2010-08-16

Chávez e a bomba

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Chávez e a bomba

Eduardo Mackenzie | 16 Agosto 2010
Notícias Faltantes - Foro de São Paulo

Com seu novo atentado em Bogotá, as FARC disseram à Colômbia que Chávez, apesar de suas frases em Santa Marta, não os expulsará e continuará sim, cobrindo seus crimes.

Cada vez que o governo colombiano faz concessões às FARC, estas respondem golpeando brutalmente. O carro-bomba que explodiu em Bogotá, em 12 de agosto de 2010, é a confirmação dessa triste lei.

O encontro com Hugo Chávez em Santa Marta, a renúncia da Colômbia de que haja uma verificação dos acampamentos das FARC na Venezuela e a entrega a Rafael Correa dos discos rígidos do computador de Raúl Reyes, foram importantes concessões que, em vez de aplacar esse bloco "revolucionário", o reanimou.

Através de seus funcionários, Rafael Correa se empenha em dizer que esses discos que contêm informação precisa sobre as ações das FARC no Equador, Venezuela, Colômbia e outros países, são falsas provas "manipuladas" por Bogotá, como se a Interpol não houvesse verificado esses conteúdos. Não contente com esse presente, Correa exige que o presidente Juan Manuel Santos lhe dê os detalhes exatos da operação contra o acampamento permanente de Reyes no Equador. Nada menos.

Isso é o que alguns iludidos chamam nestes dias de "superar as diferenças" nas relações diplomáticas com Equador e Venezuela.

O presidente Juan Manuel Santos cedeu ante a pressão interesseira de Lula e reuniu-se com Chávez, e permitiu a este mentir uma vez mais com o cinismo de sempre: não, ele não apóia, nem apoiou, nem apoiará as FARC; sim, ele é indiferente ante o fato de que a Colômbia tenha sete bases militares com os Estados Unidos.

Chávez se permite adotar este tipo de retórica, que contradiz o que dizia sempre e até na véspera, pois sabe que a verdadeira confrontação se está dando em outros cenários: seus amigos dentro do aparato judicial colombiano já estão fazendo o trabalho que é o de minar o piso jurídico dos acordos colombianos com Washington sobre as bases militares.

Ante esse panorama, o encontro de Santa Marta parece mais uma jogada de Lula para apertar a brida do novo governo da Colômbia, do que um presente genuíno das relações diplomáticas entre Bogotá e Caracas.

A verdadeira linha sobre a Colômbia foi expressada por Chávez há meses, quando se imiscuiu na campanha presidencial colombiana e tentou proibir os colombianos de votarem em Juan Manuel Santos por ser um "mafioso" e um "perigo" para a Venezuela e toda a América Latina. Essa linha real é coerente com o que o ditador faz desde 1999 e com o episódio da bomba em Bogotá em 12 de agosto de 2010.

O que ocorreu em Santa Marta não foi a conversão de Chávez às boas maneiras diplomáticas, foi o contrário: ele obteve concessões de Bogotá e espera que Santos se adapte à estratégia de Caracas, pela via de aceitar as aparências equivocadas, as palavras, em vez de se guiar pelos fatos obstinados da vida real.

Para isso as camarilhas governantes de Caracas, Quito e Brasília, sem falar de outras capitais, juram que o problema era o ex-presidente Álvaro Uribe e que vão deixar Santos governar tranqüilamente.

O ex-presidente Andrés Pastrana começou a construir o fracasso de seu governo quando pronunciou esta frase: "Eu acredito em Marulanda Vélez". Essa idéia o colocou na tábua molhada que o conduziu diretamente à catástrofe da zona desmilitarizada de 42.000 km2 em poder das FARC.

