2009-07-27

HONDURAS REJETA O COMUNISMO, OBAMA NÃO

SURGE ALGUMA RACIONALIDADE. E UMA FORMA DE PROPAGAR A MENTIRA

domingo, 26 de julho de 2009 | 7:35

Um pouco de racionalidade, um pouquinho só, começa a surgir na imprensa brasileira ao tratar da questão hondurenha. Nada ainda adequado ao que, de fato, ocorre naquele país e ao significado do conflito político lá deflagrado. No Estadão deste domingo (ver abaixo), um texto dá conta do óbvio: a esmagadora maioria da população quer Zelaya longe de Honduras e apóia o governo de Roberto Micheletti. Na Folha, outra reportagem informa que o Departamento de Estado dos EUA ficou realmente chateado com a pantomima daquele senhor. Noticia-se de maneira um pouco mais clara que o que se chama “golpe” foi uma resposta às transgressões à Constituição cometidas pelo ex-presidente.

Zelaya, por sua vez, segue o seu roteiro patético. Agora decidiu “acampar” na fronteira com a Nicarágua (do lado nicaragüense), onde, diz ele, espera receber seus simpatizantes, que o conduziriam de volta ao país. Anunciou que ficaria lá até depois de amanhã. Mas o jornal El Heraldo.hn informa que ele teria voltado ao hotel. Vai ver passará as noites num quarto com cama, comida, roupa lavada e chuveiro quente. De dia, quer brincar de líder revolucionário. O lado bufão desse boneco de Chávez já começa a constranger seus apoiadores. É um criador de casos. Agora diz que espera se encontrar com sua família, que gostaria de ir ao seu encontro. O governo de Honduras ofereceu um avião para conduzi-la, mas eles querem cruzar a fronteira por terra, desrespeitando as medidas militares de proteção.

Embora tenha passado uma certa histeria com o “golpe”, as mentiras e distorções continuam. Abaixo, segue uma inacreditável notícia da AFP publicada no Estadão (por que o jornal precisa disso?). Acompanhem no vermelho-e-azul. O título da pérola: “Golpistas ignoram pressão externa”. Subtítulo (que a gente chama “linha fina” no jargão da profissão): “Governo autoproclamado busca convencer críticos de que deposição não foi golpe, mas mero problema judicial”. Bem, não é golpe, como sabemos. E o governo não foi “autoproclamado” coisa nenhuma. Foi empossado pelo Congresso e pela Justiça. Sigamos:

Quase um mês depois do golpe, Honduras está longe da calmaria. Os responsáveis pela destituição do presidente Manuel Zelaya continuam no poder, aferrados a sua concepção própria de democracia. Ignorando a pressão política e financeira internacional, o governo de fato de Roberto Micheletti rejeita a solução negociada proposta pelo mediador Oscar Arias, presidente da Costa Rica.
“Concepção própria de democracia” uma ova! Todos os procedimentos legais próprios de um regime democrático estão em vigência em Honduras. “Concepção própria de democracia”, quem tem é Chávez. É Rafael Correa. É Evo Morales. É Daniel Ortega. E toda essa gente quer Zelaya de volta em nome da… democracia! É uma coisa espantosa!

É MENTIRA QUE O GOVERNO DE FATO REJEITA A PROPOSTA FINAL DE ARIAS. ELA SERIA AVALIADA PELOS DOIS OUTROS PODERES (JUDICIÁRIO E LEGISLATIVO). MAS ZELAYA NÃO QUIS ESPERAR. FOI ELE QUEM DECLAROU AS NEGOCIAÇÕES ENCERRADAS, PROTAGONIZOU A PANTOMIMA DO RETORNO E ESTÁ AMEAÇANDO O PAÍS COM GUERRA CIVIL. ATÉ O BANANA JOSÉ MIGUEL INSULZA, DA OEA, O CENSUROU POR ISSO. HILLARY CLINTON, QUE TINHA UM ENCONTRO MARCADO COM ELE, CLASSIFICOU A INICIATIVA DE “TEMERÁRIA”.

Essa solução passa pela restituição de Zelaya - como pede em uníssono a comunidade internacional. Em um país com um triste recorde de 125 golpes de Estado nos primeiros 150 anos de independência, as novas autoridades estão empenhadas em transformar o que diversos países e organizações classificaram como um golpe de Estado em um mero problema legal, parte de um processo de “sucessão constitucional”.
Zelaya estava programando o 126º golpe. Faltaria ao redator da AFP, com a Constituição de Honduras na mão, demonstrar que os artigos que lá estão não foram cumpridos. Ele não faz isso porque não conseguiria. Ademais, o fato de uma maioria dizer alguma coisa não quer dizer que ela esteja necessariamente certa. A quantidade de gente que acredita numa coisa não faz a qualidade da crença.

