2009-10-08

GEOGRAFIA RASTEIRA

Quinta-feira, Outubro 08, 2009


Crônica de uma geografia rasteira. . .
Postado por Conde Loppeux de la Villanueva
É impressionante notar o estado completo de alienação de muitos professores de geografia, com relação a geopolítica e mesmo a realidade mundial. Tudo o que é debatido a respeito da expansão do islamismo na Europa e a sua aliança com as esquerdas mundiais é virtualmente desconhecido por eles. É pior: a própria realidade latino-americana, com a expansão do socialismo “boliviariano” de Hugo Chavez, é também ignorada. Percebi isso quando assisti a uma aula de geografia na minha faculdade de história. O assunto a ser comentado foi sobre a Bolívia, em particular, a ascensão ditatorial de Evo Morales e o confisco da Petrobrás. Escutei a seguinte idéia estranha: a de que o roubo da empresa estatal brasileira era questão de soberania daquele país e que o Brasil não deveria se meter no assunto. Ou seja, o Brasil não tem interesses a defender; não tem soberania. Ou pior, na idéia de quem o disse, a soberania é apenas questão territorial. O Estado brasileiro não tem a obrigação de defender a integridade dos seus nacionais no estrangeiro. É como se o Estado só existisse para defender um pedaço de terra e não suas pessoas ou suas instituições. Os interesses do Brasil só se limitariam ao seu território.
Foi até mais grave. Relatei que os brasileiros da fronteira da Bolívia foram ameaçados de serem expulsos, sem indenização, já que o governo de lá queria roubar suas terras e seus investimentos. E mais uma vez, ouvi a pérola de que isso não fazia parte dos interesses do Brasil, já que não está na “soberania” brasileira. Quando retruquei sobre a incoerência dessas idéias e disse que o autor de tudo isso era Hugo Chavez, vi da parte de quem ouviu um ceticismo tremendo, quase que como uma perplexidade. As pessoas ao meu redor literalmente desconheciam das alianças entre Chavez e Evo Morales. Aquilo me deixou perplexo. Como é possível que numa sala de aula, professores e alunos desconheçam o evento mais grave da América Latina, da expansão do totalitarismo chavista? As pessoas me perguntavam de onde tinha tirado essas idéias. E respondi: - Basta ler os jornais da América Latina e pesquisar na internet!
Entretanto, professores e alunos comungam na completa falta de conhecimento sobre o que ocorre nos países hispânicos. Alguém poderia afirmar que haveria uma cumplicidade no crime, uma omissão proposital. Como os professores, em geral, são esquerdistas, tanto melhor que camuflem o que ocorre na América Latina e no mundo. Por incrível que pareça, uma grande parte dos professores simplesmente não sabe dos acontecimentos. Questões como as ligações de Hugo Chavez e Lula com o narcotráfico das Farcs, o poder do Foro de São Paulo (a maior entidade de extrema-esquerda na América Latina) e a aliança do esquerdismo internacional com o terrorismo islâmico são virtualmente inexistentes na consciência deles. Não são os únicos. A sociedade brasileira quase inteira ignora isso.
Malgrado essa irrealidade, o professor tinha passado um livro do geógrafo Milton Santos e um vídeo louvando sua obra. O filme é a visão da globalização pela ótica do Fórum Social Mundial, um festival de mendacidades, de tolices, de esquizofrenias das mais tolas. As pessoas reclamavam da “exclusão” do "capitalismo", do “consumismo”, do “neoliberalismo”, com suas câmeras e celulares de última geração nas baixadas, com seus PCs e suas internets. Não faltavam apelos aos sentimentos: as pessoas ricas, de um lado, criminalizadas por possuírem algo; e as pessoas pobres, de outro, retratadas como um contraste de um hipotético sistema “perverso”. Como não devia deixar de ser, o geógrafo baiano ainda nos prometia o “outro mundo é possível”. Chegava a ser irritante. Ele nos propunha meia dúzia de idéias genéricas, vazias, cheias de adjetivos inócuos, para não assumir o amor que não ousava dizer o nome, o amor socialista de cada militante marxista.
Milton Santos falava do tal “globalitarismo”, usurpando a concepção semântica do totalitarismo e atribuindo esse sistema à globalização econômica capitalista. Percebe-se a falsidade desse argumento. Na verdade, desde que o fenômeno totalitário foi estudado e descrito na sua vertente soviética, os socialistas e comunistas tentam desvirtuar a idéia central desse modelo político, criando paralelismos falsos entre o capitalismo e os sistemas totalitários. Na linguagem da esquerda, só existe o totalitarismo nazi-fascista ou capitalista. Como a União Soviética fracassou, a militância de esquerda precisou criar uma contraposição ao forjar espantalhos capitalistas em nossas democracias. Mas o tiro saiu pela culatra.
