2009-11-21

O grupo Baader-Meinhof: a história que o Brasil não quer contar

por Adriano S. Barbuto em 21 de novembro de 2009 Opinião - Cultura

 

Baader-Meinhof: burgueses imorais aderindo ao terror comunista para passar o tempo. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência...

Assistir ao filme O Grupo Baader-Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex, 2009) é uma experiência muito interessante. Uli Udel dirige muito bem cenas de multidões, e as cenas de protestos estudantis neste filme são por demais convincentes. Ainda que tenha uma duração considerável, é um filme ao qual se assiste com interesse renovado a cada cena.

Trata-se da trajetória do núcleo terrorista de esquerda Baader-Meinhof, que atuou na Alemanha ocidental nos anos 70. Além do filme em si, que é muito lúcido em suas discussões, possui a nós brasileiros ainda outros atrativos – o principal deles poder conhecer uma história que nos é negada, por razões óbvias.

O começo do filme mostra como o grupo toma corpo. Há a moça bonita e burguesa que, em gestos de adolescência tardia, briga e discute com o pai, que parece ser um funcionário público graduado ou um juiz, e passa a simpatizar com idéias mais radicais contra o chamado “sistema”. Toda esta manifestação inicial é gerada pela repressão da polícia a uma passeata estudantil. Aí o primeiro paralelo se estabelece com o Brasil. É costume por aqui, quando acontecem incidentes deste tipo, se recriminar a polícia brasileira como violenta. Analisando friamente, podemos concluir que, em qualquer lugar do mundo, a ação é parecida.

Se os manifestantes optam por desrespeitar a lei, manifestar-se de modo violento e atacar os policiais, a reação é similar. Em qualquer lugar do mundo, seja EUA, Canadá, Inglaterra ou Brasil. O curioso é que, em se ocorrendo o similar no Brasil, ocorre uma grita geral, pois parte de nossa elite pensante julga não de acordo com a lei, mas de acordo com o princípio do oprimido contra o opressor, do pobre contra o rico, como se o policial não fosse uma classe mal paga. Quem foi no ponto sobre a questão foi outro cineasta, Píer Paolo Pasolini, que nas manifestações de 68 disse, numa opinião contrária ao senso comum da época, algo como que quem era a classe trabalhadora eram os policiais, e não os estudantes, que eram os burgueses. Que é uma verdade cristalina, que somente uma elite politicamente correta disfarça em ver.

Esta moça burguesa, como foi dito, em claro afrontamento ao pai, acaba por se aproximar do jovem namorado Baader, o qual, em suas primeiras cenas, é visto com os amigos dirigindo um carro em alta velocidade, e atirando pelas ruas por divertimento, como, por exemplo, em placas de trânsito, numa atitude gratuitamente transgressora. Por fim nos é apresentada a jornalista Meinhof, que passa por um processo de separação.

A dramaturgia do filme é clara aqui. O que vemos são pessoas emocionalmente imaturas, que descarregam suas frustrações com um sentimento de ódio geral a tudo, e que acaba sendo centralizado em slogans como “imperialismo”, “burguesia”, etc. Imagine se um jovem camponês, tendo que trabalhar a terra desde criança, pode dar-se a estes luxos? Claramente estas manifestações são capitaneadas por pessoas que possuem tempo livre e condições financeiras (proporcionadas pelos pais ou família) invejáveis. Ademais, soa a nós, público brasileiro, risível ver alemães falando de imperialismo, quando este é o maior país exportador do mundo. Assim como soa a um boliviano estranho ver um brasileiro falar o mesmo, já que na América Latina o Brasil é visto como imperialista.

Este grupo de jovens então começa a praticar seus atos terroristas em nome de sua causa. O que inclui assalto a bancos, onde fazem a “delicadeza” de, armas em punho, avisar aos clientes que não os roubam, mas sim aos banqueiros imperialistas. Como se fosse um conto de fadas, como se os clientes e os banqueiros fossem entidades separadas, e o prejuízo de um não implicasse em custos maiores para os outros.

Mas, como o filme deixa claro em várias cenas, são pessoas infantis e de pensamento simplista e rudimentar, que não conseguem enxergar um palmo além de suas pobres idéias pré-concebidas. A quem se interessa pela História do Brasil nos anos 60 e 70, é impressionante a similaridade com o que lemos sobre os grupos terroristas de esquerda brasileiros. As mesmas idéias, a mesma motivação, o mesmo grupo social, os mesmos assaltos a bancos. E as mesmas contradições.

