2010-03-22

ÓDIO ATEÍSTA

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Ataque ao Papa: ódio ateísta

 

Hitchens não quer nem saber como funciona a Justiça cuja intervenção invoca. Quer condenar um cúmplice antes de provado o crime e confirmado seu autor principal.

Olavo de Carvalho - 21/3/2010 - 18h28

Em artigo no Wall Street Journal do último dia 15, Christopher Hitchens acusa o Papa Bento 16I de haver acobertado um crime de pedofilia em 1979, entre outros inumeráveis, e sugere que o Pontífice deve ser processado por isso. Nem comento o estilo. Entremeado de menções ao "fedor" e à "sujidade" do caráter de Bento 16, ele vibra em todas as cordas midiáticas da indignação estereotipada – o mais alto sentimento moral que algumas almas conseguem alcançar.

O raciocínio que Hitchens segue para chegar à sua conclusão reflete toda a deformidade estrutural da mente moderna.

Se o Papa deve responder perante a Justiça comum, é evidente que os critérios dela prevalecem, no caso, sobre as regras internas da Igreja. Mas, se é assim, eles devem vigorar não só para julgar o alegado acobertamento, mas também, e prioritariamente, o crime acobertado. Ora, o padre pedófilo acusado em 1979 de abusar de um menino de onze anos na cidade alemã de Essen nunca foi julgado nem muito menos condenado pela Justiça comum. Não havendo a respeito uma sentença transitada em julgado, ninguém tem, em nome da Justiça, o direito de proclamar que houve crime. Se nem o crime é confirmado, como pode sê-lo o seu "acobertamento"?

Pela lógica, é preciso provar primeiro uma coisa, depois a outra, não ao contrário.

O que houve, em vez de prova judicialmente válida, foi uma suspeita séria, com base na qual o então cardeal Ratzinger ordenou que o acusado fosse submetido a tratamento psiquiátrico e removido para um posto administrativo em Munique onde não tivesse contato com crianças. Logo depois, no entanto, o vigário-geral de Munique, Gerhard Gruber, sabe-se lá por que, retransferiu o padre para funções pastorais onde ele  não demorou a ser alvo de novas acusações de abuso sexual.

Hitchens assegura que a culpa foi de Ratzinger, mas não dá prova disso, exceto a opinião de um ex-empregado da Embaixada do Vaticano em Washington, segundo o qual o então chefe da Congregação para a Doutrina da Fé era um administrador meticuloso ao qual esse detalhe "não poderia" ter escapado.

Ou seja: o Papa deve ser punido pela Justiça porque alguém achou que ele "deveria" saber do acobertamento, por terceiro, de uma conduta que sequer fôra comprovada como crime, seja pela Justiça comum, seja pela investigação interna na Igreja.

Hitchens não quer nem saber como funciona a Justiça cuja intervenção invoca. Quer condenar um cúmplice antes de provado o crime e confirmado seu autor principal; e quer condená-lo mediante a  opinião de um terceiro que não testemunhou nem o crime nem a cumplicidade.

Mas se ele não entende os princípios jurídicos do mundo leigo cuja autoridade pretende sobrepor à da Igreja, muito menos entende as regras desta última. Arrebatado nas ondas de um entusiasmo belicoso pueril, ele vai muito além do episódio de 1979 e acusa o então cardeal Ratzinger de haver, como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, encarregada pelo Papa João Paulo 2º de investigar os casos de pedofilia na Igreja, "acobertado" todos esses crimes de uma vez. Qual a base da acusação? Ratzinger teria transmitido aos bispos uma ordem de que as denúncias de pedofilia fossem investigadas em segredo, dentro da Igreja, sem comunicar à polícia e à imprensa durante dez anos. O documento que comprova isso seria uma carta confidencial parcialmente citada – sem reprodução fotográfica – no Observer de  24 de abril de 2005.

Não sei se a carta é autêntica, mas, mesmo que o seja, o fato é que Hitchens, como o próprio Observer, finge ignorar os dois pontos principais do texto. Primeiro: a Igreja aí reservava-se o direito à investigação secreta somente nos casos em que as alegadas vítimas já houvessem completado dezoito anos de idade;  nos quais, portanto, não houvesse riscos imediatos para crianças. Segundo: a instrução abrangia, é claro, só as denúncias feitas internamente na Igreja, que não tinham sido ainda levadas à polícia ou à mídia, seja pelas vítimas, seja por quem quer que fosse.

Por que deveria a Igreja permitir que casos ainda não comprovados em investigação interna, e que nem mesmo as vítimas ou parentes tinham denunciado às autoridades civís, se transformassem em escândalos públicos por iniciativa de bispos ávidos de brilhar na mídia como paladinos dos direitos humanos? Como chamar de "acobertamento" a mera iniciativa de bloquear um falatório que arriscaria inculpar inocentes e estimular milhares de Hitchens a destampar mais uma vez, sob pretextos moralistas e humanitários, todas as latrinas da fúria anticristã?

O Evangelho mesmo, a rigor, proíbe que cristãos levem suas queixas à Justiça comum antes de tentar resolvê-las na Igreja (I Cor., 6:1-11). Hitchens tenta forçar a Igreja a renegar-se, a humilhar-se ante o altar da Justiça leiga, cujas normas, porém, o  próprio Hitchens se permite aplicar às avessas. Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço.

Nunca fui admirador do ex-cardeal Ratzinger, tenho contra ele muitas queixas engasgadas, mas confesso que seu desempenho como Papa está me surpreendendo, especialmente na maneira de lidar com os casos de pedofilia. Foi ele quem reabriu as investigações sobre os "Legionários de Cristo" (e seu braço leigo, Regnum Christi), mesmo depois da morte do líder e pedófilo-mor dessa poderosa entidade, Marcial Maciel Degollado. Foi ele quem, ao receber os primeiros resultados do inquérito, mandou suspender a prescrição de dez anos, que, se justa e normal em outros casos, se revelou capaz de prejudicar inúmeras vítimas mantidas em silêncio ao longo de décadas pelo herético e abjeto "voto de segredo" imposto por aquela malfadada organização a seus noviços. Negar que ele quer a verdade sobre esses episódios é negar a própria verdade.

O ateísmo é uma atitude humana normal, mas o ódio ao cristianismo enlouquece, embora nem todos com a ênfase espetacular de Christopher Hitchens. Este não odeia a Igreja porque nela há pedófilos. Ele já a odiava antes disso, e nunca tentou camuflar seu sentimento. A novidade  é a mudança de tática. Antes ele achava que podia vencer os cristãos no debate de idéias. Derrotado e humilhado em recente confronto com o escritor católico Dinesh D’Souza, passou pela transmutação que se tornou rotineira em ateístas militantes desmoralizados: não podendo sobrepujar intelectualmente os seus adversários, quer enviá-los à cadeia.

Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

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