Tudo porque acreditou no jogo das promessas irresistíveis. Quando María Ángela Holguín Cuéllar, chanceler da Colômbia, parece acreditar em seu homólogo venezuelano Nicolás Maduro, assume graves riscos em nome de seu país. Qual será sua posição frente à denúncia penal contra o presidente Hugo Chávez ante a Corte Penal Internacional (CPI), e ante a demanda contra o Estado da Venezuela imposta ante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pelo advogado Jaime Granados, em representação das vítimas das FARC e do ELN que se refugiam na Venezuela?

Com seu novo atentado em Bogotá, as FARC disseram à Colômbia que Chávez, apesar de suas frases em Santa Marta, não os expulsará e continuará sim, cobrindo seus crimes. A prova é que Chávez não condenou o atentado do 12 de agosto e não o fará jamais. Este foi preparado e executado com habilidade para que a responsabilidade recaia sobre outros: usaram o veículo roubado de dois militares para que a desinformação faça das suas durante anos nas redações dos jornais.

Não mudou nada, pois. Caracas espera que sua atual "operação candor" debilite a vigilância dos colombianos, precisamente porque sua estratégia de avassalamento continua de pé e se reforça. Ou será que os contatos de Piedad Córdoba com Fidel Castro em Havana, cujo conteúdo é mantido em segredo, pois a versão oficial é uma salva de frases vazias, é uma mera coincidência? Ela e Danilo Rueda foram lá, não para lutar "pela paz", como diz a imprensa castrista, mas para receber instruções precisas do Foro de São Paulo.

Ou será que foi uma pura coincidência que no mesmo dia desse encontro, e da bomba em Bogotá, Luis Germán Restrepo Maldonado, precursor do novo sindicalismo colombiano, defensor do TLC com os Estados Unidos, dirigente de SINTRAEMPAQUES e fervoroso uribista, tenha sido assassinado em Medellín?

A ofensiva de Alfonso Cano está por trás desses atos criminosos. Aparentemente dissímiles, esses atos fazem parte de um todo.

Como faz parte dessa mesma totalidade o que ocorre no meio judiciário. Seis pessoas que haviam sido capturadas em 6 de agosto passado em Bogotá com 180 quilos de anfo, o mesmo explosivo de alta potencia empregado na bomba do 12 de agosto, foram deixadas em liberdade por um juiz irresponsável. Isso mostra que a gangrena que corrói o poder judiciário, na cúspide e na base, tem implicações na marcha da ofensiva terrorista.

O bloqueio da nomeação do Procurador Geral que a Corte Suprema de Justiça faz, a "exposição negativa" que um magistrado da Corte Constitucional prepara para afundar o pacto entre Bogotá e Washington sobre as bases militares, exposição que ele anuncia com grande desembaraço, e a incrível atitude de certos juízes ante delinqüentes apanhados com explosivos, mostra que é certo o que alguns viram desde há meses: no setor judiciário há parcelas de poder conquistadas pelas FARC e pelo chavismo, e as Cortes não parecem dispostas a reconhecê-lo nem a pôr fim a essa gravíssima anomalia. O presidente Juan Manuel Santos convidou as Cortes a assumir posições razoáveis, porém tudo indica que sem reformas estruturais desse setor, a Colômbia não poderá recuperar a constitucionalidade perdida.

Com sua nova esquadra infiltrada em Bogotá, com seus agentes instalados na Justiça, as FARC poderão acrescentar sua ofensiva global: atentados e assassinatos nas cidades e terrorismo judicial contra o Estado, contra o uribismo e, em particular, contra os altos comandos das Forças Armadas, tudo sazonado com pistas falsas para desviar as investigações. Quando se vê o afã de Piedad Córdoba para atribuir o carro-bomba de Bogotá à "extrema direita", há que se perguntar: quanto ela sabe desse atentado? Essa imputação faz parte de uma manipulação?

Esperemos que a resposta do novo governo esteja a altura do desafio que Cano lançou com seus atentados em Bogotá e Medellín, e que os investigadores não se deixem levar dos narizes para becos sem saída.

Tradução: Graça Salgueiro

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