Numa das melhores cenas do filme, o grupo foge da Alemanha, pois perseguidos pela lei alemã, e refugiam-se na Itália, em Roma. Encontram um advogado que se propõe a ajudá-los. Em determinado momento estão na mesa de um bar, e Baader propõe ao advogado que roube a bolsa de uma mulher sentada numa mesa vizinha, ato que o advogado se nega a realizar, por pudor. Baader argumenta que, se ele quer seu advogado, ele deve fazer isto. O advogado então concorda, e executa o furto. Todos ficam felizes. Porém, ao sair do bar, Baader descobre que seu carro foi roubado, e pragueja contra os ladrões desonestos! A cena expõe, e por isso é brilhante, todas as contradições dessas pessoas. Em primeiro lugar, a delinquência e gratuidade do furto. Em segundo lugar, a confusão entre o pessoal e o institucional, onde o advogado deve ser como eles, praticar atos similares, para ter o serviço. Por fim, e isso que torna a cena irônica, a idéia de que o furto da carteira não é nada, apenas uma expropriação capitalista, sendo de natureza diferente o furto do seu carro. Qualquer criança com mais de cinco anos consegue entender isto. Baader não.

Meinhof é uma jornalista, demitida do jornal do maior grupo de comunicação alemã. A princípio, ela simpatiza com eles. Depois, passa a apoiá-los discretamente, e por fim adere ao grupo, quando, na tentativa de liberar Baader da prisão, agenda uma falsa entrevista com ele. Esta entrevista é uma cilada, feita para que o grupo liberte Baader, e a ação acaba por fazer alguns guardas de vítimas. Nesta cena outra similaridade aparece. Baader, que está numa penitenciária, é colocado por um programa de governo de ressocialização, e é por isto que o grupo consegue libertá-lo, pois tal ocorre numa biblioteca, onde a segurança é infinitamente menor que na penitenciária. Qualquer semelhança com programas brasileiros, indultos de Natal e similares não são meras coincidências.

Adiante, o grupo é preso pela polícia. O que segue é a tentativa, a todo custo, dos integrantes tentarem desmoralizar as instituições, como o júri, os juízes e o estado de direito. Uma pessoa me observou que o comportamento dos terroristas no filme perante o tribunal lembra o que o grupo de Charles Manson tentou fazer quando de seu julgamento, ou seja, desmoralização geral, tentando desestabilizar a Lei com pura insolência juvenil.

Outro dado interessante é que, num determinado momento, o grupo alemão vai treinar guerrilha no Oriente Médio. E isto nos reserva boas risadas. No meio do deserto, entre os árabes, as alemãs resolvem fazer topless, o que provoca um desconforto enorme no acampamento, em vista de os árabes possuírem costumes muito mais moralistas que os europeus. Além desse lado pitoresco, mostra que a associação entre o fundamentalismo árabe e as esquerdas ocidentais data de longa data, e perdura, como mostram as alianças da América Latina atual com um país como o Irã, por exemplo, por meio de governantes populistas e demagógicos como Chávez. Esta associação, espúria, pois reunindo pessoas de pensamentos, costumes e moral muito diversos, só se sustenta por uma simpatia mútua por idéias abstratas como o antiamericanismo e um ódio à economia de mercado.

Até este momento, as semelhanças com o terrorismo brasileiro dos anos 60 e 70 são estarrecedores a nós. Há, no filme, inclusive, uma menção aos terroristas latino-americanos e o fato de que estes assaltavam bancos, sendo um modelo ao grupo alemão. Há também as indefectíveis referências a Che Guevara. Mas, a partir deste momento no filme, as instituições fazem a diferença, e a história termina de modo bem diverso. O grupo de Baader e Meinhof é finalmente condenado pelos seus crimes, sem escusas como a política, e as instituições são salvas. E talvez esta seja a diferença entre um país de instituições fortes, um estado de direito efetivo, e um país onde elas são desprezadas. No primeiro, os terroristas são presos. No segundo, ganham refúgio e até o direito de ser candidato a presidente.

Assim, se o público brasileiro quer saber um pouco de uma parte da História, tem que assistir a este filme alemão e fazer a analogia. E assim entender por que um ministro de estado brasileiro não pode entrar nos EUA, sob pena de nunca mais ser libertado pela lei norte-americana.

Aos que se interessam pela história de um período conturbado, por uma direção bem realizada e um retrato preciso sobre um modo torpe de pensar, O Grupo Baader Meinhof é uma boa dica.

O autor é diretor de fotografia e professor de cinema da Universidade Federal de São Carlos.

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