2009-07-14

WACKO JACKO IS DEAD

Terça-feira, Julho 14, 2009

Espetáculo da decadência.


Quando soube da notícia da morte do cantor Michael Jackson, confesso que tive uma surpresa. Não que eu morresse de amores pela suas músicas. No geral, sua carreira me foi indiferente. Alguma exceção que apreciei foi na época do “Jackson Five” e alguns sucessos isolados, quando o artista ainda era um jovem negro, isso, quando eu era também uma criança, lá pelos anos 80. A precocidade de seu falecimento causou certo impacto, embora o sujeito tivesse um comportamento visivelmente niilista, destrutivo. Curioso foi o circo de sensacionalismo e vulgaridade que a mídia nos brindou, a respeito de seu velório. Durante uma semana, o noticiário estava tão impregnado de Michael Jackson que pensei seriamente que deviam enterrá-lo o mais rápido possível, de preferência, jogando toneladas de concreto, para que o cadáver não saísse nunca mais do túmulo. Assim, seriamos poupados dos zumbis do Thriller e deixaríamos o homem descansar em paz. Ao menos, ele teria uma morte digna!

Foi um caso estranho de intoxicação jornalística, de repetição frenética de propaganda, quase que como uma lavagem cerebral digna das ditaduras totalitárias. Quase tudo era divulgado e provavelmente saberíamos de tudo sobre ele: seus caprichos, seus problemas familiares, suas supostas namoradas, seus escândalos sexuais pedófilos e, quem sabe, até a cor de sua cueca. E mais fofocas corriam soltas sobre sua herança e seus milhões de dólares gastos em futilidades e plásticas monstruosas no nariz e em todo o rosto. Apesar de tudo, esse detalhe não foi tão surpreendente. Assustador mesmo foi o vendaval da idolatria pelo cantor, algo chegando às raias do patético. Fãs que choravam copiosamente, fãs que seguravam os retratos do ídolo, fãs que peregrinavam sobre a propriedade do cantor na “Terra do Nunca”, idealizando-o, imputando-o virtudes inexistentes, como se fosse uma espécie moderna de santo medieval. Até a morte se tornou uma espécie de espetáculo! É curioso que nesta dramatização de choros, ranger de dentes e desesperos, há um retrato de profundo vazio espiritual em nossa sociedade. O apego cego a Michael Jackson e o fanatismo disseminado pela imprensa é um sintoma completo disso.

Este fato me causou profunda impressão. Se atentarmos às peregrinações, manifestações deploráveis de culto à personalidade e idealizações rasteiras do ídolo pop, elas representam um sintoma de religiosidade, ainda que distorcida e caricatural. Isso leva a crer que, a despeito do bombardeio sistemático contra a religião, alimentado pela imprensa e setores culturais, o laicismo e o materialismo não conseguem abolir o sentimento religioso. No máximo, conseguem corrompê-lo, na reverência a coisas transitórias. A histeria em torno de Michael Jackson é a devoção popular do supérfluo, do efêmero, cujo objeto de consumo será esquecido na próxima estação. E será substituído por outra figura bizarra e estranha, tão deformada quanto o ídolo anterior. Se não bastasse este mero detalhe, a imprensa desenterrou outras figuras lendárias do mundo pop: desde Elvis Presley até Janis Joplin, a hagiografia dos artistas foi quase completa. E, ainda, sem se esquecer de John Lennon, com suas músicas enfadonhas e seus sonhos idiotas de “imagine”. . .

A nossa sociedade capitalista, decerto, proporciona muitos confortos materiais. Inclusive, aumentou o padrão de vida das populações. Contudo, já dizia o epíteto bíblico de que não só do pão viverá o homem. E neste aspecto, o homem médio da atualidade parece viver numa fome espiritual profunda e come farelos. Os confortos materiais da sociedade criam uma ilusão de que o universo imanente é a única coisa que existe e pode nos realizar. É sintomático que nossa sociedade seja tão rica materialmente e tão pobre espiritualmente. A falta da crença em algo transcendente e absoluto leva a atual sociedade a adorar deuses de barro. Houve gente que dizia que Deus estava morto. Na verdade, quem morreu espiritualmente foi o homem. . .Chesterton afirmava que quando as pessoas deixam de crer na religião cristã, elas podem crer em qualquer besteira! Nada mais correto! O fenômeno Michael Jackson é a representação mais perfeita deste show de decadência!

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