2010-03-16

Mensalão, parte 2: Lula admite que mentiu durante cinco anos

 

 O País quer Saber

Lula bravo

15 de março de 2010

  • Share/Bookmark

COMENTÁRIOS (6)

A Folha de S. Paulo antecipou há uma semana o que Lula dirá à Justiça no depoimento sobre o escândalo do mensalão: ouviu o palavrão pela primeira vez em março de 2005, numa conversa com Roberto Jefferson. O presidente da República mentiu durante quase cinco anos, deveria ter acrescentado o jornal, que divulgou no início de junho de 2005 o encontro que Lula sempre negou ter existido.

E continua mentindo, informa a releitura da entrevista concedida à Folha por Jefferson, então deputado federal e presidente do PTB, que começou a escancarar o maior escândalo político-policial do Brasil republicano. A conversa no Palácio do Planalto não ocorreu em março, mas em janeiro. No gabinete presidencial, Lula ouviu a narrativa ─ testemunhada, segundo Jefferson, pelos ministros José Dirceu, Aldo Rebelo e Walfrido dos Mares Guia ─ em silêncio e aparentando perplexidade, declarou-se grato ao informante e prometeu providências imediatas.

Dez dias mais tarde, no depoimento à CPI que nasceu para investigar a roubalheira nos Correios mas acabou devassando o pai de todos os escândalos, Jefferson enriqueceu com detalhes hiperbólicos o encontro no Planalto. ”A reação do presidente foi a de quem levara uma facada nas costas”, comparou. “As lágrimas desceram dos olhos dele.  Ele levantou e me deu um abraço”.

Em seguida, decidido a poupar Lula do tiroteio, o depoente concentrou-se no alvo preferencial. “Vi um homem de bem se sentir traído por um cordão de isolamento que havia em torno dele”, mirou no chefe da Casa Civil. “Aí descobri por que a gente era sempre barrado no Zé Dirceu. No Rasputin”. O discurso foi subindo de tom até desembocar na exortação famosa: “Saí daí, Zé! Rápido, sai daí rápido, Zé”.

Zé não demorou a ser despejado, mas as providências imediatas ficaram na promessa, confirma a reportagem da Folha que revelou as linhas gerais do depoimento ensaiado por Lula. ele dirá à Justiça que, depois de ouvir as denúncias feitas por Jefferson, escalou para investigá-las o ministro Aldo Rebelo e o deputado Arlindo Chinaglia, líder do governo na Câmara. A dupla de sherloques apresentou em poucos dias as conclusões do inquérito: não haviam localizado nenhuma evidência, nenhum indício, nenhuma pista.

Não enxergaram sequer vestígios da montanha de provas acumuladas nos meses seguintes. Em vez de dois detetives governistas, trataram do caso a imprensa, a polícia, o Ministério Público, a CPI dos Correios, a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal. Passados quase cinco anos, o que se sabe é mais que suficiente para que os integrantes da organização criminosa sofisticada sofram o castigo merecidíssimo.

Mas Lula repete desde junho de 2005 que todos os bandidos de estimação são inocentes. Entre as inumeráveis mentiras que contou, só vai revogar a que ocultou o encontro com Jefferson. E decerto dirá, mais uma vez, que o mensalão não existiu. Se o Brasil fosse menos primitivo, o depoente seria preso por perjúrio, ocultação de provas e obstrução da Justiça.

Tags: Aldo Rebelo, Arlindo Chinaglia, José Dirceu, Lula, mensalão, Roberto Jefferson

 

SEÇÃO » O País quer Saber

O pai de todos os escândalos (parte 1: Deonísio da Silva explica a origem da palavra mensalão)

24 de fevereiro de 2010

  • Share/Bookmark

COMENTÁRIOS (23)

Como foi o episódio do mensalão?, precisa saber o Brasil dos desmemoriados. Como nasceu, cresceu e começou a morrer o pai de todos os escândalos? Que fim levou o bando que montou o esquema criminoso e dele usufruiu gulosamente? Estas e outras perguntas serão respondidas nesta série sobre a mais espantosa roubalheira da história da República. No texto de abertura, o escritor e professor Deonísio da Silva, um dos mais notáveis domadores de palavras do Brasil, explica a origem do termo mensalão. Bom começo. O resto saberemos nos posts seguintes.