A cúpula militar, o Poder Judiciário, o Congresso, os empresários, a Igreja Católica e boa parte dos meios de comunicação hondurenhos cerraram fileiras em torno de Micheletti, enquanto Zelaya é apoiado por movimentos sociais e sindicatos.
Se é assim, e dado que a Constituição foi aplicada — ou provem que não foi —, então o governo de Micheletti, que é legal, é também o que tem mais legitimidade porque com uma base social obviamente maior. Aliás, as manifestações de rua o provam. São milhares em favor do governo provisório contra alguns baderneiros violentos em apoio ao ex-presidente.

A analista Sarah Ganter, numa análise para a fundação alemã Friedrich Ebert, defende que o golpe foi impulsionado por uma “aliança das forças políticas, econômicas e meios de comunicação” que condenavam o giro à esquerda de Zelaya, após ele ter chegado ao poder, em 2006, pelo conservador Partido Liberal (PL).
Desde então, Zelaya, um empresário dos setores madeireiro e pecuarista, não só colocou Honduras na Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) e aliou-se ao venezuelano Hugo Chávez como também enfrentou grupos econômicos do país com uma série de medidas.

Uma delas foi o aumento de 40% do salário mínimo para US$ 250 em meio à crise. O estopim, contudo, foram seus planos para convocar uma consulta popular para reformar a Constituição permitindo a reeleição presidencial. Tanto Micheletti como Zelaya pertencem ao PL, que vem se revezando com o Partido Nacional no poder.
Viram que homem corajoso? Fica parecendo que caiu porque era um “amigo do povo”. O próprio “povo” não pensava assim, já que pesquisas indicam que ele era aprovado por apenas 30% dos hondurenhos. A grita contra o reajuste do mínimo aconteceu porque ele tomou tal decisão em meio à crise mundial, sem ter crescimento econômico que suportasse a decisão. Mas não caiu por isso. Caiu porque transgrediu vários artigos da Constituição, seguindo, com efeito, a cartilha de Hugo Chávez.

Quase todos os deputados apoiaram a nomeação de Micheletti, que era o presidente do Congresso, para a presidência horas depois de Zelaya ser expulso do país. Dos 128 congressistas (62 do PL), só 15 se negaram a apoiar o golpe.
Certo! Que a Constituição foi seguida, isso já sabemos. E quem lê a Carta pode constatá-lo. Sigamos: quer dizer que temos um “golpe” apoiado pelo Congresso e pela Justiça? À diferença do modelo chavista, eles não foram nem “reformados”. Na Venezuela. o tiranete “criou” Legislativo e Judiciário novos só para servi-lo. Na semana retrasada, o Beiçola destituiu uma juíza porque ela tomou uma decisão que o desagradou. Essa é a democracia bolivariana, que Zelaya estava tentando construir em Honduras.

Micheletti é um falcão da política hondurenha e aprimorou por 30 anos a arte de costurar alianças, além de nomear muitos de seus simpatizantes para o Judiciário e outras instituições do país quando estava à frente do Congresso.
O objetivo do parágrafo é tentar demonstrar que houve uma grande conspiração da Dona Zelite para destituir Zelaya. Besteira! Ele caiu porque tentou fraudar a Constituição. Faço esse comentário porque quero que vocês leiam uma pequena peça que traz o sumo das distorções com que se vão construindo consensos até mundiais. Zelaya era um mau governante. Nas suas mãos, Honduras piorou em vez de melhor. Não se aproveitou minimamente do ciclo de crescimento mundial que estava em curso. É claro que não poderia ser deposto por isso. A deposição não decorreu da sua incompetência ou generosidade, mas dos crimes que cometeu.

Ah, sim, o Artigo 2º dos Princípios da agência AFP é este:
“A Agence France-Presse não pode, em nenhuma hipótese, se deixar influenciar por qualquer questão que possa comprometer a exatidão ou a objetividade da informação; ela não deverá, em circunstância alguma, ter sua produção controlada, de fato e de direito, por questões ideológicas, políticas ou econômicas”.

Avaliem se ela se deixou “influenciar” ou não.

Quanto a golpes, observo que Honduras é hoje um exemplo de resistência à sanha de ditadores que resolveram trocar os tanques pelas urnas. Não! Não se pode aceitar um golpe com tanques. Não! Não se pode aceitar um golpe com urnas.

