2009-06-02

EXTERMÍNIO NAZISTA E COMUNSITA

A destruição física no Comunismo e no Nazismo PDF Imprimir E-mail
Escrito por Carlos I.S. Azambuja
Dom, 16 de Setembro de 2007 21:00

Heinrich Himmler, comandante da Schutzstaffel, ou SS - a grande organização paramilitar pertencente ao partido nazista alemão – pronunciou, durante a II Guerra Mundial, numerosos discursos diante dos oficiais superiores e dos chefes de serviço da SS. O tom foi sempre o da exortação moral. Em um desses discursos, em 9 de junho de 1942, ele disse: “Há milênios é o dever da raça loura dominar a Terra e sempre lhe propiciar felicidade e civilização (...) No interior da sociedade, restaurar-se-á, assim, a ordem natural que quer que dominem os melhores, os mais duros, os mais puros, os mais cavalheirescos, cujos exemplos vivos são fornecidos pela elite da SS”. Quando Himmler pronunciou esse discurso, os incuráveis, os deficientes, os alienados da ‘raça’ alemã já haviam sido eutanasiados clandestinamente nos hospitais e nos asilos.

Antes da comparação entre as experiências nazista e comunista, seis palavras devem ser recordadas: Auschwitz, Belzec, Chelmno, Majdanek, Sobibor e Treblinka. Foram os seis centros nazistas de extermínio industrial dos judeus. A seqüência era a de sempre: transporte, seleção na descida do trem, tatuagem de um número, câmara de gás ou fossa comum imediata para as mulheres, crianças e os inaptos para o trabalho. Não se pode pronunciar essas seis palavras sem que voltem à memória os documentos, as testemunhas, os estudos, as meditações, os poemas, os cantos, as preces que buscaram comunicar o incomunicável.

A destruição dos judeus europeus, segundo Raul Hillberg (*) deu-se em cinco etapas: a expropriação; a concentração; as operações móveis de assassinato; a deportação; os centros de extermínio. Segundo esse mesmo plano, a destruição comunista utilizou os quatro primeiros meios, mas acrescentou duas outras que o nazismo não teve necessidade: a execução judiciária e a fome.



A Expropriação – foi a primeira medida do poder comunista. Considera que o mal social tem suas raízes na propriedade privada. Como é preciso arrancar do povo a idéia de propriedade e submetê-lo completamente ao novo poder, a expropriação de casas, contas bancárias, terra, gado, é uma conseqüência lógica. Aos poucos, as pessoas foram ficando apenas com suas roupas e móveis. O direito, estando ligado à propriedade privada, desaparece subitamente, restando apenas as decisões ‘jurídicas’ do partido. Já na Alemanha nazista, a expropriação e a proscrição só afetaram inicialmente os judeus. Para os ‘arianos’, o direito e a propriedade subsistiram, embora destinados a desaparecer também na lógica do sistema.

A Concentração – A filtragem e o registro não eram feitos no regime comunista da mesma forma que no regime nazista. O nazismo encarava os judeus como pessoas físicas, focos individuais de infecção. Era preciso, então, encontrá-los, como se faz numa operação de desratização ou de combate a insetos, e o regime destinou a essa tarefa dinheiro, pessoal e meticulosidade. O comunismo, por seu lado, se encarregava de uma tarefa mais ampla, porque mais vaga e com contornos pouco definidos. Ele devia destruir ‘o inimigo do socialismo’, ‘o inimigo do povo’. Era necessário, em primeiro lugar, deixar sem causar dano o inimigo previamente designado, o inimigo institucional: o rico, o nobre, o burguês, o capitalista, o camponês rico. Depois, era a vez dos que podiam abrigar sentimentos hostis, ‘fora da linha’, e até mesmo os indiferentes. Eles eram localizados no proletariado, no campesinato médio e pobre, na intelligentzia progressista e também no partido, no Exército e na Polícia. Esses inimigos escondidos não têm características visíveis, nem marcas físicas como a circuncisão, e não pertencem a uma comunidade bem delimitada. É preciso reconhecê-los, fazê-los confessar seus pensamentos escondidos, seus desígnios de sabotadores e eliminá-los. É um trabalho contínuo. É essa a razão de os órgãos de repressão dos regimes comunistas serem mais numerosos que os órgãos encarregados simplesmente de levar os judeus aos campos de extermínio. Alguns milhares de policiais bastavam para a Gestapo, contra cerca de 500 mil da KGB. Só a Stasi, na RDA, passou a empregar bem mais gente que a Gestapo em toda a Alemanha. Segundo Raul Hillberg (1), bastaram dois anos (1941-1942) para que a ‘solução final’ fosse executada para cerca de três quintos do seu total. Para os órgãos soviéticos, a tarefa nunca foi concluída. De novembro de 1917 até o último dia – 25 de dezembro de 1991 - eles tiveram que fazer triagem, recensear, manter dossiês, filtrar e refiltrar toda a população.