Alguns colegas acharam tal paralelismo um absurdo. Como o capitalismo pode ser tão ruim, se o nível de confortos e facilidades é tão visível? Qual a coerência de alguém reclamar do sistema de livre empresa, quando os pobres praticamente conseguem ter bens de consumo similares aos das classes ricas? É o caso desse povo “antiglobalização”: com suas facilidades de viajar para quaisquer cantos do mundo, critica o sistema que o beneficia. E defende um modelo que faria de suas nações verdadeiros campos de concentração, verdadeiras Coréias do Norte.
A pergunta que fica no ar é: será que estas pessoas têm perfeita idéia de como esses confortos chegam a elas? O meu professor de geografia achava que a tecnologia moderna era um dom natural dos céus, da história, não uma potencialidade que só o sistema capitalista foi capaz de realizar e expandir em grande escala. É a maldita influência da idéia progressiva da história, como se as etapas históricas levassem necessariamente a uma evolução da humanidade. É também a ideologia do homem-massa, descrita com maestria pelo filosofo espanhol Ortega y Gasset: a crença de que a civilização é natural, espontânea, não um produto do esforço humano, que pode ser perdido em uma época. Nada mais sábio do que as palavras de Edmund Burke: para que o mal prevaleça, basta que os bons não façam nada! É, basicamente, o que ocorreu no século XX e o que ameaça ocorrer no século XXI. Ninguém percebe que todo o complexo de valores, instituições e confortos que a civilização produziu pode um dia desaparecer. Basta que o mal vença!
Milagrosamente, vi alunos defendendo o capitalismo numa sala de história. Num ambiente onde só existe marxismo e as diferenças de idéias são tão somente uma diferença de marxismos, aquilo foi uma proeza e tanto. Talvez porque exista algo como senso das proporções. As pessoas bem ajuizadas notam, com razão, que há certa incompatibilidade entre o discurso pregado e a realidade vivida. Vi gente falando das facilidades econômicas e políticas da globalização, das proximidades entre regiões e países, do barateamento dos custos tecnológicos e de vida, enfim.
Houve alguns alunos leais ao discurso politicamente correto, crentes na autoridade cega dos professores e mesmo de Milton Santos. Há um culto ridículo à autoridade acadêmica nas universidades: dos professores aos alunos, o mero fato de alguém possuir algumas credenciais bacharelescas já é prova irrefutável de autoridade sobre determinado assunto. Uma pessoa só é filósofa ou historiadora se tiver diploma ou ser reconhecida pela comunidade acadêmica. Como parece não existir inteligência fora do que apregoa os modismos da universidade, daí a entender a soberba ignorância de muitos que vivem lá. Dentro dessa perspectiva, Aristóteles, Leibniz e Suetônio não seriam filósofos ou historiadores, porque não possuíriam o diploma da USP ou da UFPA. Se alguém chegar com credenciais bacharelescas do estrangeiro, o salamaleque é mais patético, ainda que seja complicado revalidar o diploma.
O professor, que queria conduzir os debates falando sobre Milton Santos, acabou ficando confuso. Queria direcionar dentro do foco do geógrafo e não conseguiu. Ele era excelente pessoa. Porém, como uma boa parte dos de sua classe, possuía idéias muito equivocadas sobre muita coisa. A própria influência de Milton Santos já era ruim, porque a perspectiva era completamente falsa. Quando as aulas acabaram, cheguei à conclusão de que o ilustre geógrafo baiano, tão conclamado pelas esquerdas, era uma nulidade intelectual, um militante de DCE acadêmico imaturo e estúpido, uma paródia caricatural do Fórum Social Mundial. Se Paulo Freire, com suas asneiras cantaroladas de forma messiânica, era o queridinho da pedagogia libertária, Milton Santos era o Paulo Freire da geografia, com sua fraseologia pomposa, prolixa, seus chavões transformados em sentenças e sua visão tosca da realidade.
Estou perfeitamente convencido de que a universidade atual, sob muitos aspectos, não é feita para nos informar, mas para deformar consciências. A disparidade entre realidade e discurso se tornou completamente esquizofrênica e foi bastante percebida nos debates em sala de aula por alguns alunos. Isso porque essas loucuras já são reproduzidas nas escolas de ensino médio. Não é por outra razão que a educação brasileira é uma das piores do mundo. O ensino está tão corrompido por ideologias espúrias e projeções estapafúrdias, que os alunos simplesmente não entendem o que vivem. Talvez nem mesmo os professores. É o mal da geografia rasteira, como da educação rasteira.
Postado por Conde Loppeux de la Villanueva às 04:00




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