2009-06-07

DESPrivaTizem a PTBRAS



domingo, 7 de junho de 2009 7:29
rEINALDO aZEVEDO
A direção da Petrobras criou um blog chamado Fatos e Dados para supostamente prestar contas à opinião pública. Por que escrevo “supostamente”? Porque se trata, como está claro para quem navega por lá, de uma ferramenta de confronto. A empresa decidiu declarar guerra à imprensa — que essa gente costuma chamar de “mídia”. Isso prova, aliás, o quanto são ineficientes os blogueiros de aluguel que servem ao governismo. Justiça seja feita num particular: o blog da empresa ofende menos a língua do que, por exemplo, os apedeutismos da ratazana analfabeta ou do anão moral incapaz se empregar uma conjunção subordinativa. Os comentários aprovados pela equipe deixam claríssima a intenção: a imprensa ali só apanha e é considerada uma agente conspiradora. Jornalistas estão sendo demonizados pelos “leitores”. O teor dos comentários é o mesmo que se lê nos blogs do “jornalismo Franklinstein”.
Mas a Petrobras não pode ter um blog? Considerando o número de pessoas envolvidas com a área de comunicação, poderia ter uns 300. Esse, em particular, despreza uma noção mínima de ética na relação com a imprensa. Questões enviadas por jornalistas às assessorias que prestam serviço à Petrobras estão sendo publicadas no blog, com respostas que mal escondem o tom de permanente desafio — e, às vezes, de contido deboche. Ora, a regra firmada em todo o mundo democrático, onde a imprensa é um dos pilares do regime de liberdades públicas, supõe que as indagações de um jornalista são parte de seu trabalho e não podem ser expostas por ninguém a menos que ele autorize. Cinicamente, a empresa, por meio do blog, responde que não publicou os e-mails, mas apenas as perguntas que eles continham. Tenham paciência…
Se, das respostas dadas, faz-se uma reportagem com a qual a empresa não concorda, vá lá… Divulgar as questões no blog antes da reportagem é nada mais nada menos do que sabotagem do trabalho jornalístico, típico de quem acha que não tem de prestar contas à opinião pública. Indagado, um advogado por aí disse que isso não é ilegal. Ilegal, de fato, não é. Mas nem tudo o que não é ilegal é decente ou desejável. A menos que a direção da Petrobras e os comandantes do blog achem normal soltar pum em elevador e tirar meleca do nariz à mesa do jantar. Não são atos ilegais. Os exemplos são adequadamente asquerosos.
A Petrobras realmente é um portento. E usa a linguagem para esconder fatos, não para revelá-los. Explico o que digo. Leiam este trecho extraído do blog:
A Petrobras também esclarece que, ao contrário do publicado, conta com 1.150 pessoas em suas áreas de comunicação, número que inclui, entre concursados e contratados, todo o pessoal de apoio do administrativo, profissionais de publicidade, relações públicas, planejamento, gestão, marca e jornalistas. Além desses profissionais, esse número inclui todos os técnicos e profissionais que atuam nas questões de responsabilidade social e ambiental. Portanto, a informação de que são “1050 jornalistas contratados”, como cita o texto, não é verdadeira.
A verdade que interessa está no primeiro período, o resto é cascata: “A Petrobras também esclarece que, ao contrário do publicado, conta com 1.150 pessoas em suas áreas de comunicação”. Pouco importa se as pessoas da “área de comunicação” têm diploma de jornalismo, de farmácia, de massagista ou diploma nenhum. Sabem por que é um número escandaloso por definição? - Porque a Petrobras não produz a sua própria publicidade, como vocês sabem. Isso é feito por agências contratadas; - SÓ AGORA, POR CAUSA DA CPI, A EMPRESA CONTRATOU TRÊS EMPRESAS DE ASSESSORIA DE IMPRENSA, AO CUSTO DE R$ 90 MIL MENSAIS CADA, PARA CUIDAR DA, SE ME PERMITEM A TAUTOLOGIA, DE ASSESSORIA DE IMPRENSA!!! O que faz lá aquele batalhão? Ah, sim: o limite, nessa área, para contratações sem licitação, é de R$ 90 mil por contrato. Sendo a Petrobras o que é, contrataram logo três: a- uma das empresas responde aos jornalistas de TV e veículos impressos: b - outra monitora a Internet; c - uma terceira cuida da imagem da empresa no exterior.
