2009-12-18

Louis Lavelle

Louis Lavelle - Sobre a natureza e a solidão


Só no campo posso conhecer a solidão. Não existe um homem sequer que venha ao campo e não se sinta logo rodeado pela solidão. Ele sempre termina por buscá-la e amá-la.

Afirmar que ele está ante a natureza, que faz parte dela ou é seu devoto não é o suficiente. Ele habita onde Deus fez a morada, onde o céu é o teto e a terra o piso. Em todo canto escuta-se a linguagem com que Deus lhe fala, cujas sílabas a árvore, a flor ou o inseto recitam. Ele está sozinho e Deus*, sem conseguir desfitar os olhos do imenso depoimento da criação, que é uma como revelação contínua, sempre idêntica e sempre renovada.

Afinal, ele fugiu ou se encontrou? A alma está mais povoada, quando o homem está só. O encontro com outrem é incapaz de acabar com sua solidão – ele como que faz o outro entrar nela. Quem sabe se, por estar chantado no mundo, o mundo se chantou nele. Para conter em si o mundo, é preciso estar só; e que nenhum ser fechado em si mesmo e miserável como ele venha interpor-se entre ele e o mundo.

Mas na cidade cada homem só se relaciona com outro homem. Diante de si, só uma paisagem de pedras acumuladas pelo esforço humano. O ar e o céu são apenas distâncias que os separam. A lembrança derrisória do campo subsiste nalgumas poucas árvores, plantas aprisionadas, flores fanadas. Já não há horizonte, o milagre do horizonte onde o céu e a terra, o finito e o infinito chegam a coincidir. Os outros seres com quem me encontro acorrem para suas tarefas banais, as quais executam dentro de células donde não há céu para contemplar sobre suas cabeças, nem terra para fecundar sob seus pés.

A natureza sufoca o homem primitivo como a cultura o homem hodierno. Mas um é o remédio do outro. A cultura libera o espírito até então subjugado às forças da natureza; e a natureza é o remédio do excesso de cultura, devolvendo-lhe a solidão, solidão perdida que, encontrada, devolve-o a si mesmo. O homem do campo nos ensina a solidão, porque está só com a natureza, como o filósofo com Deus.

* Leia-se "sozinho e Deus" como quem lê "Cruz e Souza". [N. do T.]


Postado por Luiz de Carvalho às 5:15 PM



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