2009-08-01

BRASILIA, A CAPITAL DA COREIA DO NORTE


Sábado, Agosto 01, 2009


Direto de Pyongyang: a capital da Coréia do Norte é aqui.


Quando eu me referia à Brasília, a tão chamada “cidade da fantasia”, sempre me deparava com a idéia de Versalhes. Luis XIV passou uma boa parte do seu reinado montando aquele palácio monstruosamente belo às custas do sofrimento do pobre povo francês (sem contar as disputas geopolíticas do mundo europeu e, conseqüentemente, as guerras, atochado que estava o país em impostos). Fénelon, o notável escritor e teólogo católico, criticava abertamente o monarca, dizendo as seguintes palavras (o grifo é meu): “a França morre de fome (...) é um país de indigentes”. A declaração refletia um país esgotado pelos caprichos e luxos de um rei.

Não conhecia Brasília. As únicas vezes em que pisava na capital brasileira foram no aeroporto. E detestava a atmosfera daquela cidade insípida e seca mesmo no ar. As dores de cabeça são constantes, os narizes sangram, tamanha a sensação de desidratação. A má fama do que tudo que se passava naquela cidade, as falcatruas, as “fábricas de ilusões” e “usinas de déficits”, na feliz expressão do economista Roberto Campos, só me fortaleciam a ojeriza. Aí me lembrava: Brasília é a Versalhes de concreto, com a corte de seus áulicos e beija-mãos bajulando uma espécie de monarca republicano. Não é por acaso que depois de construída, foi governada por militares!

Entretanto, quando eu tive a primeira oportunidade de conhecer o Plano Piloto e o centro do poder, o Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios, eis que agora me dei conta da grande injustiça que fazia ao Rei da França: a capital do Brasil em nada lembra à beleza e majestade de Versalhes. Brasília é, acima de tudo, a capital da Coréia do Norte, mais desenvolvida e sem bomba atômica. Pyongyang foi a primeira idéia que me surgiu na cabeça quando vi a cidade. Os prédios padronizados, a paisagem monótona e sombria, além de uma arquitetura estranha e enfadonha, causaram-me uma impressão de surpresa. Eu me perguntava: o que aquilo queria dizer?

Quem acha que a arquitetura não diz nada está muito enganado. É um dado comum de nossa sociedade não perceber os símbolos e expressões que estão por trás das artes, da música e da arquitetura. As pessoas passam batido sobre coisas que, à primeira vista, não notam, ora porque estão com pressa, ora porque não param para pensar.

Nunca pisei em Versalhes. Mas pelas fotos, pelas pinturas, pelas salas e pelas mobílias, além de arquitetura suntuosa, todo aquele requinte parece querer dizer alguma coisa: a grandeza e o bom gosto de Luis, o Rei Sol, como Apolo, o centro das atenções da França. No gigantesco jardim, os idílios e passeios da monarquia desocupada. O prédio, com suas milhares de janelas e quartos, revela a magnitude de uma pequena cidade governada por um grande rei. Versalhes é a personalidade viva de alguém. Imaginemos Versalhes nos sons do grande músico Jean-Baptiste Lully ou do teatro de Molière? É o “L´etát c´est moi” de um monarca personalizado na figura de um palácio. Luis XIV é Versalhes, Versalhes é Luis XIV. Alguém poderia objetar o aspecto absolutista e autoritário de Luis XIV como um dos males do povo francês. Esse alguém está correto. Todavia, as belezas do Palácio, embora personalizem o rei, não anulavam as individualidades artísticas que o acompanhavam. Os pintores eram magníficos, os músicos eram melodiosos, os arquitetos eram extravagantes, enfim, tudo se tornou esplendor e beleza para a história das artes da França.

E Brasília? A capital do Brasil é uma cidade literalmente comunista, impessoal, coletivista. Se há algo na arquitetura de Niemeyer é a destruição da individualidade. Das ruas às casas, que mais parecem caixotes, dos palácios aos Ministérios, que mais parecem casernas agrupadas como bunkers, Brasília é uma cidade militarizada. As pessoas não dormem em apartamentos, dormem em gavetas ou túmulos. Um amigo meu, intérprete, homem falador de várias línguas, chegava de Kiev, na Ucrânia, quando levou um tremendo susto: Brasília era idêntica a qualquer capital de uma república soviética!