Assim, meus caros, àqueles 1.150 (!!!!!!!!!!!!!!!!!) profissionais internos que cuidam da “área de comunicação”, devem-se somar aqueles das empresas contratadas que cuidam de publicidade, assessoria de imprensa, relações públicas etc. Alguns números nos ajudam a pensar e dão conta do descalabro: - Sabem quantos profissionais de redação (incluindo jornalistas, fotógrafos, área gráfica etc) fazem a VEJA, a maior revista do Brasil e a terceira maior do mundo? Resposta - 70. - Sabem quantos profissionais de redação (idem) fazem a Folha (incluindo revistas e suplementos especiais), o maior jornal do país? Resposta - entre 250 e 300, depende o período. - 300 também é número de referência para O Globo e Estadão.
Assim, somando-se os profissionais de VEJA, Folha, O Globo e Estadão, ainda não se chega ao pessoal “da área de comunicação” da Petrobras. Mesmo assim, por causa da CPI, a empresa contratou três empresas de assessoria de imprensa. E as perguntas a elas enviadas pelos jornalistas foram parar no… blog! Não custa lembrar: VEJA, Folha, O Globo e Estadão fazem produtos jornalísticos. Até onde se sabe, a área de atuação da Petrobras — boa parte dela, na prática, um monopólio — é outra. Chega a ser cômico que, com 1.150 profissionais ligados, como eles dizem, à “área de comunicação”, a empresa ainda precise recorrer a outras para cuidar da, ATENÇÃO!!!, “área de comunicação”.
A Petrobras é um país dentro do país. E não é de hoje. Nem é, de fato, deste governo. Mas, agora, as coisas se exacerbaram. As relações da empresa com o público assumiram as feições de José Sérgio Gabrielli, seu presidente, cuja agressividade no trato com a imprensa e com aqueles que se atrevem a pedir informações sobre a estatal é patente. Consideram uma ofensa o que é uma obrigação e um direito do cidadão. Não custa lembrar as muitas vezes em que este senhor foi claramente hostil à CPI — uma prerrogativa do Legislativo, um dos Poderes da República.
Contra a imprensaMal se disfarça a intenção: trata-se de tentar hostilizar a imprensa; de evidenciar o que seria a sua obsolescência; de empurrá-la para uma situação defensiva. Dia desses, Gabrielli fez referência à verba publicitária da Petrobras, sugerindo que os meios de comunicação são os maiores beneficiários dos gastos da empresa nessa área. Era uma espécie de chantagem. Era como se dissesse: “Nós lhes damos dinheiro, comportem-se”.
Trata-se, entendo, de um momento crucial para a grande imprensa: ou denuncia a manobra espúria, ou, de fato, se tornará caudatária de uma espécie de pistolagem moral. Mais uma vez, no governo Lula, os grandes veículos de comunicação são tratados como inimigos, a despeito, é bom deixar claro, de tanta colaboração. OU O JORNALISMO DENUNCIA O JOGO OU ESTARÁ OFERECENDO O PESCOÇO PARA NEGOCIAR COM A CORDA.
Medo E, claro, agora é inescapável destacar: há um medo verdadeiramente pânico de que a investigação chegue para valer à empresa. O que é que essa gente tanto teme, a ponto de jogar no lixo qualquer prurido ético? Não sei. Eles devem saber. Não sou adepto da teoria do “quem não deve não teme” porque, no estado policial que se tentou implantar no Brasil, mais temem os que não devem. Ocorre que a mobilização da Petrobras contra a CPI beira a histeria. E olhem que o governo tem 8 dos 11 titulares da comissão.
De volta aos comentáriosAh, sim: leitores que criticam a empresa e defendem a investigação estão sendo barrados no baile. Mas passam os que defendem a Petrobras e atacam a imprensa e a “mídia”. É, eu também barro aqui os indesejáveis. Só que não faço blog com dinheiro de empresa estatal nem tenho a obrigação, já que não sou braço do estado, de abrigar as várias correntes de opinião.
FinalmenteTucanos decidiram apresentar uma emenda que proíbe a privatização da Petrobras. É claro que, em si, é um absurdo, já que isso só é matéria constitucional em país bananeiro. Tá, corrijo-me: o Brasil é um país bananeiro, cheio de bananas, então não é um absurdo… A medida, em si esdrúxula, talvez seja mesmo necessária. Assim, tira-se da frente esse fantasma conveniente. Quem sabe, depois disso, a Petrobras possa ser, finalmente, estatizada, né?
É hora de fazer uma campanha: PELA DESPRIVATIZAÇÃO DA PETROBRAS!

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