2009-09-30

LULA CONTRA HONDURAS

UM VERMELHO-E-AZUL COM GASPARI, NOSSO AIATOLÁ

 
Reinaldo Azevedo 
quarta-feira, 30 de setembro de 2009 | 18:59

 
Não havia prometido um vermelho-e-azul com o artigo de hoje de Elio Gaspari, mas com um outro, de um advogado aí… Havia prometido apenas comentar um aspecto do texto do jornalista. Vá lá. Vocês querem, eu faço (quase sempre, hehe). A Gaspari, então. Depois o tal advogado.
LULA DISSE bem: “O Brasil não acata ultimato de governo golpista. E nem o reconheço como um governo interino (…) O Brasil não tem o que conversar com esses senhores que usurparam o poder”.
Lula fez tal afirmação com a embaixada brasileira transformada em base de Manuel Zelaya e seus bandidos, de onde convocam a guerra civil, o que viola a Convenção de Viena e a Carta da OEA. Ainda que o governo de Honduras fosse golpista, o que é bobagem sobejamente demonstrada, Lula estaria fora da lei - ou daquilo que os países acatam como norma de convivência pacífica.
Os golpistas hondurenhos depuseram um presidente remetendo-o, de pijama, para outro país, preservam-se à custa de choques de toque de recolher e invadiram emissoras. Eles encarnam praga golpista que infelicitou a América Latina por quase um século. Foram mais de 300 as quarteladas, uma dúzia das quais no Brasil, que resultaram em 29 anos de ditaduras. Na essência, destinaram-se a colocar no poder interesses políticos e econômicos que não tinham votos nem disposição para respeitar o jogo democrático.
É mentira que se preservam à custa da repressão. Se o governo soltar as amarras e conclamar zelaystas contra antizelaystas, haverá um banho de sangue. E os partidários do Chapelão vão ser esmagados mesmo sem o concurso das Forças Armadas. Também é mentira que a deposição de Zelaya se caracterize como um dos golpes, digamos, “tradicionais” da América Latina. Em Honduras, cumpriu-se uma Constituição democrática. Zelaya tem contra si 75% da população. Nem mesmo tem um candidato - já não tinha - à sua sucessão. É mentira que o governo interino represente “interesses políticos e econômicos” sem votos. Quem estava sem voto era Zelaya - a não ser os votos dos bate-paus bolivarianos.
Decide-se em Honduras se a praga ressurge ou se foi para o lixo da história.
É mentira! Decide-se em Honduras se os métodos chavistas vão ou não prosperar. E não vão! Zelaya já perdeu. Chávez já perdeu. Mesmo que Zelaya volte à Presidência, não volta ao poder. Lula já perdeu. Amorim já perdeu. Gaspari também perdeu. Afinal, ele já defendeu a pura e simples reinstalação de Zelaya no poder, no status de antes. E isso não vai acontecer.
Nesse sentido, o governo de Nosso Guia tem sido um fator de estabilidade para governos eleitos democraticamente.
É verdade. Inclusive o governo do Irã. A eleição naquela “democracia fascista” (!?) foi reconhecida pelo Guia de Gáspari antes que o Conselho da Revolução Islâmica o fizesse.
Se o Brasil deixasse, os secessionistas de Santa Cruz de La Sierra já teriam defenestrado Evo Morales. Lula inibiu a ação do lobby golpista venezuelano em Washington. Se o Planalto soprasse ventos de contrariedade, o mandato do presidente paraguaio Fernando Lugo estaria a perigo.
E, como se nota, há democracias exemplares na Bolívia, na Venezuela e no Paraguai, não é mesmo? Gaspari se coloca, assim, como defensor do método bolivariano de assalto à democracia. Chamar os opositores de Santa Cruz de La Sierra de simples “secessionistas” é uma aberração analítica, ideologicamente orientada ou factualmente desorientada. Também na Bolívia o governo violou as regras que estavam estabelecidas para a reforma da Constituição, como os bolivarianos sempre fazem. No caso de Lugo, o padreco um pouco mais manso (se não há virgens na sacristia), o arreganho se deu nas relações externas - justamente com o Brasil. Rasgou o contrato de Itaipu, e o Guia de Gaspari, mais uma vez, aceitou a provocação.
Para quem acredita que a intervenção diplomática é uma heresia, no Paraguai persiste a gratidão a Fernando Henrique Cardoso por ter conjurado um golpe contra Juan Carlos Wasmosy em 1996. Em todos os casos, a ação do Brasil buscou a preservação de governos eleitos pela vontade popular.
