2009-07-17

O CRETINISMO POLÍTICO DE CHICO BUARQUE



sexta-feira, 17 de julho de 2009 6:31


Peço a vocês que leiam com atenção o que vai abaixo. O assunto já está cansando, sei disso. E eu também estou me cansando dele. Mas é mais importante do que parece. Com alguma freqüência, há bolhas no debate público brasileiro nas quais não se pode entrar. Ficam flutuando como verdades definitivas e intocáveis, embora composta de falácias evidentes. Em boa parte, meu blog só existe e faz sentido porque nós nos atrevemos, eu e vocês, a dessacralizar esses deuses profanos da mistificação. Vamos lá. Cheguem até o fim, que as coisas se explicam.


*Chico Buarque continua a render. Quanto menos o sujeito entende o que está escrito, mais se indigna. Não critiquei a obra de Chico como compositor ou letrista. Ataquei a sua análise política, que é estúpida, preconceituosa e cruel. Posso falar também sobre as suas letras se o problema é esse. Mas antes trato um pouco mais da questão política.
Quem sabe o que penso já percebeu que não justifico a violência como instrumento para fazer política. Os extremistas, sejam de direita, sejam de esquerda, costumam tratar a eliminação de adversários como coisa corriqueira. Não é a minha praia. É a de Chico Buarque, o amiguinho do facínora Fidel Castro, por exemplo.
Chico respondeu a indagações que são de natureza política. Se tivesse feito digressões sobre os sonetos petrarquianos, talvez eu o tivesse deixado de lado. Em meio ao caos e ao medo espalhado por terroristas no Rio, este senhor vem com a conversa mole de que responsável mesmo pela violência é a classe média. É a análise de um imbecil ou de um mau-caráter.
Mas é uma imbecilidade e um mau-caratismo da qual talvez nem ele próprio se dê conta. Seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, de certo modo, estudou as opiniões do filho em Raízes do Brasil, um dos livros mais citados e não-lidos do país, embora pequenino. Lido, muitas vezes não é entendido. Quando Sérgio aponta a cordialidade como um traço característico e negativo da nossa formação, refere-se justamente à ausência de fronteiras nítidas entre os mundos público e privado, entre o ambiente da família e o ambiente da rua, o que mascara as diferenças sociais em nome de um pacto de convivência que legitima e “naturaliza” as desigualdades.
A análise de Chico sobre a violência traz o viés da Casa Grande - para citar um outro contemporâneo de Sérgio e ainda maior do que ele, Gilberto Freyre. O compositor olha para os miseráveis que matam e morrem, vítimas do crime organizado, e diz: “Isso é lá coisa deles”. O branco integrado vê a carnificina com um olhar amoroso, compreensivo, condescendente, compassivo. Como uma sinhazinha dos olhos glaucos, ele tem mesmo é ódio é dos burguesotes, da classe média que tentam ascender na vida, que tentam vencer no braço as benesses da sociedade de classes que ele, Chico, recebeu de graça. Chico é o homem cordial descrito por seu pai. Chico é um direitista e não sabe. Mas não é uma direita qualquer. É a direita reacionária.
O “poeta”Chico é um bom letrista, às vezes excelente. Especialmente ou apenas quando trata da questão amorosa. Tem uma cultura literária superior à da maioria dos artistas da chamada MPB, com a provável exceção de Caetano Veloso, este também dado a arranques filosóficos. Embora Caetano seja mais falastrão e saiba usar a imprensa a seu favor, prefiro o baiano. Seu “programa” me parece mais voltado para o mundo das artes & espetáculos do que o de Chico Buarque, metido a analista político. Caetano pode ter o miolo um pouco mole, como acusou certa feita José Guilherme Merquior, mas não justifica ditaduras.
Chico é um bom letrista? Quando não põe sua arte a serviço da questão política, é. Se você conhece Camões, impressiona-se menos com ele… De todo modo, para um compositor de MPB, está de boníssimo tamanho, vai muito além da conta. Mas tem ambições muito maiores, também de romancista. Aí o bicho pega. Comete um pecado mortal para um prosador: não sabe ser simples e fazer as palavras terem uma fluência que, sem ser a fala, não lhe seja estranha. É questão de gosto? Claro que é. Meu preferido do modernismo é Graciliano Ramos, não Guimarães Rosa. Chico é um ótimo “intelectual” da classe média que ele tanto deplora, embora assuma aquele ar distante, meio afetado, de reizinho baudelairiano de um país chuvoso.
Reconheço-lhe, pois, qualidades de letrista, especialmente a parte de sua produção não contaminada por sua utopia totalitária. Mas é uma besta política. E ele falou foi de política. E minha resposta foi política.
Quanto à petralhada que me diz, com se fosse insulto, que Chico não sabe quem sou e não está nem aí para o que escrevo, não dou a menor bola. Um dos meus textos de que mais gosto trata da obra de Fernando Pessoa. Também ele não sabe e jamais saberá quem sou, não é? Não escrevo para chamar a atenção dos objetos de minha análise. Escrevo porque quero e porque posso. De todo modo, fiquem calmos: ele sabe quem sou. E isso para mim é de uma irrelevância oceânica.
Chega de confusão De uma vez por todas: o alagoano Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, o dicionarista, nunca foi irmão, nem espiritual, do paulista Sérgio Buarque de Holanda. E, portanto, nunca foi tio de Chico Buarque.


