabeleceu que ele vai perder, então não faz nada de certo ainda que faça, e os erros dela acabam se revelando… acertos.

Os valores
O debate político na imprensa encontra-se em estado terminal — e as exceções só evidenciam essa agonia. Entre a militância partidária, a submissão à patrulha e a mais assustadora ignorância — há gente cobrindo política que jamais leu um maldito livro a respeito; e, bem, ela também é uma ciência e congrega um saber —, sobra espaço para a torcida e para uma variante de assédio moral, que o PT exercita com rara competência.

O que importa que Lula se coloque como o “dono” do povo, doando-o, por vontade soberana — como o jingle e a propaganda deixam claro — à sua candidata? Que importa que esse tipo de pensamento tenha história, tenha uma filiação ideológica, tenha, em suma, passado? Que importa que isso seja, em si, a negação de princípios básicos da democracia? Nada importa! No fundo, boa parte vê o confronto eleitoral como a luta entre “progressistas” e “reacionários”, ainda que notáveis e notórios reacionários sejam hoje garotos-propaganda daquele tipo de progressismo.

Encerro
Não vejo nada disso com olhos apocalípticos ou dou, sei lá, a causa por perdida. Não tenho causa nenhuma! Faço a crítica porque acho que meus leitores têm direito a esse debate e porque quero que esse registro fique como documento de um tempo.

E houve um tempo em que um candidato de oposição contestar uma candidata do governo foi considerado “agressividade”. Houve um tempo em que “o pai do povo” anunciou que passaria o bastão para a “mãe do povo”, e a quase totalidade do jornalismo político fez um silêncio cúmplice, rompendo-o apenas para atacar o candidato da oposição. Não que ele não possa ser atacado. Claro que pode!

Mas quais são os valores que pautam, num caso, o ataque e, no outro, o silêncio? Entre petistas, ignorantes e covardes, os covardes são o pior tipo, como sempre. Afinal, os petistas sempre sabem o que fazem; os ignorantes nunca sabem o que fazem; e os covardes fingem não saber, fazendo.

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