2009-05-10

Nelson Ascher responde a internautas


Segue o comentário de Nelson Ascher:

Caro Reinaldo,

Aqui vai um esclarecimento:

Entre os comentaristas do blog, há um sujeito tão incapaz de discutir civilizadamente como disposto, da mesma forma que os demais da laia dele, a lançar ofensas pessoais. Na primeira discussão sobre o Antunes (a de ontem), ele escreve às 2h10, mas já apareceu outras vezes. Ele é fácil de reconhecer, apesar de se assinar como “anônimo”, pois volta sempre a bater na tecla de que eu não teria (covardemente, diz ele – como esse pessoal é cabra-macho, não?) defendido minhas idéias atuais num debate do Paulo Vanzolini com o Fernando Gabeira, que mediei.

A má-fé do sujeito se escancara na medida em que ele não diz quando é que o debate ocorreu. Foi em agosto de 1999. Fazia parte da série “Diálogos Impertinentes” da qual eu era então o mediador em nome da “Folha”. O tema da discussão era “A Resistência do Planeta” e, se o aquecimento global foi sequer mencionado, deve tê-lo sido muito marginalmente, pois a questão não estava ainda em moda, muito menos no centro das preocupações ambientalistas daqui. De resto, como já disse, eu era mediador, não debatedor, e o missivista é, seguramente, um desses tipos que não conseguem diferenciar entre ambos os papéis ou funções. Ele, se fosse mediar qualquer debate, decerto se apropriaria do microfone para divulgar suas opiniões, ou melhor, doutrinar a platéia, e nunca mais o devolveria aos debatedores convidados.

Gentilmente, ele me chama de seu “protegido” e creio que você, eu e, sobretudo, seus leitores sabemos a diferença entre, por um lado, compartilhar de idéias, opiniões ou, pelo menos, visões éticas do mundo (e o modo de discutir pertence a essa categoria) e, por outro, ser um “protegido”, algo bastante comum tanto nos meios universitários, como na intelectualha esquerdista e, especialmente, no governo atual. Nesses lugares não existe camaradagem ou amizade, admiração mútua, respeito etc., existe somente convergência de interesses aliada à mancomunação temerosa ou oportunista dos gângsteres.

Ele elogia também a coragem do roqueiro por ter assinado o manifesto em defesa do “palestino” Edward Said. Bom, como você sabe, eu não ataquei o Said, mas suas idéias e sua atuação enquanto membro graduado da organização terrorista chamada OLP e “ghost writer” de Iásser Arafat. Quanto à coragem dos signatários (cujo direito a assinar o que quiserem sou o primeiro a defender), esta deve, segundo o missivista, ter sido de fato descomunal. Imagine os riscos que os 180 e tantos corriam ao se oporem a mim. Meu Deus, eles punham a vida, o bem-estar e sei lá mais o quê em perigo. Desafiar abertamente os aiatolás no Irã, o Fidel em Cuba, o Taleban no Afeganistão ou o finado Saddam Hussein no Iraque (quando os dois últimos, para alegria do missivista, ainda estavam no poder) requereria, no máximo, um milésimo daquela coragem. Como diria Paulo Francis: waaaallll!

Vale a pena acrescentar que, para comprovar a origem palestina do Said, ele remete à leitura de suas memórias que são, sem dúvida, fonte isentíssima. O curioso é que, depois de ter sido desmascarado na “Commentary” (mas trata-se de uma revista de judeus, e estes, que controlam a imprensa e as finanças, são sempre mentirosos, certo?) por Justus Reid Warner, em 1999, o próprio Said mudou a história em edições posteriores do livro. Ele nasceu em Jerusalém enquanto seus pais passavam as férias ali, mas logo voltou à cidade onde estes viviam, o Cairo, no Egito. É lá que cresceu e foi educado antes de se mudar, por vontade própria, para os EUA. A firma de seu pai foi, no entanto, depredada, nos anos 50, por muçulmanos, porque sua família era cristã, e a fortuna dos Said foi, enfim, confiscada por Gamal Abdel Nasser. Said nunca foi um refugiado palestino nem fugiu dos israelenses. Quem tenha lido meu artigo, porém, verá que eu mesmo digo que é irrelevante onde ele nasceu, que as fronteiras internas do mundo árabe eram e são artificiais e que o que me interessa mesmo é o que Said pensava e escreveu em “Orientalismo” e outras obras, bem como a influência de suas atividades nos destinos da região.

Compreendo, contudo, que, para o comentarista, assinar manifestos contra um cidadão privado constitua um ato supremo de coragem, pois, até ao enviar insultos para seu blog, oculta o próprio nome e assina somente como “anônimo”. E é assim, aliás, que ele deve ser tratado.

PS. Um outro leitor (este civilizadamente) defende a paranóia ambientalista recorrendo ao princípio precaucionário, quer dizer: se existe uma probabilidade, por menor que seja, de o risco ser real, então devemos tomar todas as precauções contra ele o mais cedo possível. Ora, se todos os homens saudáveis do mundo se castrarem ou, melhor, retirarem cirurgicamente suas próstatas, e todas as mulheres saudáveis amputarem os próprios seios, o risco de cânceres de próstata e seio declinará decisivamente. Esta seria, é claro, a precaução mais eficiente. Mas alguém se candidata? Num mundo de recursos limitados, qualquer precaução tem seu preço, e este só pode ser avaliado em face dos custos do perigo específico.

Se o Protocolo de Kyoto foi inútil, a coisa não fica só num “que pena, vamos tentar outra solução”. Kyoto custou uma fortuna aos contribuintes de vários países (não às companhias, que não perdem lucros, porque transferem os custos para o consumidor), uma fortuna que poderia ter sido aplicada em diversas outras coisas. Para ficarmos só no meio-ambiente, quanto teria custado (e rendido) construir mais estações de monitoramente de terremotos, maremotos e tsunamis no oceano Pacífico? Quantas vidas elas poderiam ter salvado e quanto prejuízo material elas poderiam ter evitado? Insisto: cada centavo investido na prevenção do aquecimento global hipoteticamente antropogênico é um centavo não investido no tratamento da malária. E, para concluir: a quem é que devemos entregar esse tipo de decisão, ao clube de ditadores chamado ONU, a esses lobbies opacos conhecidos como ONGs? Quando eles erram ou se enganam, a quem é que podemos pedir o dinheiro de volta, quem vamos processar ou, pelo menos, quais dentre seus líderes é que podemos rejeitar ou substituir nas próximas eleições?

Grande abraço
Nelson Ascher

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