2010-03-12

Fica tomando droga, tomando droga e acaba tomando um tiro

A MORTE DE GLAUCO


Por Reinaldo Azevedo

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sexta-feira, 12 de março de 2010 | 20:15
Lamento, de verdade!, a morte do cartunista Glauco e de seu filho, Raoni. É evidente que os quadrinhos e mesmo a crônica jornalística perdem um crítico agudo, engraçado, que tinha um talento muito especial para ironizar costumes, especialmente os das comunidades que eu ousaria chamar de “hiper-urbanas”, típicas das metrópoles que perdem sua identidade e se tornam cidades do mundo. E ainda que não tivesse talento nenhum: trata-se de um episódio chocante, lamentável.


Não tenho a intenção de polemizar. O que parece evidente é que a tragédia acontece no âmbito da “igreja” fundada pelo cartunista, Céu de Maria, ligada ao consumo ritualístico do daime. E essa questão merece, creio, ser devidamente tratada.  Neste ponto, alguém poderia dizer para provocar o escrevinhador católico: “E quantas pessoas o crucifixo já matou? Você não pode suportar algumas mortes atribuídas ao daime?”
Não estou em busca de culpados — o responsável, tudo indica, já foi identificado. Mas há um fato que qualquer apuração jornalística poderá constatar, quando tivermos vencido a fase da consternação. O daime está atraindo — e seus ritualistas têm aceitado — pessoas com sérios desvios de comportamento, especialmente viciados em outras drogas, que procuram consumir a substância para atingir, sei lá, a “elevação” que as outras substâncias provocariam, porém sem os malefícios.


A turma do protesto releia antes de gritar: não estou afirmando que todos os adeptos da “religião” são consumidores de drogas ilícitas. Estou afirmando que esses grupos estão atraindo muitos viciados. Isso é fato. Não só isso: infelizmente, distúrbios psíquicos — que não se curam com milagres; nesse caso, Deus nos presenteou com os fármacos adequados — são vistos, às vezes, como falta de iluminação. Atravessando-se certo umbral da percepção, viria a paz…


O assassino de Glauco e de seu filho, tudo indica, se não era um doente, estava doente. A natureza do mal, não sei.  Consta que queria que o líder religioso asseverasse à sua família que era Jesus Cristo. Os adeptos do daime utilizam em seus rituais e em sua, vá lá, metafísica elementos oriundos do cristianismo de raiz popular. A transubstanciação cristã — ou católica — é bem outra e não conduz a nenhuma alteração de consciência. A apropriação de elementos cristãos em rituais dessa natureza não poderia ser mais arbitrária e infundada. Mas não vou debater isso, não.


Acho que é preciso pensar a tragédia com mais cuidado. O Conselho Nacional Antidrogas liberou o consumo do daime para fins ritualísticos. Ninguém tem o direito de ter dúvidas se acho isso um bom ou um mau caminho, dado o que escreve habitualmente sobre drogas. Mas o que interessa agora é recomendar prudência. Os que acreditam nas virtudes do daime como algo que eleva a consciência devem ter claro que ele não cura certas doenças psíquicas. A depender do caso, e poderá atestá-lo qualquer psiquiatra, o mal pode se agravar.


Tenho a impressão de que aí está a origem da tragédia que colheu a família Villas-Boas. E todos nós devemos lamentar profundamente o ocorrido. Mas sem dourar a pílula; sem dourar o daime. Os místicos advertem, muitas vezes, quando se debatem certos assuntos: “É melhor não mexer com essas coisas”, sugerindo que um mundo espiritual, mágico talvez, possa reservar surpresas terríveis, o famoso “desconhecido”. Católicos tendem a ser racionalistas. Não temo nunca o que vai além do homem, o outro mundo. Temo só o que está NO homem. Ele é a fonte de toda a maravilha e de todo horror. E é bom que as religiões todas, a minha e a de qualquer um, tenham noções dos seus limites.


Talvez o daime permita sensações que o Prozac, o Zyban ou Zoloft jamais proporcionarão. Mas será sempre um erro supor que uma infusão, a hóstia consagrada ou o amuleto de um pastor possam tomar o lugar daqueles remédios e do saber que os trouxe à luz.


Que Glauco e seu filho descansem em paz. E que os vivos escolham a razão que liberta.
PS: O advogado da família, Ricardo Handro, que se diz amigo de Glauco há 12 anos, deve explicações. Está na cara que sua versão para o crime, com entrevista gravada e tudo, era fantasiosa. Àquela altura, já havia conversado com outras pessoas da família e tinha condições plenas de saber o que tinha acontecido. Um profissional como ele sabe que uma versão descolada dos fatos atrapalha a investigação e poderia colaborar para manter o assassino impune.

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