2009-05-17

PREFEITO DO RIO DE JANEIRO EDUARDO PAES ESTÁ CERTÍSSIMO

Chega de demagogia

Por Ronaldo Soares:
Desde janeiro, quando tomou posse, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, de 39 anos, vem comprando brigas pesadas. Mandou derrubar construções irregulares em favelas e na Zona Sul da cidade, tirou camelôs das ruas, declarou guerra sem trégua aos motoristas que estacionam o carro sobre a calçada. Em relação às favelas, teve a coragem de devolver ao rol das soluções possíveis a palavra "remoção", banida do vocabulário dos governantes cariocas desde os anos 1960. A esse conjunto de iniciativas, deu o nome de "choque de ordem", com clara inspiração na política que fez reviver Nova York nos 90. "Para recuperar o Rio Cidade Maravilhosa, é preciso quebrar paradigmas", diz Paes. O prefeito recebeu VEJA em seu gabinete no Palácio da Cidade para a seguinte entrevista.

Como o Rio de Janeiro chegou a esse estado em que a principal palavra de ordem do prefeito é "choque de ordem"?
Por um longo período, vivemos uma espécie de romantismo social. Em nome de resolver determinadas questões, a política fluminense foi aceitando a convivência com a irregularidade, com a ilegalidade. Mas o que era apresentado como alternativa para os mais pobres foi descambando para a marginalidade. A desordem no Rio de Janeiro passou a ser endêmica, e hoje se manifesta das mais variadas formas. Os ricos jogam lixo pela janela e param o carro no lugar errado; e o boteco faz sua varanda avançar sobre a calçada. Nas camadas mais pobres da população, a desordem se manifesta ainda mais intensamente, até porque é justificada pela demagogia geral. A favela tornou-se, assim, um símbolo desse jogo de conivência, do "tudo pode" no Rio.

Esse "tudo pode" é determinado também pelo jeito de ser do carioca?
Sem dúvida. Essa coisa da espontaneidade do carioca, do seu jeito de ser, da malandragem cantada em prosa e verso, também acaba servindo ao "tudo pode". Em nome de um certo carioquismo, cometeram-se equívocos e abusos. A cidade está maltratada tanto pelo romantismo social das autoridades como pelo que se convencionou chamar de "jeitão do carioca". O resultado é a desordem, o caos urbano. Adoro samba, toco na bateria da Portela, gosto de chope, de boteco, de praia. Mas dá para a gente ter preocupação social e ser carioca sem mergulhar na desordem e sem perder a alegria típica da nossa cidade.

Os cariocas apoiam o choque de ordem?
É claro que existem aquelas pessoas que resistem, alegando que o problema não é delas, e sim dos outros. O sujeito aplaude a demolição da varanda do bar que invadiu a calçada e, no entanto, fica revoltado se for multado por ter estacionado o carro em cima da mesma calçada. Mas, no geral, a população está entendendo bem o recado. Acho que todos começam a entender que a cidade já perdeu tempo demais com demagogia. O choque de ordem não demoliu nenhuma casa de pobre até agora. O que tiramos foi casa de malandro que se utiliza do pobre para ganhar dinheiro. Aquele episódio do Minhocão, um prédio com mais de vinte apartamentos na Rocinha, mostrou isso. O alvo não era uma favelada coitadinha. Era um empresário dono de restaurante no asfalto, que se utilizava da favelada para ganhar dinheiro, não pagar imposto e desrespeitar a cidade. Estamos indo em cima desses agiotas da miséria – entre eles, os donos de depósitos que controlam o comércio ambulante. Esses sujeitos são, na verdade, atacadistas que não querem pagar impostos. O que explica aparecer de repente, nos cruzamentos da cidade, um monte de gente vendendo a mesma marca de chocolate? Será que todos resolveram comprar juntos? Não. Na melhor das hipóteses, tem um sujeito que compra, distribui e explora aqueles vendedores. Na pior, esse cara distribui carga roubada. Então, não dá para entender por que se tornou um tabu cadastrar esses comerciantes e reprimir quem não tiver licença.

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