2009-06-24

LULA DEFENDE FRAUDE E VIOLÊNCIA NO IRÃ COMO LEGÍTIMAS, FOI ISSO MESMO O QUE EU ENTENDI?


Reinaldo Azevedo

quarta-feira, 24 de junho de 2009 5:45


(texto atualizado às 5h47)


Muita gente se pergunta por quê. Outros tantos reagem com uma espécie de indignação paralisante e mal crêem nas palavras de Lula sobre o Irã. Há quem infira que só pode haver algum “negócio secreto” — já que tem petista no meio — entre os governos brasileiro e iraniano… Em suma: por que o nosso Schopenhauer é tão tenaz na defesa da legitimidade da eleição de Ahmadinejad se os próprios aiatolás do país admitem fraude? E eles a admitem num montante possível, dizem, de 3 milhões de votos. Uma enormidade!


O argumento aparentemente verossímil de Lula é primário. Ele poderia ser sintetizado assim: fraude existe quando a diferença não é tão grande. Saddam Hussein ganhava todos os pleitos com mais de 90%. Na Chechênia conflagrada e esmagada, Putin venceu uma disputa com… 99%. Ou seja: as tiranias e as ditaduras — e o Irã é uma ditadura onde há eleições —, quando fraudam as disputas, o fazem justamente de modo “convincente”. O argumento do Schopenhauer de Garanhuns concorre contra a sua própria tese. Já estamos acostumados ao padrão de argumentação de nosso maior pensador.


Sabe-se lá que tipo de negociação bilateral, eventualmente desconhecida, pode haver entre Brasil e Irã. Compreendo que muita gente suspeite de coisas. Amorim de um lado, aiatolás do outro, a chance de haver dejetos morais no meio é gigantesca. Acredito, no entanto, que não haja nada de especial. É só mais uma manifestação da contínua estupidez da política externa brasileira, alinhada com ditadores, antiimperialistas e vigaristas terceiro-mundistas e antiaamericanos desde o primeiro dia, desde a primeira hora.


Os gigantes do mundo emergente, Rússia e China, já reconheceram a reeleição de Ahmadinejad e o cumprimentaram de pronto. Estão pouco se lixando para o povo do Irã, apóie ele um candidato ou outro. A questão relevante, para eles, são os Estados Unidos: a Rússia porque, afinal, é a Rússia, a herdeira do império soviético e do grande conflito do século passado; a China porque se coloca com a candidata a ser a grande rival dos americanos neste século. Assim, se o Irã tem nos EUA o grande satã e se Obama não pode dar de ombros para a violência no país — ELE BEM QUE GOSTARIA; PREFERE FICAR MATANDO MOSCAS PARA AS CÂMERAS —, Rússia e China se apressam em caminhar na contramão.


E o Brasil quer estar nesse meio aí. Celso Amorim, o Colosso de Rhodes da diplomacia, atribuiu a suposta pouca expressão do Brasil no mundo — é conversa mole, claro; estou apenas reproduzindo o que se diz por lá — ao também suposto (porque a afirmação é mentirosa) alinhamento automático do Brasil com os EUA nas questões externas. Assim, o país só teria ganhado voz e importância no mundo quando passou a ser “independente”. E tal independência se expressaria deste modo: apoiando facínoras mundo afora em nome da autodeterminação dos povos.


E, como se nota, o governo nem mesmo opta por um silêncio prudente. Ao contrário: é falastrão. Numa entrevista concedida ontem a um programa de TV, Amorim ainda tentou arrumar um pouco a fala de Lula, sustentando que ele não teria exatamente defendido a legitimidade da eleição etc e tal. O próprio Schopenhauer, hoje, se encarregou de restabelecer o conteúdo original do que dissera. Acha a eleição legítima, sim. E a oposição é a responsável pelos conflitos. Sua posição reflete as escolhas que têm sido feitas pelo Itamaraty. Sem contar que Lula tem tal horror a oposição, que é contra até aquela do Irã…


ObamaSe já há uma disposição do mundo de afrontar os EUA quando este país é muito claro em seus pontos de vista, imaginem, então, quando eles têm a marca da ambigüidade obamista. Ninguém espera que Obama ameace Teerã com bombas, Mas suas declarações a respeito do que acontece naquele país beiram o patético.


De tal maneira se alimentou a picaretagem intelectual de que os EUA optariam sempre pelo diálogo — em oposição a Jorjibúxi, o demônio aposentado —, que agora se toma cuidado até mesmo com o repúdio à ação de uma milícia que atira a esmo contra a população na rua.
Cheguei a ser chamado de “cínico” quando, no dia da posse de Obama, escrevi aqui algo como: “Nossa! O mundo, sem Bush, ficou tão mais seguro. Agora, sim!”. Junto com Arnaldo Jabor, saudei a entrada da civilizãção ocidental no século21, uma era realmente nova!!! Ai, ai…


O mundo com Jorjibúxi era mesmo uma porcaria. Nada como esse novo humanismo que nasce sob os auspícios de Obama, Lula e Hu Jintao… Nunca mais se ouvirá falar daquela tara neocon de “impor democracia” a povos estrangeiros. Na nova era, estaremos todos felizes com as tiranias autóctones. Todo governo tem o direito de esmagar o seu próprio povo e de mandar a democracia às favas sem que outros o repreendam por isso.

Bando de vigaristas morais!


AcrescentoNa entrevista coletiva de ontem, indagado sobre sua moderação com o Irã, Obama exercitou o que chamo de “Paradigma Daladier-Chamberlain Para Lidar com Facínoras”, a saber: um confronto mais duro poderia ser pior ao próprio povo do Irã etc e tal. Vocês conhecem: é aquele raciocínio que prova por B mais B (sim, ele não tem “A”) que é preferível ser compreensivo com ditadores… E disse uma coisa realmente formidável: observou que, apesar de sua moderação, o Irã acusa o Departamento de Estado dos EUA de interferência indevida no país.


Trata-se de uma avaliação primitiva, quase colegial. Fosse um confronto puramente psicológico, Obama teria acabado de incorporar a lógica do adversário, vendo-se a si mesmo como o outro o vê; deixando-se seqüestrar pela opinião do inimigo. Como este jogo é pra valer, ficou claro que está mais preocupado com o que possam pensar dos EUA do que com o que os EUA efetivamente fazem e pensam de si mesmos.


Ora, convenham: os EUA sempre serão acusados de tudo e de qualquer coisa. É mesmo uma pena que os problemas do mundo não se resolvam na base da marquetagem. Bastaria dar o “pá” na mosca e sorrir satisfeito com os aplausos por tamanha ousadia.

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