2010-04-21

Neto do Demo

O Neto do Demo

Certa vez eu tive um avô. Médico.

Ele dizia que não acreditava em Deus, mas socorria a todos e salvava muitas vidas na cidade onde morávamos. Na época, não tinha carro, e percorria quilômetros a cavalo até às cidades vizinhas, muitas vezes em noites de tempestade para salvar, curar um doente. Se o paciente não tivesse condições de pagar, ele não cobrava um tostão. E voltava para casa feliz da vida pela missão cumprida. Era assim mesmo.
Lembro-me das filas de pessoas que se formavam em volta da casa do meu avô. Ele as atendia pacientemente, uma por uma, sempre sorrindo e brincalhão, e ainda arrumava vários remédios de amostra grátis. Nunca me esquecerei destas cenas. Era o trabalho dele. Sua realização.

Certa vez, o povo da cidade se reuniu e fez uma vaquinha para comprar um carro para o meu avô. Deram a ele de presente um fusca branco novinho. Toda vez que o vovô ia sair de ré com o fusca da garagem, batia no poste que ficava atrás. A culpa sempre foi do poste, é claro. Ele reclamava tanto, mas tanto, que a prefeitura mandou mudar o poste de lugar. Quando tiraram, ele foi sair da garagem e caiu no buraco onde ficava o tal poste........ Aí a prefeitura passou a ser a culpada, é claro.

Pois bem. Nesta mesma cidade, existia um padre de uma igreja católica. Este padre odiava o meu avô só porque ele se dizia ateu. De vez em quando uma tal imagem sagrada de Nossa Senhora visitava a cidade e ficava em exposição no altar da igreja da praça. As senhoras afoitas saíam em prantos da igreja em direção ao meu avô – “Eu vi a Santinha sorrir Dr.!” – dizia uma, “Eu vi a Santinha chorar Dr.!”, balbuciava outra. Certa vez ele não se agüentou e respondeu – “Daqui a pouco vocês vão ver a Santinha cagar dentro da igreja!”. As senhoras gritaram apavoradas.
Mas a verdade é que apesar disso, por tudo o que representava, meu avô era uma pessoa muito querida pelo povo. Politicamente falando, essa posição dele não favorecia o tal padre.
O padre em questão, por sua vez, nunca fez nada que prestasse. Gostava sim, de aparecer, organizava aquelas procissões ridículas em cima de um carro alegórico enorme e rezava missa em num idioma que ele jurava ser latim.

Uma bela manhã, quando eu tinha treze anos de idade, fui comprar um bom-bocado na padaria do Seu Antônio, e o padre estava lá. Ele me agarrou no braço, me sacudiu e disse - “Neto do demônio! Neto do demôniooooo!!!!” . Nem pensei. Na hora eu mandei em alto e bom tom ele ir tomar no cú, com a permissão divina, é claro. Ele me deu um beliscão horroroso, meu braço ficou vermelho e eu em resposta dei um chute cheio de vontade na barriga dele. O urubu ainda ficou caído no chão gritando - “Neto do Demôoooonioooo!!” . O dono da padaria adorou. Nessas alturas do campeonato eu já estava achando o máximo ser o “Neto do Demônio”. Um privilégio!
Quando cheguei em casa, a cidade inteira já sabia. E eu fiquei de castigo. Não porque agredi um padre. Mas porque desrespeitei uma pessoa mais idosa. Ainda bem que meus pais me deixaram isso muito claro. Eles nunca me deixariam de castigo se o padre fosse da minha idade.

Durante muito tempo, este padre continuou por lá. Vivia da grana que arrecadava dos fiéis que pagavam o tal dízimo enquanto ele construia uma igreja enorme em seu nome. Enorme mesmo. Uma catedral neogótica. Depois morreu. Se a Santinha riu ou chorou por sua morte, não sei. Acho que ela fez como meu avô falou... cagou!

Nenhum comentário: