2009-05-12

MACONHEIROS QUEREM O "SOMA" DO LIVRO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO




AS DROGAS E O LIBERALISMO IDEAL


Reinaldo Azevedo



Ô assunto chato! Chato, mas importante!
Embora poucas pessoas percebam, sou um cara bem-humorado — “humor às vezes brutal”, definiu certa feita um amigo. Tá bom. Até admito. Mas humor ainda assim. Sou tentado a fazer uma piada: o consumo e/ou a simples simpatia por certas substâncias talvez tornem realmente impossível entender sutilezas...

No post em que falo da participação do Coroa do Rio (Carlos Minc) na Marcha da Maconha, digo com todas as letras que a estupidez da reivindicação é de ordem prática antes de mais nada. O Brasil não conseguiria legalizar sozinho as drogas — e o resto do mundo não o fará. Logo, trata-se de um debate ocioso, feito por quem está pedindo especial licença para transgredir as leis, transformando o ato de consumir drogas numa espécie de variante de “direitos humanos de quinta geração”, como diria meu amigo Nelson Ascher. Nelson usou a expressão num debate de TV de que participamos (“Entre Aspas”, na GloboNews, no dia 30 de abril). Referia-se a outro tema, mas a sacada cabe também nesse caso.

A rigor, caros leitores, qualquer coisa, qualquer demanda, pode-se transformar em matéria de reivindicação. Por que alguém não pode, consoante com a antiga cultura grega, reivindicar o seu direito de transar com garotos imberbes? Poderia tentar provar que a pedofilia, sob certo ponto de vista, tem uma função educativa. Sabem, o chamado “amor socrático”... A sociedade — esta reacionária — tenderia a não gostar. Vocês sabem como reacionários são esquisitos...

Não, não estou comparando uma coisa à outra. Sempre procuro tomar cada assunto em sua natureza. Chamo a atenção para o fato de que REIVINDICAR UM PARTICULARISMO não quer dizer, necessariamente, uma ampliação de horizontes da sociedade. Às vezes, pode ser justamente o contrário. É o que acho que aconteceria caso as drogas fossem liberadas: um estreitamento de horizontes. Ainda que houvesse o benefício decorrente do fim do narcotráfico — não haveria, já escrevi, porque o crime decorre da impunidade e da ineficiência do estado, e os bandidos da droga migrariam para outros delitos —, penso no flagelo social que implicaria o aumento brutal do consumo de substâncias hoje consideradas ilícitas, especialmente entre adolescentes.

Os que defendem a sua liberação se esquecem de que há valores de natureza cultural associados às drogas. Há quem queira que elas forcem os umbrais de uma nova percepção. Qualquer educador ao menos razoável sabe o que esse apelo pode significar no universo adolescente. Estaríamos, antes de mais nada, diante de uma tragédia educacional de grandes proporções. O mundo não reprime as drogas apenas por capricho. A PROPÓSITO: CHEGO A ACHAR ENGRAÇADAS AS BOBAGENS SOBRE GRANDES CONSPIRAÇÕES QUE ESTARIAM POR TRÁS DO COMBATE ÀS DROGAS. Indagação para quem está com o cérebro em ordem: se o combate à tese da descriminalização das drogas obedece a interesses inconfessáveis, por que a campanha para legalizá-las também não obedeceria?

Friedman, liberais etc
E agora uma palavrinha àqueles que vieram ao blog se dizer partidários da tese de Milton Friedman, que defendeu a legalização das drogas. “Ora, Reinaldo, você não é um liberal?” Sou, sim. Mas nunca me disse, vá lá, uma “liberal-liberal”. Sou o que se poderia chamar “liberal-conservador”. Qual a diferença? Xiii, há muitas.

A principal delas é que o “liberal-liberal” costuma ser tão, como direi?, “libertário”, que, freqüentemente, flerta com práticas que solapam as próprias condições da liberdade. Acho que Chamberlain, aquele que celebrou o Acordo de Munique com Hitler, poderia ser o patrono dos liberais-liberais. Um liberal-conservador, como sou, diz, com clareza, diante de certas coisas: “Opa! Isso não! Isso estreita o ambiente em que podemos ser livres; logo, afeta a própria liberdade. E a liberdade liberticida é gême da tirania". A droga é um desses casos. Assim, oponho-me à liberação por uma questão de princípio e continuo a ser um liberal. Um liberal-conservador. Mas não é só isso.

Friedman emitiu uma opinião sobre as drogas descompromissado com um programa de implementação de medidas, situação em que certamente não saberia o que fazer. Se me perguntarem se acho melhor a instrução pública ou a educação conduzida pelas famílias, por exemplo, não terei a menor dúvida em responder: em termos puros, fico com a segunda. Tudo o que eu gostaria era de ver minhas filhas livres das vigarices de Rousseau, aquele fazedor de crianças abandonadas... Mas não sei como faria para fazer a instrução privada e familiar ser a dominante. Também não sei como poderia operar o fim do monopólio estatal do uso da força. Assim como existiram o “Socialismo Ideal” e o “Socialismo Real”, há o “Liberalismo Ideal” e o “Liberalismo Real”... Quem é do ramo pode ter percebido certa ironia aqui.

“Ihhh, Reinaldo acabou igualando socialismo e liberalismo com essa sua brincadeirinha...” Querem ver? A moderna (reitero: A MODERNA) democracia nasce da negociação com o Liberalismo Ideal: nós, os liberais reais, tivemos de abrir mão de alguns de nossos princípios de radicalização da vontade individual para viver em sociedade. E, assim, sustentamos a democracia. O Socialismo Real também nasceu da negociação dos socialistas com alguns princípios do Socialismo Ideal: os socialistas reais tiveram de abrir mão de alguns princípios da tirania perfeita para fazer suas tiranias imperfeitas. Eita parágrafo bom!

Perceberam a diferença de natureza? Quando os liberais aplicaram a parte possível do seu credo, deram à luz a democracia, um regime de liberdades, porém imperfeito segundo a liberdade ideal. Quando os socialistas aplicaram a parte possível do seu credo, deram à luz um regime ditatorial, também imperfeito segundo a ditadura ideal.

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