Se o leitor procurasse o verbete “mensalão” nos dicionários antes de 2005, não o encontraria. O português veio do latim, mas na Roma antiga havia corrupção, que era combatida duramente por oradores e políticos como Cícero, que por falar tanto e tão bem deu nome aos guias turísticos, os cicerones. Mas não havia mensalão. Esta palavra é criação genuinamente brasileira, adaptada de mensal, um adjetivo de dois gêneros que foi substantivado e transformado em aumentativo.

Antonio Fernando de Souza, procurador-geral da República, foi quem fez a denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF): uma organização criminosa, chefiada por José Dirceu, ex-deputado federal, cassado por seus pares, e ex-ministro da Casa Civil, demitido pelo presidente Lula, era integrada por quarenta pessoas, que foram acusadas de oito crimes, pelos quais estão respondendo no STF, depois que a denúncia foi aceita pelo ministro Joaquim Barbosa. Os crimes: formação de quadrilha, peculato, corrupção ativa, corrupção passiva, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e gestão fraudulenta.

Na mesma denúncia, o publicitário Duda Mendonça responde por operações de lavagem de dinheiro, por ter recebido do PT uma montanha de dinheiro no exterior. O Brasil passou a tomar conhecimento do esquema por meio das denúncias feitas pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), publicadas originalmente pela Folha de S. Paulo em 6/6/2005. Dos 40 denunciados, cinco são mulheres.

Este artigo faz considerações sobre palavras extraídas de reportagens que se ocuparam da denúncia e tiveram como tema solar o mensalão.

Mensalão veio de mensal, mesma origem de mensalinho, que nasceu por analogia com mensalão. Mensalinho ainda não está nos dicionários. Mensalão, já. (AN: o escândalo do mensalão envolveu meio mundo. O caso do mensalinho foi estrelado solitariamente pelo deputado pernambucano Severino Cavalcanti. Presidente da Câmara, o parlamentar do PP teve de deixar o cargo depois da descoberta de que extorquia mensalidades de R$ 10 mil do empresário Sebastião Buani, que explorava o restaurante da Câmara. Era o mensalão em ministura. Um mensalinho).

Mensal chegou ao português no século 18, segundo registro do padre Rafael Bluteau, o mesmo que encomendou a criação da palavra pirilampo para substituir caga-fogo ou caga-lume, aceitando mais tarde o eufemismo vaga-lume. Mensal veio do latim tardio mensualis, que provavelmente mesclou mês (mensis) e medida, feminino de medido (mensus).

É impossível que nenhum jornalista tenha ouvido a palavra antes da publicação das denúncias. O neologismo estava na boca de diversos parlamentares cujas ações eles cobriam.

Utilizada na matéria que desvendou o esquema da organização criminosa denunciada pelo procurador-geral da República ao STF, a palavra ganhou também a mídia internacional, dando trabalho aos tradutores.

Redatores de países em que o espanhol é a língua oficial, adotaram mensalón. No inglês, virou big monthly allowance (grande pagamento mensal) e vote-buying (compra de votos. O prestigioso jornal francês Le Monde referiu em meio a expressões insólitas de reportagens sobre o governo Lula, tais como scandale de corruption, um certo “mensalao”, mensualité versée à des députés alliés au PT, révélé en 2005.

Nota: este artigo é uma adaptação de vários textos escritos para o Observatório da Imprensa. A coleção completa desse e de outros verbetes está no livro “De onde vêm as palavras” (Editora Novo Século), de Deonísio da Silva, que está na 16ª edição. O escritor também assina a coluna Etimologia, publicada semanalmente na revista CARAS.

Agora que vocês já sabem como nasceu a palavra, preparem o estômago: vem aí o parto do mensalão.

Nenhum comentário: