2009-06-08

CAETANO VELOSO, O ETERNO MIOLO MOLE


E QUEM RESOLVEU ME ATACAR?

CAETANO VELOSO!

IHHH, LEÃOZINHO…

segunda-feira, 8 de junho de 2009 6:53

leao

Se você escreve, aparece um pouco, uma hora esbarra em Caetano Veloso, mesmo sem querer. Ou ele esbarra em você, já que gosta de falar sobre qualquer assunto, e o faz com especial graça quando comenta coisas sobre as quais não entende nada, como aquela personagem de uma música de Adoniran Barbosa. E isso não é de hoje, vem lá do tempo em que o grande José Guilherme Merquior cutucou o cérebro de “Soninha Toda Pura” — apelido que foi dado ao cantante pelo seu amigo já morto Wally Salomão, segundo o também baiano Antonio Rizério — e constatou: “É um pseudo-intelectual do miolo mole”. Há, como sabem, muitas diferenças entre mim e Caetano Veloso (claro, claro, todas contra mim, já sei…). E uma delas é esta: ele lê meu blog, mas eu nunca li o dele (ainda existe?). O que quer dizer, também, que ele tem mais tempo do que eu.

Caetano concedeu uma entrevista a uma revista de São Paulo. Um amigo leu e me enviou um trecho por e-mail. Ao responder a uma questão sobre divergências passadas com a USP, falou sobre os uspianos que querem “livrar-se do Brasil”, os que desejam “salvar o Brasil’ e os que pretendem “alcançá-lo em sua brasilidade”. Comentando a influência que a USP ainda teria, afirmou o que segue:

“Assim, os neoconservadores (com todas as grossuras que lhes são características) brilham como um grupo contrastante em ambiente dominado. Não nos enganemos: não estamos falando da USP, mas de uma certa esquerda desenvolvida na USP. Pois há conservadores na USP, inclusive convidados a preencherem as janelas de direita que os jornais descobriram que precisam abrir. A reação é mais geral: é contra a hegemonia da esquerda. Natural que, sobretudo em São Paulo, algum jornalista se anime a falar em “esquerdopatas da USP”. Eu acho esse tom cafajeste, sem graça, porque superficial. Não apenas esse período FHC-Lula não seria possível sem a esquerda uspiana: a universidade tem tido e ainda terá grande papel a desempenhar no nosso amadurecimento político e civilizacional.”

Oba!
“Esquerdopata”, como sabem, é um neologismo criado por este escriba e que até integra o glossário de O País dos Petralhas. A esquerdopatia não contamina apenas a USP. Sim, Caetano está falando de mim. Ele acha meu tom cafajeste? Questão de gosto. O dele segue o padrão ligeiro de quem continua com o miolo mole e, por conseqüência, falando asneiras sobre o que não entende. É pena! Cheguei a confundi-lo com alguém corajoso. Mas isso fica mais para o fim do texto. Antes que vá ao cerne, gostaria de ser apresentado aos “conservadores da USP”, que foram convidados a preencher as tais janelas “pelos jornais”. Ou a edição se enrolou, o que é menos provável, ou Caetano foi confuso, o que é muito provável. Que eu saiba, jornais de São Paulo não indicam professores da universidade. Adiante.

Quando leitores me indagam a respeito de coisas sobre as quais não tenho a menor idéia, costumo brincar: “Gente, não sou o Caetano Veloso do jornalismo. Não me sinto obrigado a ter resposta para tudo” — embora possa parecer o contrário… E me calo sobre o que não entendo justamente para não pagar mico. Fosse o caso de levar a sério o que disse o cantor, teria de lhe dizer que sua afirmação de que, sem USP, não haveria o período FHC-Lula uma tolice monumental, desmentida pelos fatos. Se quiser atribuir à universidade a inserção de FHC na política, no fim dos anos 70, ainda vá lá. Mas a sua eleição, em 1994, ao contrário do que ele diz, foi exatamente a anti-USP. Só foi possível por causa do então PFL. O tucano fez rigorosamente o contrário do que recomendavam os iluminados da universidade. Foi preciso que ele se livrasse do estoque de preconceitos eventualmente herdados daquela madrassal esquerdopata — com exceções, claro, mas me refiro à média — para poder fazer a coisa certa: reformar a Constituição, abrir a economia, dominar a inflação, privatizar estatais, controlar as contas públicas. Tudo, rigorosamente tudo, o que o pensamento uspiano-unicampíano dizia para não fazer. Se Caetano quer falar sobre essas coisas, precisa estudar. Não basta fazer o download da manemolência da máfia do dendê. Ele acha os neoconservadores superficiais? Sejamos profundos.

E o mesmo vale para Lula, de várias maneiras, distintas e combinadas (para lembrar certa herança trotskista, eu, o “neoconservador”). Grosso é Caetano. Grossura suprema é falar sobre o que não entende, como quem anima um auditório. O governo Lula continua herdeiro da escola de pensamento econômico que deu as cartas no governo FHC: a PUC do Rio. Assim, não é, digamos, macroeconomicamente uspiano, como também não o é na política social, acusada por boa parte da esquerda intelectual de “meramente assistencialista” — o que não deixa de ser, embora a minha crítica não coincida com a dessa gente. Mas este texto é lugar para essa divergência.

Caetano está apenas tirando uma casquinha e mandando um aceno às esquerdas. Bater em mim é uma boa maneira de fazê-lo. Vai ver anda precisando disso. Lastimo. Quando me inteirei, muito jovem, da sua trajetória artística, alimentei certa admiração por ele. Afinal, era uma postura corajosa enfrentar a patrulha da esquerda, mesmo aquela esquerda se colocando como vítima do regime militar. Agora que ela é establishment, poderia continuar corajoso, não é? Que nada! É o Sartre de Santo Amaro da Purificação: aquele, em pleno nazismo, resistiu ao Partido Comunista e pôs em novos termos a questão do engajamento. Quando o nazismo acabou, virou stalinista vulgar — e, quando já estava gagá, maoísta. Caetano nunca foi um queridinho dos engajados — tampouco dos petistas nos tempos em que Lula era oposição. Não deixava de ser admirável a sua independência. Agora que Lula é poder, ele resolveu dar a sua contribuição. Isso talvez sirva para recolocar em novo plano a sua resistência passada às esquerdas: terá sido mais covardia do que clareza? Mais medo do que sagacidade?

Cafajeste é o adesismo, não a luta contra o que ele reconhece ser a visão hegemônica.

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