As operações móveis de assassinato – Cerca de um quarto dos judeus assassinados, talvez até mais, o foram por unidades especiais: os Einsatzgruppen e os Kommandos, que avançavam atrás das tropas regulares e faziam as execuções. Unidades da Wehrmacht também fizeram, ocasionalmente, a mesma coisa. Essas ‘operações móveis de assassinato’ foram praticadas abundantemente pelos regimes comunistas. As chacinas a céu aberto acompanharam as reconquistas pelo Exército Vermelho, da Ucrânia, do Cáucaso, da Sibéria e da Ásia Central. Além disso, elas foram maciças e sistemáticas durante a guerra camponesa, iniciada em 1910 e que durou até 1921. Contra os camponeses expropriados, submetidos à fome, e contra os cossacos – quase exterminados como povo -, o Exército Vermelho utilizou diversos métodos, desde tanques a gases asfixiantes. Os fuzilamentos a céu aberto recomeçaram durante a coletivização e, no transcurso do grande expurgo, caminhões a gás foram utilizados. Na China, as execuções coletivas e públicas se multiplicaram várias vezes nos dois primeiros anos após a tomada do poder, na época do Grande Salto para Frente e depois na Revolução Cultural. Elas aconteceram também na Coréia, no Vietnã e na Etiópia. Foi no Camboja, porém, que se tornaram mais maciças. Na falta de um equipamento moderno, as execuções eram realizadas com faca, martelo, machado ou porrete.

A deportação – A deportação para os campos de trabalho foi inventada e sistematizada pelo regime soviético. O nazismo apenas a copiou; a palavra Lager é comum ao russo e ao alemão. Os primeiros campos foram abertos na Rússia em junho de 1918, cerca de seis meses após a tomada do poder pelos bolcheviques. A deportação soviética foi um fenômeno mais amplo e mais complexo do que a deportação nazista. Na Alemanha havia diferenças informais entre os campos com mortalidade relativamente pequena (Dachau) e aqueles com mortalidade tão alta (Dora) que se aproximava do extermínio. Na URSS a gama é mais extensa e as categorias nitidamente separadas. Três podem ser distinguidas: a primeira, a deportação de povos inteiros – tártaros, chechenos, alemães do Volga – ou categorias ‘sociais’ inteiras: os 10 milhões de kulaks. A segunda categoria foi a deportação para campos de trabalho. O Gulag tornou-se uma vasta construção administrativa que encontrou a sua forma clássica nos anos 30. Ela foi capaz de gerar uma notável parcela – estima-se em 11% - da força de trabalho do país. Os detalhes concretos são os mesmos, tanto no nazismo como no comunismo, tanto em Kolyma como em Auschwitz: o roubo generalizado, o cada um por si, o esgotamento físico, a lenta ou muito rápida degradação moral, o mesmo acampamento, as mesmas trapaças para fugir do trabalho, o mesmo sono, os mesmos sonhos. Para se designar o detento que chegou ao fim de suas resistências, já não se defende mais e vai morrer, no campo nazista se dizia muçulmano, e no campo soviético, dokhodiaga. Algumas variantes: em Kolyma os mortos não eram incinerados num forno crematório mas, no inverno, eram empilhados, em grupos, com uma etiqueta presa no dedão do pé, esperando que o degelo permitisse cavar as fossas. Nos Gulags, a mortalidade chegava a 30% ou 40% ao ano, o que, levando em conta a duração das penas e a longevidade do regime soviético, chega às raias do extermínio, embora esse extermínio não fosse imediato, no estilo de Treblinka. A terceira categoria: em torno do Gulag estendia-se uma zona de trabalho forçado e de residência vigiada. A mão-de-obra era empregada nos grandes canteiros de obras, barragens, canais e arsenais militares secretos. Os contornos eram indefinidos, como tudo o mais nos regimes comunistas. É por isso que o dissidente soviético Vladimir Bukovski, à pergunta ‘Quantos prisioneiros há na URSS?’, respondeu em tom de gracejo: ‘270 milhões’.

A execução judiciária e a fome foram dois procedimentos de execução que o nazismo não teve necessidade de utilizar.

