2009-07-03

LULA E SARNEY COM AS MANGAS DE FORA

Sobre a natureza do PT






No post anterior, ironizo o modo petista de governar, afirmando que é mesmo “uma revolução”, sugerindo, é óbvio, que os petistas repetem os vícios que tão tristemente caracterizam a política no Brasil.

Ao escrever tal coisa, lembro de críticas que me fazem alguns petistas moderados — os, digamos, imoderados acreditam que não é bem “crítica” o que mereço… — e até alguns amigos: “Mas, então, por que você parece ser mais severo com o PT do que é com as outras legendas?”

Com efeito, só pareço. Se o PT está muito mais presente neste blog é porque está no poder e porque, bem…, vocês sabem, o partido é bastante imoderado em matéria de transgredir códigos e condutas. Adiante.

Admito, no entanto, que há um tipo de crítica de que o PT, no meu texto, é alvo mais freqüente. Aliás, sempre admiti isto e acho absolutamente justo e justificável. Começo pelo exemplo e depois chego ao conceito.

O pecado, pouco importa quem o cometa, é uma só. Não é o pecador que define o pecado, mas a natureza do seu ato. Assim, pouco importa se é A ou B a cruzar a linha do aceitável. Não é o transgressor que faz os mandamentos. Mas como ignorar que o pecado de um sacerdote tem um agravo adicional, associando a hipocrisia ao malfeito essencial? Como ignorar que a ilegalidade patrocinada pela autoridade é mais perniciosa do que aquela praticada pelo cidadão comum?

É evidente que o PT nunca foi sacerdote de porcaria nenhuma! É evidente que o PT nunca teve especial autoridade moral para enfiar o dedo na cara dos adversários! Quem viveu, inclusive, os primórdios da formação do partido sabe muito bem disso. Parte dos métodos que Lula emprega na Presidência é herança de sua atuação como sindicalista. E muitos são impróprios para consumo humano.

Mas é inegável que o petismo se queria — e alguns ainda investem nisto — monopolista da “ética na política”. Quantos foram os atos públicos que o partido promoveu, em quase 30 anos de existência, levantando tal bandeira? Se todos aqueles que o partido acusou das piores coisas tivessem sido ou fossem mesmo culpados, vá lá. Ainda que os petistas incorressem agora nos mesmos erros, isso não tornaria seus adversários inocentes.

Mas também essa hipótese é mentirosa. O partido está pouco se lixando para culpas e inocências. Essa clivagem, feita no passado, era só a fachada da distinção que realmente lhe interessa: “está comigo” ou “não está comigo”. Quem está é inocente mesmo que seja culpado. E quem não está é culpado mesmo que seja inocente. Uma mesma personagem pode viver as duas situações. É o caso de Sarney. Em palanque, no passado, Lula o acusou de muita coisa que ele não fez. Hoje, na Presidência da República, Lula tenta ignorar tudo o que ele fez. Os inimigos serão sempre alvos da máquina de sujar reputações. Os amigos serão sempre beneficiados pela lavanderia.

E isso, lamento dizer, é, sim, tipicamente petista. Porque o partido quer, a despeito dos métodos os mais detestáveis, falar ainda em nome de uma utopia. E sua única utopia é, na prática, exercer o poder como partido único, abrigando, se preciso, em suas fileiras a esquerda mais doidivanas e a direita mais estupidamente reacionária. Se ele tiver a hegemonia do processo, cabe qualquer coisa em seu guarda-chuva.

Acho que o texto ficou bem claro, não?

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Por Reinaldo Azevedo



ENCONTRO DE TITÃS

sexta-feira, 3 de julho de 2009 18:15

Leiam o que Informa Leonencio Nossa, no Estadão Online. Volto depois:

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), disse nesta sexta-feira, 3, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não pedirá licença ou renunciará ao comando do Senado. Em encontro de quase duas horas, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Sarney avaliou que a oposição está tirando proveito da crise para criar problemas para o governo e assumir o controle do Senado, segundo informou um auxiliar direto de Lula à Agência Estado.
O senador disse ainda que espera liderar o “processo de normalidade” com apoio da base e de “quem mais estiver interessado”. Lula, segundo essa mesma fonte, concordou com as avaliações de Sarney e disse que apóia a disposição do senador de liderar o processo de restabelecimento de normalidade da instituição.
Durante o encontro, Sarney apresentou ao presidente Lula o documento que enumera 36 ações adotadas pela Comissão Diretora para dar eficiência e transparência às decisões administrativas do Senado.
O documento destaca uma economia de aproximadamente R$ 10 milhões por ano nos dois primeiros contratos de fornecimento de mão de obra; a mudança na regulamentação das cotas de passagens aéreas dos senadores, com a economia de 30%; a redução em 10% das despesas gerais do Senado; redução da taxa de juros dos empréstimos consignados para patamar máximo de 1,6% ao mês; e a solicitação à Polícia Federal para que investigue os empréstimos consignados aos servidores, bem como as empresas que o operaram.

Comento
Bem, Sarney disse a Lula o que Lula, em tese, já havia dito a Sarney, que, por sua vez, repetiu o que o próprio Sarney havia dito a Dilma naquele tal “ato secreto”.

É formidável a capacidade dessa gente de abusar da ignorância do próximo. A oposição integra a atual Mesa do Senado. Não existe um confronto entre governistas e oposicionistas na direção da Casa — as divergências, quando existem, dizem respeito a matérias que estão em votação. Se Sarney renunciasse, nova eleição seria feita, e um governista seria eleito. Assim, a tese da tentativa da oposição de tomar o Senado é uma dessas mentiras físicas, entendem? Nem mesmo se pode dizer que, a depender do ponto de vista, a coisa faz sentido. Não faz.

Mais: o afastamento ou renúncia de Sarney seria só uma forma de dar alguma credibilidade à investigação de irregularidades. Por que isso seria necessário? Porque ele próprio foi, até agora, o maior beneficiário individual dos atos secretos. Ninguém o está acusando de ser o culpado de tudo desde as capitanias hereditárias.

Bem, o fato é que o encontro de Sarney com Lula serviu para o senador lembrar ao presidente que eles estão juntos nessa, até o fim. O presidente da República que trate de defender o Presidente do Congresso. Unidos contra a investigação das irregularidades e a punição aos faltosos.

Como vocês vêem, o PT realmente representou uma revolução no modo de governar.

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Por Reinaldo Azevedo


A CULPA É DO MORDOMO

sexta-feira, 3 de julho de 2009 17:56

É o seguinte: o Estadão publicou hoje reportagem demonstrando que o senador José Sarney omitiu em sua declaração de bens à Justiça eleitoral uma casinha de R$ 4 milhões (ver posts da madrugada), que ele tem em Brasília. Segundo o senador, foi culpa do seu contador.

Qual é, gente? Se Lula pode não saber de nada, por que Sarney tem de saber de tudo?

Ele nem sabia que um neto trabalhava no gabinete de um aliado político seu (na verdade, subordinado) e que outro tinha uma empresa de intermediação de empréstimos que atuava no Senado.

Alguém com tão pouca sabedoria é um risco na presidência do Congresso Na do país então… Imaginem os perigos a que estivemos sujeitos. Na hipótese benigna, pergunta-se: quem não cuida da própria declaração de bens conseguirá ser zeloso com os bens alheios, como é mister num presidente do Congresso?

Mas, como diriam Lula e a não-mestra e não-doutora Dilma Rousseff, Sarney não é o único culpado de sua declaração de bens ser tão exata quanto o currículo da ministra…

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