Trapaça intelectual e factual! Ali, sim, tratava-se de uma urdidura golpista, própria da América Latina do passado< contra um governo eleito. Zelaya tentou dar um golpe e foi contido por um contragolpe. O mundo sabe, e Gaspari também, que o Chapeludo tentou rasgar a Constituição e foi contido. Sabe que ele deu ordens ao Exército contrárias a uma decisão da Corte Suprema. Sabe que ele atentou contra vários artigos da Carta. Wasmosy não era um golpista bolivariano. Comparar as duas situações é, com efeito, coisa de Eremildo.
No século do golpismo dava-se o contrário. Em 1964, o governo brasileiro impediu o retorno de Juan Perón a Buenos Aires obrigando-o a voltar para a Europa quando seu avião pousou para uma escala no Galeão.
A ditadura militar ajudou generais uruguaios, bolivianos e chilenos a sufocar as liberdades públicas em seus países. (Fazendo-se justiça, em 1982 o general João Figueiredo meteu-se nos assuntos do Suriname, evitando uma invasão americana. Ele convenceu o presidente Ronald Reagan a botar o revólver no coldre. Nas suas memórias, Reagan registrou a sabedoria da diplomacia brasileira.)
Exemplos inúteis e descabidos porque buscam ilustrar e justificar uma situação absolutamente distinta. E que se note: não havia nada de errado com as “liberdades públicas” em Honduras até o governo brasileiro patrocinar, junto com os bolivarianos, a volta de Zelaya e converter a embaixada em base de conclamação à guerra civil.
O “abrigo” dado ao presidente Manuel Zelaya pelo governo brasileiro ofende as normas do direito de asilo. Pior: a transformação da Embaixada do Brasil em palanque é um ato de desrespeito explícito.
“Desrespeito” raramente pode ser usado como substantivo intransitivo. “Desrespeito” a quê, valentão? Tem de dizer. A quais códigos? Respondo. À Convenção de Viena. À Carta da OEA. E isso expõe o Brasil a penalidades internacionais, e seus governantes, internamente, a penalidades constitucionais.
Já o cerco militar de uma representação diplomática é um ato de hostilidade. Fechar a fronteira para impedir a entrada no país de uma delegação da OEA é coisa de aloprados. A essência do problema continua a mesma: o presidente de Honduras, deportado no meio da noite, deve retornar ao cargo, como pedem a ONU e a OEA.
Santo Deus!  Só o governo “golpista” está obrigado a seguir a lei? Gaspari, que gosta de antíteses de efeito, encantando-se freqüentemente com seu malabarismo chocho, deveria escrever um artigo explicando por que um governo dito “golpista” tem de seguir a lei, e um democrático, não. De sorte que o cumprimento da lei seria apanágio dos golpistas, e desrespeitá-la, dos democratas. Seria um pequeno passo para a retórica, mas um grande salto para a psiquiatria.
Lula não deve ter azia com os ataques que sofre por conta de sua ação.
Quais ataques? O Guia de Gaspari tem o apoio de quase toda a imprensa. Contra a lei, mas tem. Gaspari, como Fanklin Martins, quer a unanimidade.
Juscelino Kubitschek comeu o pão que Asmodeu amassou porque deu asilo ao general português Humberto Delgado. Amaciou sua relação com a ditadura salazarista e, com isso, o Brasil tornou-se um baluarte do fascismo português.
Ernesto Geisel foi acusado de ter um viés socialista porque restabeleceu as relações do Brasil com a China e reconheceu o governo do MPLA em Angola.
Quando Gaspari entender o que pretendeu com o gracejo, comento. Uma ilação possível é a de que o Brasil se candidata a baluarte do fascismo bolivariano.
As cartas que estão na mesa são duas: o Brasil pode ser um elemento ativo para a dissuasão de golpismo, ou não. Nosso Guia escolheu a carta certa.
Conhecemos o amor do Guia de Gaspari pela democracia no caso de Cuba, Sudão, Irã, Farc, Hezbollah, Israel… No mês que vem, o jornalista terá uma nova chance de exaltar as virtudes civilizadoras de seu guia, quando ele estiver cumprimentando Ahmadinejad, reafirmando o caráter pacífico do programa nuclear do homem que nega o Holocausto. É, faz algum sentido. À sua maneira, Gaspari também ambiciona ser um aiatolá. Se bem que antevejo uma crítica dura ao seu Guia. Vocês sabem como é duro ser isento.
E aí? Satisfeitos? Tá bom assim?

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