A execução judiciária – O nazismo não a praticou contra os judeus, pois, em sua opinião, eles não pertenciam à espécie humana e não mereciam, portanto, nenhuma ‘justiça’. Já, no comunismo, a execução (fuzilamento, tiro na nuca, enforcamento) deveria, em princípio, proceder de um exame jurídico, a fim de que o ‘povo’ pudesse reconhecer e condenar o inimigo declarado ou oculto. As execuções sumárias dos primeiros tempos foram progressivamente assumindo uma forma cada vez mais judiciária à medida que o aparelho – a prokuratura – se aperfeiçoava. Na época do chamado ‘Grande Terror’, que teve início em 1934, a confissão era buscada e obtida por diversos meios, sendo a tortura o mais simples. Nessa época, as pessoas esperavam ser presas porque viam desaparecer silenciosamente seus vizinhos e, à noite, tinham sob a cama a trouxa de roupa de preso. A maioria dos países comunistas, democracias populares da Europa e sobretudo da Ásia, atravessou períodos desse tipo. Há razões para imaginar que Hitler se inspirou na idéia do ‘Grande Terror’. A ‘Noite dos Longos Punhais’ – 1934 -, uma depuração relâmpago do partido nazista fez, talvez, 800 vítimas. Stalin multiplicou essa cifra por mais de mil.

A fome – A fome, diferentemente da penúria que foi constante, é um espectro reiterado que acompanha a história dos regimes comunistas. Ela está presente na Rússia, na China, na Etiópia, na Coréia. A fome é, na maior parte do tempo, uma conseqüência da política comunista, pois é da essência dessa política estender seu controle à totalidade de seus súditos. Não é tolerável deixar os camponeses se organizarem espontaneamente à margem do Poder. Ao expropriá-los, fazendo-os entrar nos quadros artificiais do Kolkoz, provoca-se inevitavelmente uma crise de subsistência. Não se pode, no entanto, dizer que o Poder desejava a fome como tal, mas foi o preço que ele aceitou pagar para atingir seus objetivos políticos e ideológicos. No Cazaquistão, a população foi reduzida à metade. Entretanto, houve casos em que a fome foi desejada e organizada com um fim preciso de extermínio. Foi o que aconteceu na Ucrânia durante os anos 1932-1933. O objetivo foi o de terminar não com uma resistência qualquer do campesinato, porque a coletivização já a quebrara, mas com a existência nacional do povo ucraniano. Falou-se a esse respeito e, com razão, de genocídio. Consentida como meio ou desejada como fim, a fome foi o procedimento mais mortífero da destruição comunista das pessoas. Ela responde por mais da metade dos mortos imputáveis ao sistema na URSS, e por três quartos, talvez, na China.

Finalmente, o nome e o anonimato – Dos judeus exterminados pelo nazismo, conhece-se o número com uma precisão rigorosa pela pesquisa e pela piedade judaicas. Existem números que indicam o efetivo de cada trem, a data de sua partida. Os nomes foram preciosamente guardados e conservados. Dos mortos pelo comunismo, conhece-se apenas uma estimativa em uma aproximação em cerca de várias dezenas de milhões. A mostra admitida pelo Livro Negro do Comunismo vai de 85 milhões a mais de 100 milhões. Essa diferença terrível que faz com que uns, exterminados como animais, sejam honrados como pessoas, e os outros, assassinados talvez de forma mais humana – se é que isso é possível – sejam esquecidos como animais, não tem a ver somente com a piedade ou impiedade da memória. Ela tem a ver também com o fato de as pesquisas serem impossíveis ou proibidas na quase totalidade do território antes ou ainda hoje sob o domínio comunista, e ainda com a vontade geral de amnésia do comunismo e da hipermnésia (estado de excitação anormal da memória; e não hiperamnésia, conforme a tradução de Emir Sader) do nazismo. Tem a ver, finalmente, com a natureza de um e de outro. O nazismo procedeu por categorias determinadas, administrativamente delimitáveis, sucessivas (os deficientes físicos na véspera da guerra, os judeus, os ciganos...); o comunismo por dizimações vagas, simultâneas, aleatórias, podendo incidir sobre o conjunto da população submetida.

O modo de execução não é um critério de avaliação. É preciso resistir à tentação de julgar uma morte mais atroz em si mesma do que outra; nenhuma pode ser vista de perto. Ninguém pode saber o que sentia uma criança ao inalar o gás zyklon B ou ao morrer de fome numa cabana ucraniana. Uma vez que se matavam pessoas à margem de qualquer justiça, é preciso afirmar que todas elas morreram horrivelmente, tanto umas quanto outras, porque eram inocentes. E quando há Justiça é que se pode imaginar que algumas execuções são mais honrosas – a espada, por exemplo, mais que a corda. Mas uma vez que os extermínios do século foram alheios à idéia da honra, classificar os suplícios é impossível e indecoroso.


O texto acima é um resumo do capítulo A Destruição Física, do livro de Alain Besançon, “A Infelicidade do Século – sobre o Comunismo, o Nazismo e a Unicidade da Shoah”, editado em 1998 na França e em 2000 no Brasil, fazendo uma comparação impressionante entre os assassinatos praticados por nazistas e comunistas.


(*) Raul Hillberg, A Destruição dos Judeus Europeus, 1985.

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