2009-06-10


Mais um discurso indecente

quarta-feira, 10 de junho de 2009 | 5:58

Não tem jeito. Ele não se contém e não consegue disfarçar o que realmente lhe vai pela alma. Lula ontem estrelou uma cerimônia de liberação de R$ 4,7 bilhões para obras de drenagem em vários municípios brasileiros. Lembrou que estamos “entrando em um momento nervoso da vida eleitoral” e tal, mas que ele não discrimina ninguém… Observou que já governou por seis anos e meio, que só falta um e meio e mandou ver: “Já estou com saudades”. Ora, quem levanta essa bola está esperando o quê? Que alguém corte. Um prefeito presente cortou, gritando: “Novo mandato!”. A alma de Apedeutakoba sorriu.

O presidente do PAC de papel — 70% ainda são pura ficção, e o que está em curso depende das estatais; o Tesouro desembolsou apenas 3,5% do previsto — conclamou os perfeitos à vigilância constante para que as obras aconteçam, já que dinheiro não falta: “Não estamos preocupados com o superávit primário”. É falso, e mentir não é virtuoso. Se fosse verdadeiro, seria ruim.

E voltou a tecer considerações sobre a Teoria da Bravata. Criticou governos anteriores que permitiram construções em áreas de risco, mas fez uma espécie de mea-culpa. Leiam isto:

“E aí não tem santo. Quando somos oposição, incentivamos invasão. Mas, quando viramos governo, queremos responsabilizar alguém pelo problema. Todo mundo aqui já fez uma passeatinha ou uma marcha. Mas não tem ninguém com coragem de avisar para aquele povo que o rio vai encher e vai deixar sem casa. Se os governantes da época, quando surgiu o primeiro barraco, tivessem tirado de lá… Mas só que, depois, viram mil casas e vira um problema social, e ninguém mais consegue tirar. E se tiver título de eleitor, aí ninguém mexe”.

Não é realmente indecoroso? Espantosamente indecente? Falo sobre São Paulo, que conheço bem. Adivinhem que partido lidera, nesta cidade e neste estado, as invasões e ocupações de áreas ilegais. Adivinhem a que partido pertencem os parlamentares que dão suporte a esses movimentos. Adivinhem a que partido pertencem algumas lideranças que não aceitam nem mesmo que se tirem os “moradores de rua” de logradouros públicos. E Lula diria: “Ora, está certo! É assim mesmo. Aí em são Paulo, nós somos oposição. E a gente, quando está na oposição, incentiva invasão”.

Pois é… Mas esse “a gente” vale é para seu partido e outros da extrema esquerda. Alguém viu o PSDB ou DEM incentivando invasões contra o governo Lula ou contra gestões petistas nas cidades? Não! Lula fala do que conhece bem. Essa é a prática do PT. E notem que ele não está censurando, não. Isso vale por um anúncio do que fará o seu partido se for derrotado em 2010.

Um dos segredos da popularidade de Lula não está em dizer essas batatadas, não. Está no fato de dizê-lo sem que ninguém o censure. Qualquer outro governante que fizesse o mesmo iria apanhar da imprensa até enjoar. A Lula, concedem-se todas as licenças. No mesmo discurso, ele reclamou também, calculem, da “fiscalização”, que retarda as obras. O chefe de governo e de estado no Brasil reclama das exigências que o estado e o governo fazem.

O Apedeuta é, a um só tempo, um governo e uma organização não-governamental. Assim, isenta-se de tudo o que não dá certo e fatura tudo o que dá. “Ah, esperteza dele”, dirá o petralha. Claro! Lula é mesmo um espertalhão.


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