2010-03-22

PALAVRAS SLOGANS

olavo

Ainda a liberdade e a ordem

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 18 de março de 2010

Meu artigo “Liberdade e ordem” suscitou na internet um vendaval de discussões que, se revelam uma saudável agitação de idéias, demonstram, na mesma medida, que muita confusão ainda prevalece entre os liberais e conservadores brasileiros quando tratam de acertar suas diferenças e buscar, ao menos em hipótese, uma estratégia comum.

As palavras “liberdade” e “ordem” são com freqüência usadas como slogans, denotando o apego dos grupos políticos aos valores que lhes são caros. Mas, como já ensinava Aristóteles, a ciência política começa com a distinção entre o discurso do agente que expressa uma vontade política e o do estudioso que descreve ou analisa um dado da realidade. No Brasil, quem quer que diga alguma coisa sobre a política é interpretado automaticamente como um agente e respondido na clave dos valores e preferências, por mais frio e objetivo que tenha tentado ser. Esse fenômeno reflete, de um lado, o clássico verbalismo nacional, onde as palavras despertam reações emocionais diretas sem a mínima intermediação dos objetos reais que designam, e, de outro lado, a hegemonia do pensamento marxista, onde a distinção entre o agir e o conhecer é considerada ilegítima e o que se busca não é analisar o mundo, mas transformá-lo, sobretudo por meio da confusão deliberada entre teoria e praxis (falei disso no meu livro de 1996, O Jardim das Aflições). Se a primeira dessas doenças é endêmica no Brasil, a segunda não seleciona suas vítimas por ideologia, afetando até mesmo os cérebros mais hostis ao marxismo. Foi assim que a minha afirmação de uma hierarquia lógica entre dois conceitos – e entre as realidades histórico-sociais que lhes correspondem – acabou sendo interpretada como expressão de uma preferência pela ordem em detrimento da liberdade.

 

Ora, só tomadas como palavras-de-ordem partidárias podem a ordem e a liberdade ser ocasião de preferência e escolha. Usadas como sinais descritivos de realidades objetivas, não há entre elas nem oposição nem confluência, mas uma relação de conjunto e subconjunto: a liberdade é um elemento da ordem, não havendo portanto escolha entre “mais liberdade” e “mais ordem”, mas sim apenas entre ordens que fomentam a liberdade e ordens que a estrangulam.

 

Em todo sistema político, a liberdade é sempre e exclusivamente a margem de manobra repartida entre os vários agentes dentro da ordem jurídica existente; que a ordem é a condição possibilitadora da liberdade, e não esta daquela, como se vê pelo simples fato de que pode existir uma ordem sem muita liberdade, mas nenhuma liberdade fora da ordem, exceto num hipotético e aliás autocontraditório “estado de natureza”. A ordem pode inspirar-se no desejo de ampliar a margem de liberdade até o máximo possível, mas não há por que confundir entre o ideal inspirador de uma construção e os elementos substantivos que a compõem. Por definição, a ordem, qualquer ordem, da mais libertária à mais autoritária, não é um sistema de franquias e sim de obrigações, restrições e controles. Simone Weil já observava, com razão, que cada direito assegurado a um cidadão nada mais é do que uma obrigação imposta a outros e fora disso é apenas um flatus vocis. Uma ordem liberal, ou mais ainda libertária, só pode ser concebida como um sistema complexo de controles idealmente recíprocos (checks and balances) destinado a limitar a liberdade de todos de modo que a de um não se sobreponha à dos outros: a liberdade do agente individual é a margem que sobra no fim de todas as subtrações de parte a parte. Que a noção é problemática e um tanto paradoxal, revela-o o fato de que o mesmo processo legisferante necessário à preservação das liberdades pode se tornar opressivo quando os direitos proclamados são muitos e os controles criados para a sua manutenção geram o crescimento ilimitado da burocracia judicial, policial e administrativa. Mas, afinal, nenhuma ordem é perfeita nos seus próprios termos. A ordem totalitária, oprimindo os de baixo, concede aos de cima uma liberdade ilimitada que desemboca no caos e na destruição mútua dos potentados.

Um comentário:

José de Araujo Madeiro disse...

Tia Cê,

A liberdade é um bem individual, do homem em ser, de ir e vir, de produzir e de ser respeitado pelo Estado. É claro, que sendo livre, o cidadão tem o dever do respeite ao direito alheio, não do estado mas de outros indivíduos.

Assim o cidadão, que vive livre e cumpre ás leis de uma sociedade. Estando o Estado a serviço do cidadão e não o inverso.

Mas os petralhas tentam ressuscitar o socialismo, fracassado na Europa, na China e pleno de instabilidades nos países mais atrasados do planeta, como no Oriente Médio, na Africa e na America Latina.

Aquí, sob gênese do Foro de São Paulo, sob comando do Lula, do Top-Garcia, do Paulo Vannuchi, da Dilma Roussef, do Zé Dirceu, et Caterva, cujos objetivos são destruir os poderes instituicionais através da corrupção,conforme as teses do Gramsci e alienando as massas populares com o pão e circo, bem representado na distribuição de bolsas diversas e induzindo a utopia, como meta e sempre inalcansável, tal como na Rússia.

O resultado é sempre o caos, pelas instabilidades, revoluções e confrontos entre facções litigiantes, na conquista e na dominação do poder vitalício. Que não procuram as formas civilizadas de convivência, de solução de divergências, sem respeito mínimo pelos direitos humanos e harmonização de uma nação, tal como a nossa, que é pluralista e multi-étnica.

Por isto temos que lutar, para que o caos não se estabeleça no nosso país, evitando que a Dilma Rousseff seja eleita e prossiga nessa insanidade que fecunda às idéias do Lula, do Top-Garcia, do Paulo Vannuchi e demais petralhas, querendo retroagir e destruir a nossa democracia e a conquista da riqueza pelo trabalho.

Lembre-se que final de tudo isso, somos nós da classe média que teremos o ônus, jamais o bônus.

Att. Madeiro