E os nomes das ruas? As pessoas não são localizadas pelos seus nomes, mas por números. Cada bairro parece um departamento de um gigantesco planejamento central. Há bairros pra tudo, bairros de hospitais, bairros de ricos, bairros de pobres, bairros de comércios, tudo dividido como se fossem meros setores de uma gigantesca burocracia, enfim, as suas várias “Esplanadas”. Se não bastasse o aspecto de tudo planejado da cidade, há também as “cidades-satélites”, com suas faltas de brilho, todas em torno da cidade-mãe, da “grande irmã” capital, tal como no romance de George Orwell, 1984. A única coisa que parece quebrar um pouco a rigidez geométrica das formas é a catedral, que lembra muito o impacto de uma gota de orvalho em choque com uma poça d´água. Ou, como dizia um amigo, parece um abacaxi. Ao menos há algo católico naquelas estruturas frias e sombrias, apesar da atmosfera pesada dos Três Poderes.

De onde provém tamanha falta de individualidade? O velho stalinista centenário Niemeyer projetou algo digno de sua ideologia tacanha, junto com seu comparsa Lúcio Costa. Porém, o Sr. Niemeyer parece levar sua perspectiva totalitária apenas na teoria e na arquitetura: é um homem perfeitamente contraditório, capaz de ganhar milhões de dólares em nossas sociedades capitalistas e desfrutar de uma vida de luxo no Rio de Janeiro. Ainda assim, elogia o brutal sistema dos Arquipélagos Gulags e condena o mesmo sistema que o sustenta. É pior, o homem é um falsificador nato da própria personalidade. Em um artigo publicado na Folha de São Paulo, o arquiteto comentou sobre a biografia do livro “O jovem Stálin”, pela ótica do historiador inglês Simon Sebag Montefiore. O que poderia ser uma espécie de análise sobre a juventude do ditador genocida acabou sendo uma falsificação histórica assombrosa. Niemeyer afirma, ao arrepio dos fatos, que o historiador estava reabilitando o déspota da Geórgia. A mentira, felizmente, não passou despercebida pela opinião pública, num raro momento de lucidez. Montefiore, que descreve Stálin como um psicopata e gângster, já nas palavras de Niemeyer, ganhou auras de patética santidade: Stálin foi aquele que fez uma “atuação heróica” em sua “luta contra o capitalismo”. Lembremos que é o mesmo capitalismo que dá fortunas à sua estética esterilizante. A pergunta que fica no ar é: Niemeyer leu o livro? Provavelmente não. E se leu ou mentiu ou está com mal de Alzheimer, fruto de anos de militância stalinista. Quando eu entrei no Congresso Nacional, perguntei a uma guia muito simpática o que representava as duas metades de esferas acima do teto do senado e da câmara. Alguém poderia dizer que as duas esferas unidas representavam a junção do Senado e da Câmara. Mas parece que Niemeyer afirmou que aquilo não era absolutamente nada. É provável que a arquitetura do niilismo não haja sentido algum. Não que eu seja revoltado contra a arte moderna. Confesso, tenho nostalgia pelas catedrais medievais e palácios europeus. Porém, um arquiteto como Antoni Gaudí, que é moderno e do século XX, transmite sólida beleza e espiritualidade nas arquiteturas das casas da Catalunha. E Niemeyer? É um “realismo socialista” rasteiro, uma cópia das capitais das ditaduras comunistas, em particular, Pyongyang.

Ainda me lembro quando conversava com uma senhora portenha muito bonita, a respeito de Niemeyer. Ela estava deslumbrada com a cidade e com a obra do arquiteto. Eu me perguntava o que ela viu de tão interessante naquela coisa tão seca, tão sem graça. Se Brasília diz alguma coisa, com certeza, não é boa. Salvo, talvez, para as instituições necessárias para a sobrevivência da democracia no país. Neste ponto, mas somente neste ponto, conhecer o Congresso Nacional me animou. Por mais falha que seja a instituição, percebi que muitas pessoas que pertencem àquelas Casas não estão à altura da responsabilidade de legislar. E aí conheci o túnel do tempo, com a história do Congresso Nacional, em particular, o destaque dado às épocas monárquicas, quando o Brasil tinha estadistas de grosso calibre.

