2009-06-26

LULA DIZ QUE NÃO DIZ

sexta-feira, 26 de junho de 2009 17:12
Reinaldo Azevedo

“Se a Dilma for eleita, eu vou torcer para ela fazer o melhor que alguém possa fazer neste país para ela ser candidata à reeleição. Ora, se for um adversário que ganhe, aí sim, pode estar previsto: ‘Bom, em 2014 é possível voltar’”.

No dia em que Schopenhauer acorda invocado, não tem pra ninguém. Batam a mão aí no Google, e vocês encontrarão dezenas de falas de Lula afirmando que, a partir de 2011, ele só vai querer assar seus coelhos — já disse aqui certa feita que ele gosta mesmo é de pato.

Mais: quantas foram as suas censuras a FHC porque, diz, um ex-presidente não pode ficar se metendo na vida política do país? E, claro, sempre observei aqui que “não pode” se ele se opõe a Lula, né? Se for a favor, como Sarney, não só pode como deve.

Alguém aí imagina um Lula calado enquanto um eventual presidente da atual oposição governa? Não só os petistas estarão infernizando o governantes, como Schop comparecerá ao debate com suas digressões sobre a política, a natureza humana, o futuro. E, claro, chamará os sucessos de herança do seu governo, e os insucessos, de incompetência do seu sucessor.

Ah, sim: vejamos o que disse o valente no dia 23 de março, há três meses:

“Eu não acho que um presidente da República tenha que imediatamente voltar para a política. Eu acho que ele tem que ficar fora, tem que fazer uma reflexão. Eu não tenho vontade de ser deputado, não tenho vontade de ser senador. Eu não estou pensando em voltar para a política não. (…) Eu acho que agora, ao sair, eu tenho que ensinar como é que se comporta um ex-presidente da República: nunca dar palpite sobre o futuro presidente. Nós temos que entender que, se o povo elegeu, o povo tem que deixar ele trabalhar (…). Tem presidente que fala demais”
E o que foi Tio Rei escreveu a respeito? Isto:

“(…) [Lula] pretende “ensinar” até como se comporta um ex… É claro que ele não está se referindo a seu aliado José Sarney, por exemplo. Se há “ex” poderoso, convenham, é o senador maranhense que foi eleito pelo Amapá - estado criado, diga-se, só para lhe garantir uma vaga no Senado. E, sabemos, Lula e boa parte do PT passaram uma rasteira em Tião Viana e ajudaram o ex-presidente da República a se eleger presidente da Casa. Com ele, vieram Renan Calheiros e os usos e costumes desses moralistas. Lula não gosta é de ex-presidente que critique o governo.
Alguém acredita no que ele diz? Não custa lembrar - e sei que muita gente, especialmente no jornalismo, já esqueceu - que o Teórico da Marolinha foi também o Teórico da Bravata. Foi ele quem deu especial sentido político à palavra. Indagado nos primeiros meses de governo sobre por que dava continuidade à política econômica, mandou ver: “Quando a gente está na oposição, faz muita bravata”. Ora, quem bravateia na oposição não tem nenhuma razão para não bravatear também na situação.

Não adianta Lula querer me agradar (risos), que não acredito nele. Continuará na política, sim. Duvido que deixe de ser o presidente de honra do PT. Tanto continua que mobilizou, proporcionalmente, a maior máquina eleitoral da história das eleições para fazer Luiz Marinho prefeito de São Bernardo, como se a cidade fosse a sua São Borja. Dali ele pretende emitir sentenças políticas. MAIS AINDA, E ELE SABE MUITO BEM DO QUE FALO: TÃO LOGO DEIXE A PRESIDÊNCIA, SERÁ UMA ESPÉCIE DE GAROTO-PROPAGANDA DE ONGS MUNDO AFORA. Só não vai se candidatar a papa porque há certa desconfiança sobre o seu apuro teológico.

Continuará na política e já é pré-candidato à eleição de 2014 - salvo mudança de calendário. Flertou arreganhadamente com o terceiro mandato e só foi dissuadido porque seus assessores diretos previram uma espécie de curto-circuito no mundo político. Em vez do líder moderado da América Latina, isso evidenciaria certa tentação chavista. Então não vem que não tem: continuará na política, sim, e será Lula até o fim dos seus dias. E, depois do fim, virará objeto de culto de um PT que será, sem dúvida, bem menor. Observem que nada cresce sob a sua frondosa sombra. Esse Lula inaugural - que “ensina” a ser presidente e até a ser ex-presidente - pretende não ter história. Do ponto de vista político, é como se ele tivesse sido fecundado pelo vento - como se imaginava, em parte da Idade Média, que acontecesse com os urubus. Não tendo, supostamente, um passado que o gerou, também se mostra incapaz de fecundar o futuro. Não tem herdeiros políticos. Por isso continuará a esmagar o cérebro dos petistas até o último dia.
Pensando num futuro mais distante, convenham, não deixa de ser uma boa notícia.

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