2009-06-01

PRESENÇA MACIÇA DE PETISTAS NAS REDAÇÕES

PETRALHAS VENDIDOS, SERVOS VOLUNTÁRIOS E O CASO DO NHENHENHÉM
Acompanho política regularmente desde os 14 anos, quando comecei, como se dizia antigamente, a “militar”. Durante o regime militar, conheci o debate feito nas sombras e vielas e o escrachado, já na “Ditadura Esculhambada” de João Figueiredo. O resto vocês sabem: governos Sarney, Collor, Itamar, FHC e, agora, Lula. De Figueiredo a FHC, havia um certo espírito que nos impunha “ousar”. A grande imprensa era a vanguarda. Desconfiava-se de governos, apontava-se a sua cafonice ou falta de horizontes, gozava-se da burocracia, desconfiava-se de amanhãs sorridentes prometidos pelo estado. Claro: as redações estavam, como estão, cheias de esquerdistas (eram um pouco mais lidos) — depois petistas. De todo modo, havia um ambiente saudável de permanente questionamento. O governo Lula mudou isso.
Com as exceções de sempre e de praxe, vê-se a dita “grande imprensa” acuada pelo oficialismo. Os antes vanguardistas da crítica se converteram em justificadores do poder. Mas não só isso: passaram também à condição de patrulheiros. Os patrulhados, por sua vez, sentem a necessidade permanente de se justificar. Os petistas cobram que os não-alinhados provem permanentemente o seu não-alinhamento. Trata-se obviamente de um absurdo, segundo o qual um dos lados exige que os outros demonstrem não ter… lado! Como é que o governo Lula alcançou essa condição?
Há a presença maciça de petistas nas redações, como já disse. Mas isso não é tudo. Importantíssimo tem sido o “Paradigma Franklinstein” de relação com o que “eles” chamam “mídia”. O PT, embora esteja sempre no ataque, gosta de falar como se fosse vítima. Franklin Martins conferiu certa cientificidade a esse preconceito. Não se limitou a acusar a grande imprensa de estar a serviço dos adversários do petismo. Profissional, montou uma máquina gigantesca de propaganda, capturando, inclusive, parte das demonizadas empresas de comunicação — que, por interesse, é claro, passaram à condição de servis propagadoras das verdades oficiais.
Esse coquetel que soma adesão ideológica, servidão voluntária e concessão à patrulha contribui para o debate político um tanto anestesiado. E as oposições também não têm ajudado muito — alguns de seus líderes reclamam que um bom caminho para levar pau na imprensa é fazer oposição a Lula. Em parte, a reclamação faz mesmo sentido.



O dia do nhenhenhém

Permito-me aqui uma digressão com um pouco de memória pessoal. A palavra “nhenhenhém”, que viria a render tanto debate-boca político, nasceu na Folha. Participei de seu nascimento. A repórter Gabriela Wolthers foi cobrir um evento com FHC — pode ter sido a primeira coletiva do presidente, a conferir. Era fevereiro de 1995, acho. Naquele tempo, não sei hoje como se faz nos jornais, os repórteres chegavam e faziam um breve relato aos editores do que tinham presenciado e/ou apurado, e chegávamos juntos à, digamos, “pegada” da matéria. A conversa era importante porque muita reportagem morria antes de nascer. “É só isso? Então não tem nada”. Era um bom procedimento porque ajudava a preservar as árvores, entendem
Nesse caso, Gabriela me disse que FHC havia falado em “hanhanhan”, “nhanhanham”, “humhumhum” ou onomatopéia (?) parecida para se referir a críticas que ele considerava infundadas. Depois de conversar um pouco, chegamos à conclusão de que a coisa mais próxima que a língua oferecia era mesmo “nhenhenhém”. E até me penitencio: grafamos a palavra com erro. Saiu “nhém-nhém-nhém”, com hífens. O “Controle de Erros” nos mandou a edição do dia seguinte tingida de vermelho. Nascia ali o “nhenhenhém” como expressão do debate político.

Por que isso? Porque nos pareceu, à repórter e a mim, que não ficava bem a um intelectual, que passara boa parte do tempo escrevendo sobre política, reduzir o confronto com adversários àquele quase grunhido. Sim, era e sou admirador de FHC. A pegada da reportagem foi crítica, aquilo foi parar no lead e no título e virou quase uma febre. Jornalistas não estavam interessados em “colaborar”. Pobre FHC!!! O seu, ou nosso, “nhenhenhém” chegou à academia. Ensaios se fizeram a respeito.
Não se dava trégua, e estava correto, ao “intelectual”. O episódio do “nhenhenhém”, reitero, é só um emblema de uma certa — e acertada — intransigência com princípios. Hoje, o lulismo em tempos do jornalismo Franklintein, hostiliza abertamente a imprensa, tomando-a como uma forma de sabotagem. E ela se intimida. O acuamento se dá em várias frentes: manipulando a verba oficial de propaganda para conquistar a simpatia do jornalismo regional (ver post de ontem sobre reportagem da Folha); hostilizando, se preciso, os críticos em palanque, montando uma rede de blogueiros-bandidos, a soldo, para fazer o serviço sujo na Internet e, claro, alimentando os áulicos com “informações exclusivas” de EXCLUSIVO interesse do Planalto. A apuração de bastidores, não raro, tornou-se coisa de alcoviteiros, de gente, se me permitem uma piada, com “acesso ao círculo íntimo”.



Efeitos

O efeito tem sido devastador para o jornalismo e para a inteligência. A cada vez que leio ou ouço/vejo notícias sobre o PAC, por exemplo, sou ameaçado pela preguiça. A razão é simples: não existe PAC nenhum. A prova da nossa miséria é que os números mais precisos a respeito foram fornecidos pelo site Contas Abertas, uma entidade da sociedade civil. Sim, ainda bem que ele existe. Mas respondam depressa: de quem era — e é — tal tarefa? Não houve aí uma inversão? O corriqueiro não teria sido a imprensa fornecer dados ao Contas Abertas em vez do contrário?
Outro exemplo de anestesia? Lula culpou a classe média pela baixa qualidade da escola pública. Em vez de brigar por melhorias, disse ele, ela procurou a escola particular. Imaginem o que teria apanhado qualquer outro em seu lugar. Como informei aqui, os três filhos de Lula estudaram em instituições privadas. Ora, segundo os critérios do Apedeuta, é justo cobrar de Dilma que trate o seu câncer num hospital estatal para incentivar, então, a melhora da saúde pública, não é mesmo? Não obstante, assim como a classe média foi procurar o ensino particular, Dilma preferiu o hospital Sírio-Libanês, seguramente um dos cinco melhores do país. Até se chegou a noticiar que seu plano de saúde lhe forneceu avião. Qual é o plano com avião? Também quero.

Estamos sob a égide de uma nova forma de censura. Petistas, vendidos e áulicos fazem o seu papel. À sua maneira, têm um comportamento menos abjeto do que os que se dedicam, por covardia, à servidão voluntária.

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