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Por Reinaldo Azevedo

Na capital de Honduras, população não se comove com golpe e rejeita volta de deposto

domingo, 26 de julho de 2009 | 7:29

No Estadão:
Descaracterizar o que ocorreu no dia 28 da definição de golpe de Estado tem sido um dos mais perceptíveis esforços do governo de facto de Honduras, liderado por Roberto Micheletti. Para uma imensa parcela dos quase 8 milhões de hondurenhos, no entanto, o rótulo do movimento que depôs o presidente Manuel Zelaya pouco importa.

“Se o preço da nossa liberdade é sofrer com o isolamento internacional e a escassez de dinheiro pela suspensão da ajuda externa, estamos dispostos a pagar”, disse ao Estado o estudante de Engenharia Carlos Vargas, durante uma grande manifestação realizada na quarta-feira por partidários de Micheletti na capital do país, Tegucigalpa. “Se quiserem chamar de golpe, não será problema, desde que mantenham Zelaya longe da Casa de Governo.”

Semanas antes de ser posto num avião por militares e expulso de Honduras, Zelaya tinha cerca de 30% de aprovação popular - grande parte dela originária das classes C, D e E, beneficiárias de alguns programas assistencialistas e de aumentos do salário mínimo acima da inflação.

Mas a aproximação de seu governo com o do venezuelano Hugo Chávez e o não cumprimento das promessas de melhorar os indicadores sociais do país custaram a ele uma forte rejeição. Honduras é o segundo país mais pobre da América Central. Só está na frente do Haiti numa região que nunca foi notória pela prosperidade.

A população abaixo no nível de pobreza é superior a 50%, e não melhorou desde que Zelaya chegou ao poder, após ser eleito em 2005 por margem estreita - venceu Porfirio Lobo por 49,9% a 46,1% -, apesar do quadro econômico internacional relativamente favorável.

O índice de desemprego e subemprego é superior a 30%. Durante o mandato de Zelaya, o país não conseguiu ampliar a capacidade de exportação de seus principais produtos - café, banana e têxteis -, que seguem nos mesmos níveis de 2006. A expectativa de vida (69,4 anos) e a mortalidade infantil (24,03 por mil nascimentos) estão entre as piores marcas do continente. Para complicar, Zelaya descuidou-se da questão da segurança pública, enquanto o índice de criminalidade em Tegucigalpa não parava de crescer.

A tentativa de realizar uma consulta popular - ainda que não vinculante - sobre uma possível reforma constitucional como forma de abrir caminho para um novo mandato foi a gota d?água para a maioria da população. Micheletti sustenta que a simples proposta de Zelaya para mudar a Carta já o destituía automaticamente do poder, de acordo com o que diz a Constituição. E justifica o fato de os militares terem expulsado o presidente do país com o argumento de que os soldados agiram por ordem do Congresso e do Supremo Tribunal. Como a Constituição de Honduras - que não contempla o instrumento do impeachment - é vaga sob muitos pontos, essa interpretação é possível, apesar de fortemente rejeitada por praticamente todos os países do mundo, que não reconhecem o governo de facto.

Embora reconheça implicitamente o golpe e tenha se disposto a mediar a crise, o cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga, que chegou a ser cotado para ser papa, atribuiu as ações de Zelaya à responsabilidade por sua deposição. “Sou o primeiro a condenar um golpe de Estado, mas nesse momento não é factível a volta de Zelaya ao poder. O melhor para o país seria que ele renunciasse e deixasse de dividir a população”, disse, em entrevista a jornais hondurenhos.

“Zelaya deixou atrás de si uma imensa rejeição, seja pelo fraco desempenho de sua administração, seja pela aliança com Chávez”, disse Andrés Navajo, professor de ciências políticas da Universidade Nacional. “Ainda que se alcance algum acordo para que ele retorne ao poder, encontraria um país ingovernável, com um Congresso e um Judiciário hostis e uma população revoltada com suas ações.”

O retorno simbólico de Zelaya a Honduras, na sexta-feira - quando, vindo da Nicarágua, atravessou a fronteira por alguns metros e passou cerca de meia hora em território hondurenho -, não deve ter ajudado a melhorar sua imagem entre a população. Ao contrário, comentaristas de TVs favoráveis ao governo consideraram sua ação uma bravata ao mesmo tempo covarde e provocadora, pela qual expôs o país ao risco de um confronto sangrento.

“Houve um golpe aqui em Honduras, sim”, diz uma dirigente local do Partido Liberal, de Micheletti, Alda Mejía. “Que a história registre isso: em 28 de julho, golpeamos a corrupção, golpeamos um atentado contra nossa democracia e golpeamos a ingerência estrangeira.”

O país se prepara para realizar eleições presidenciais em 29 de novembro e os dois principais candidatos têm-se mantido discretos em suas declarações sobre o golpe. O vencedor deve tomar posse em janeiro. Aqui

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