Então…Sabem de quando é o post acima? De 31 de dezembro de 2006! Sim, véspera do Ano Novo. Eu estava na praia, com os pés na areia, escrevendo pra vocês (ô obsessão!, hehe…). E do que é que estou falando acima? Puxem um pouco pela memória. Naqueles dias, o Rio vivia um surto de violência, inédito mesmo para os padrões locais. Gangues começaram a aterrorizar a cidade com ações de caráter terrorista. A nossa Palas Athena da MPB foi ouvida e fez o quê? Deu um pau na classe média. O post está aqui.
Em agosto daquele mesmo ano, quatro meses antes, eu o havia premiado com um texto chamado A delinqüência intelectual de Chico Buarque. Por quê? Reproduzo um trecho que fala por si mesmo:


Chico Buarque também acha que a política brasileira deve ser tratada como a Geni de sua música. Ele está com Paulo Betti. Daí que vote, claro, em Luiz Inácio Lula da Silva. Não é de espantar. Ele faz coisa muito pior, como defender o regime homicida de Cuba, por exemplo. Faz coisa ainda pior: pretende-se o branco de olhos verdes bastante procurador dos oprimidos brasileiros. E está sempre disposto a denunciar a violência da elite branca e perniciosa(…)Chico, há muito tempo, é uma espécie de porta-voz, a despeito de sua brincadeira de gato e rato com a imprensa, da suposta boa consciência nacional. É o nosso esquerdista chique de plantão; é o nosso socialismo lírico - como se pudesse haver um; como se tivesse havido um algum dia.Ele pode, evidentemente, votar em quem quiser. Só não pode fazer o que fez nesta segunda, conforme relata o Estadão: “Chico Buarque reafirmou que vai votar em Lula e defendeu o músico Wagner Tiso, que disse não se importar com a ética do PT, mas com o jogo do poder. ‘Também já falei bobagem, depois me arrependo.’ Para ele, a posição dos colegas não é a de descartar a ética, mas relatar como é a política no Brasil. ‘Essa é a realidade política.’”Entenderam? Primeiro ele diz que foi uma bobagem. Depois ele não apenas justifica como repete o argumento de Tiso e do próprio Paulo Betti. Não há diferença entre dizer “Essa é a realidade da política” - ou seja, a ausência de ética - e a necessidade de “enfiar a mão na merda”. Esse é o Chico Buarque de “Apesar de você/ amanhã há de ser/outro dia”. Essa deve ser a “enorme euforia” que ele vislumbrava em suas músicas quando acabasse a ditadura. Esse é o cantor do “Vai passar/pela rua um samba popular”. Esse é o “poeta” daquela cafonice chamada Cálice, em parceria, diga-se, com Gilberto Gil, em cuja casa se deu aquele jantar [em que Tiso disse que a ética não tem importância]. É a utopia imaginada pelo crítico social que via os operários caindo do andaime “na contramão/ atrapalhando o tráfego”.


Voltei
Como se vê, não é de hoje que aponto o cretinismo político de Chico Buarque, que costuma falar o que lhe dá na veneta sem que seja questionado. De novo: não é por isso que faz maus romances. Mas é por causa de seu alinhamento ideológico que é freqüentemente preservado de si mesmo — das bobagens que diz e das ruindades que escreve.

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