2009-05-24

PETROBRAS X BRASIL

domingo, 24 de maio de 2009 6:57

Por que tanta gritaria por causa da CPI da Petrobras? Porque é na empresa que mora o segredo. Reportagem da Folha de hoje, intitulada “Sozinha, Petrobras investe mais que a União em 2009” mostra o real poder da empresa.
Segue trecho. Volto em seguida:
No centro de uma batalha política entre governo e oposição desde que foi criada uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigá-la, a Petrobras e suas subsidiárias investiram, apenas nos dois primeiros meses do ano, quase três vezes o volume de gastos do Tesouro no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) entre janeiro e o início de maio.Foram R$ 8,1 bilhões aplicados pela estatal contra R$ 2,9 bilhões investidos pela União no carro-chefe do governo Lula num período duas vezes maior.
Os números, registrados no balanço da Petrobras -lançado na página do Ministério do Planejamento a cada dois meses- e no Siafi (sistema de controle de gastos da União), dão uma dimensão dos interesses em jogo na CPI da Petrobras.A Petrobras é a maior estatal brasileira. Com suas 21 subsidiárias, responde por 92% dos investimentos de todas as estatais brasileiras. No primeiro bimestre de 2009, sua subsidiária na Holanda foi a segunda no ranking dos investimentos da holding, à frente da Petrobras Internacional, que dispõe de orçamento maior.
O grupo inteiro prevê gastos de mais de R$ 66 bilhões até o final do ano. O número é 30% maior do que os investimentos feitos pela estatal em 2008.O total de gastos que a holding Petrobras pretende investir supera em R$ 16,8 bilhões os investimentos da União autorizados por lei para 2009. Parte desse orçamento de investimentos da estatal depende ainda de captações de recursos no mercado internacional, fato apontado por autoridades brasileiras preocupadas com as repercussões políticas de uma investigação no Congresso.Segundo pesquisa feita pela ONG Contas Abertas, os investimentos da Petrobras apenas no primeiro bimestre superam em 16% os investimentos de toda a administração direta e dos Poderes Legislativo e Judiciário juntos em mais de quatro meses em 2009.
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Comento
Há várias coisas interessantes aí. Começo por destacar que esse tal PAC, como vêem, é mesmo uma das maiores picaretagens na história ocidental. Não sei se lembram,chegou-se a falar em investir mais de R$ 1 trilhão até 2011, e pelo metade disso seria dinheiro público.

Em segundo lugar, e isso está diretamente ligado ao mérito da questão, tudo bem que o Brasil se orgulhe de ter uma empresa desse porte – eu mesmo mal posso me conter; se não me seguro na cadeira, saio pela casa cantando o Hino Nacional. O problema não é saber se um país tem ou não uma empresa como essa, mas saber se o país tem o controle de uma empresa como essa.
Pergunta-se: quem, hoje, controla quem? Por tudo o que se vai evidenciando, a Petrobras controla boa parte do Brasil, mas o Brasil não tem idéia do que faz a Petrobras. É a maior compradora, a maior vendedora, a maior investidora, a maior contratadora (caso se considere tudo o que ela demanda de bens e serviços) de mão-de-obra…
Tudo por lá é superlativo, incluindo a sua disposição de não prestar contas a ninguém. Conforme se lê num post abaixo, ocupa-se de tarefas que também seria próprias do estado, de ministérios.
Pior: vê-se, com clareza, que também assumiu as rédeas de boa parte da política. Um dos temores dos partidos políticos – e não só do PT, é bom que se diga -, é que se mexa com empresas que são também financiadoras de campanhas políticas. Não bastasse o financiamento de quadrilhas juninas, como vocês sabem, há a interferência indireta, mas muito direta, no próprio processo político.
Quantas vezes já se escreveu aqui que o poder real do Brasil está nas estatais e nos fundos de pensão? É ali que está o dinheiro. Já cheguei a comentar aqui que, para o petismo, perder as eleições presidenciais em 2010 – não que os petistas contem com isso, bem entendido, nem é coisa tão dramática. O aparelhamento dessas outras instâncias lhes garante um enorme poder de fogo, qualquer que seja o governo.
O país é mais ou menos refém das vontades da Petrobras. Por isso a empresa se lança com tanta desfaçatez numa cruzada nacional contra uma das prerrogativas do Congresso – de qualquer Congresso no mundo democrático – que é investigar as questões que digam respeito ao estado e ao interesse público. Uma Petrobras com todo esse poder indica uma sociedade com quase poder nenhum.
E também de índole pacífica. Uma refinaria como a Abreu e Lima pode ver seu custo saltar R$ 5 bilhões para R$ 22 bilhões; a do Rio, de R$ 7 bilhões para R$ 26 bilhões – isso em tempos de inflação baixa. Salto de milhões em orçamentos oficiais é coisa que ficou no passado, de quando o Brasil era um país de ambições modestas. Agora sonha grande.

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