No entanto, parece que Brasília incorpora espiritualmente o caráter stalinista de Niemeyer e da sombria Piongyang, a capital da Coréia do Norte. Aproximando-me de alguns conhecidos próximos no Ministério das Relações Exteriores, há muita gente ingênua que acha que o governo Lula se aliou à ditadura de Kim Jong Il, por conta do “livre comércio”. Outros acham benéficas as relações com Irã. E a ligação criminosa do PT com o Foro de São Paulo, com Hugo Chavez da Venezuela, Evo Morales da Bolívia, Lugo do Paraguai, Correa do Equador, e mais recentemente, Zelaya de Honduras, passa despercebida por eles, desconhecida ou subestimada, como se não fosse com eles. Na verdade, de forma hipócrita e dissimulada, o Presidente Lula mandou retirar os embaixadores brasileiros em Honduras, quando o Congresso, o Judiciário, o Ministério Público e o exército do país expulsaram o compadrio chavista Zelaya. É mais patético ainda: poucos meses antes, Lula havia mandado embaixadores para Pyongyang. Isso porque a OEA atual se posa de “defensora” da democracia contra os golpistas, mesmo que para isso insira a ditadura cubana na entidade. Ou seja, isola Honduras por defender a democracia e patrocina o regime de Fidel Castro para destruí-la. Tal como Piongyang, o Brasil tem uma diplomacia capaz de varrer as democracias no continente e causar sérios prejuízos ao país. Para ser uma Piongyang completa, o Brasil só precisa ter mísseis nucleares. Contudo, ainda é incompetente demais para isso, embora a fama de fora-da-lei do direito internacional esteja espalhada por quase toda mídia afora (claro que a imprensa brasileira não conta...).

No plano interno, o governo federal usa a Esplanada dos Ministérios para colocar toda a companheirada do Partido. Nada mais parecido com Pyongyang. Usa a polícia federal para perseguir desafetos. Usa da influência do executivo para intervir no judiciário e no congresso nacional. O caso da cumplicidade do governo Lula com o senador José Sarney, acusado de vários escândalos, entre os quais, a possuir contas e favores secretos, é um retrato da natureza moralmente deturpada e perigosa do petismo. A acusação do senador Jarbas Vasconcelos a respeito dessa influência nefasta do executivo sobre o legislativo é mais que oportuna. A intenção premeditada do governo é de desmoralizar o Congresso Nacional e ter força sobre ele. Um desses golpes foi o do mensalão, a tentativa de subornar os parlamentares e comprar as opiniões da Câmara. O atual é o de promover a pior corja de pessoas que jamais sentou nas cadeiras das duas Casas, para tornar o Congresso um balcão de negócios e cargos! Raramente as Casas Legislativas chegaram ao seu nível mais baixo. E o petismo tem uma pesada dose de responsabilidade nisso. Quando a democracia faz de atos que poderiam ser de conhecimento público em conluios secretos, é prova de que o caráter das instituições está se degenerando. Contudo, as falcatruas de Sarney são coisa pequena perto das alianças e dos projetos políticos que o PT esconde por trás da manga. Em particular, o patrocínio da destruição dos regimes democráticos no continente latino-americano e a promoção de ditaduras totalitárias é o projeto que o PT esconde por trás da capa de convertido ao capitalismo. Esses ventos da desordem e do caos um dia vão chegar ao Brasil. E tem gente que não acredita, apática e bestializada demais para compreender a gravidade da situação!

Uma dama da corte de Versalhes dizia que o Palácio do Rei era uma favorita sem mérito. Brasília nem tem essa vantagem: não é favorita e quase não tem mérito nenhum!



Postado por Conde Loppeux de la Villanueva às 15:19


Um comentário:

Tia Cê, a Luz emana de mim disse...

Muito oportuna essa explicação verdadeira e objetiva sobre essa capital horrenda que alguns analfabetos funcionais teimam em achar linda. Cabe aqui após a leitura desse texto espetaculara, reler o notável Leandro Diniz DETONANDO uma analfabeta funcional que descreve Brasilia como capital da utopia e modernidade:
http://oemunctorio.blogspot.com/2009/07/detonando-tropicalia-e-o-besteirol.html

ENJOY