2009-11-25

Não há diálogo possível com a desumanidade

holocausto34

 ARTIGO DA PROFESSORA ANIA CAVALCANTI, DA USP DE SÃO PAULO, QUE TEM UM CURRÍCULO ESTUPENDO, FAZ SUA ESTRÉIA NO BLOG. A ESPECIALIDADE DELA É JUSTAMENTE ANTISSEMITISMO E HOLOCAUSTO, ASSUNTO QUE O FACINORA AMIGO DE LULA JURA QUE NÃO EXISTIU. APROVEITEM.

NÃO HÁ DIÁLOGO POSSÍVEL COM A DESUMANIDADE
Ania Cavalcante

Causa-em indignação e um profundo estranhamento a visita de um ditador ao Brasil, parece-me uma dicotomia irreconciliável o presidente do Brasil, um nordestino que lutou pela democratização do país, pelos direitos humanos e pelos direitos dos trabalhadores, receber no país e dialogar com um ditador de um regime autoritário, assassino, que desrespeita os direitos humanos e qualquer diversidade étnica e religiosa. Desrespeita e condena à morte. Prende e violenta seus presos. Um regime, cujo presidente chegou ao poder de modo fraudulento, contra o qual parte de sua população – parte dos iranianos se revoltou – e foi sufocada.


Os iranianos lutam por seus direitos humanos. Lutam contra as penas de apedrejamento, contra as prisões arbitrárias, as perseguições a dissidentes políticos e pessoas de religiões não-muçulmanas, como os bahai ´s, cristãos


O Ministro de Defesa do Irã é procurado pela Interpol, como um dos comprovadamente responsáveis pelo atentado à Associação Mutual Israelita da Argentina, a AMIA, em Buenos Aires, um centro comunitário e educativo. Foi o maior atentado da América do Sul até hoje, onde 85 pessoas faleceram e centenas ficaram feridas. Abrir às portas de um diálogo com um regime que tem este ministro de defesa, é abrir as portas da violência e da intolerância, é colocar em risco o Brasil como local de um próximo atentado, e não necessariamente contra a comunidade judaica, mas também contra os bahaí's, as mulheres, os homossexuais.


Receber alguém é compartilhar com este alguém algo em comum. Dialogar com alguém é trocar idéias, respeitar, não necessariamente concordar com o outro – o consenso tem suas armadilhas e, como diria Rosa Luxemburgo: “Freiheit ist immer Freiheit des Andersdenkenden”, que pode ser traduzido como “a liberdade é sempre a liberdade dos que pensam de modo diferente, dos dissidentes”. Mas aqui não estamos tratando de um “dissidente”, de alguém “que pensa de modo diferente”: mas do representante de um regime que persegue, tortura, assassina. Que busca apagar a História, as diferenças étnicas e religiosas, apagar um Estado do mapa, arrasar culturas.


A ditadura iraniana oprime os iranianos, proíbe a liberdade de imprensa, de expressão, prende e assassina aqueles que lutam pela democracia, pelos direitos humanos, e aqueles que não seguem a religião oficial. Trata-se tambpem de uma ditadura das idéias, em que se nega o que chamamos o paradigma da barbárie do século XX, o maior crime documentado e comprovado da humanidade, o Holocausto, perpetrado pelos nazistas e seus colaboradores entre 1933 e 1945, que vitimou seis milhões de judeus, e milhares de ciganos, eslavos, homossexuais, opositores políticos, deficientes físicos e mentais. Tratou-se de uma tentativa deliberada de exterminar todos os judeus e o Judaísmo da face da terra, e toda a dissidência política, ideológica e qualquer diferença étnica, um “assassinato em escala industrial” planejada, planificada por homens “inteligentes”: arquitetos e engenheiros que construíram campos de concentração e os campos de extermínio de Belzec, Sobibor e Treblinka, os médicos que realizaram experiências pseudo-científicas desumadas, os oficiais que assassinavam e torturavam sem nenhuma compaixão. Sem face humana.


Que tipo de futuro pretende construir o presidente do Irã? Que perspectivas para a humanidade ele nos traz, além de ódio, de negação da História, da humanidade, e da potencialidade de uma guerra nuclear que arrasaria parte ou toda a humanidade? O que ele ensina às crianças, que valores passamos às futuras gerações em um regime autoritário, violento, que cerceia a criatividade, a solidariedade, a liberdade, e a básica liberdade de pensar por si mesmo e de lutar por um mundo mais justo e igualitário?
Há algo de incompatível em receber o presidente do Irã, sem que isso pareça compartilhar de seus métodos e concordar com seu regime infame. Parece-me inverossímel estabelecer um diálogo possível com um assassino, com um negacionista. A única possibilidade que me parece plausível, verossímil, é estando este senhor no banco dos réus. Assim faríamos alguma justiça aos milhares que vivem nas prisões do Irã, e aos assassinados desse regime infame. Infame. Eu não tenho nada a ouvir desse senhor. Não há diálogo possível com a desumanidade.


Eu quero é ouvir as vozes dos que estão presos. Eu não as escuto. Eu gostaria de ter ouvido as vozes e conversar com os que foram assassinados. Esses sim, merecem nosso diálogo, nosso respeito, nossa luta, nosso tempo dispendido por um pouco de justiça. Por vozes unidas, por um alento de humanidade.

 
Registro aqui minha indignação e minha solidariedade a todos que se manifestaram e se manifestam contra os assassinos, e contra os “assassinos da memória”. É realmente infame o momento histórico que estamos presenciando. E triste a postura do país onde vivo, este Brasil de exílios, de lutas, de acolhidas, de povos e etnias tão diversas, mas – parece-me – com tal política, parece um incentivo de emigração à nuestro país hermano, a Argentina.


Ania Cavalcante é historiadora e professora de Antissemitismo e Holocausto no Laboratório de Estudos sobre Intolerância (LEI-USP), professora e palestrante de Holocausto vinculada ao Yad Vashem (Escola Internacional de Estudo sobre o Holocausto) de Israel e professora nativa de Língua Alemã. Integra a recém criada FLI - Frente para a Liberdade no Irã.

Postado por David às 17:37 0 comentários

Marcadores: ANIA CAVALCANTI, antissemitismo, holocausto, Irã

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