2009-05-21

LULA 3º MANDATO GRAÇAS A DILMA

LULA VOLTOU A FLERTAR COM TERCEIRO MANDATO, SIM. OU:
ELE GOSTA MAIS DE COMER PATOS DO QUE DE COMER COELHOS
Leiam este trecho de reportagem publicada hoje pela Folha, de Raul Juste Lores, de Pequim.
Volto em seguida:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não discute a hipótese de um terceiro mandato. Indagado se poderia concorrer novamente caso a candidatura de Dilma Rousseff enfrente problemas, Lula respondeu:
"Não discuto essa hipótese. Primeiro, porque não tem terceiro mandato. Segundo, porque Dilma está bem".
Ele conversou anteontem com o médico Roberto Kalil, às 21h (horário de Brasília). "Ele me disse que as dores já passaram, é algo normal", contou ele, após visitar um centro espacial na periferia de Pequim."Essa preocupação não existe. Ela vai fazer a quimioterapia dela, está totalmente curada." Lula recebeu a notícia da internação de Dilma em Pequim, onde estava em visita oficial.

O presidente já refutou, em outras ocasiões, a hipótese do terceiro mandato. Em agosto de 2007, ele disse que "não tem essa de o povo pedir". "Meu mandato termina no dia 31 de dezembro de 2010. Passo a faixa para outro presidente em 1º de janeiro de 2011, e vou fazer meu coelhinho assado, que faz uns cinco anos que não faço."Assinante lê mais aqui

Voltei
Releiam as três orações ditas por Lula. Elas podem entrar para a história.
"Não discuto essa hipótese [do terceiro mandato]”.
“Primeiro, porque não tem terceiro mandato”.
“Segundo, porque Dilma está bem".

Nada disso requer muita interpretação. O que ele fez foi dar as circunstâncias em que não discutiria (o que é falso) terceiro mandato:
1) a Constituição proíbe;
2) Dilma está bem.
Mas e se a Constituição permitir e se Dilma não estiver tão bem?
Aí a coisa muda de figura.

Resposta à primeira condição: a Constituição proíbe, mas pode permitir. Basta que se aprove uma emenda constitucional;
Resposta à segunda condição: não, Dilma não está tão bem assim. Lula e todo mundo sabem disso.

Fui o primeiro, o que pode ser constatado numa pesquisa na Internet, a afirmar que Lula flertava com o terceiro mandato, coisa antiga, do 27º dia do primeiro mês do segundo mandato. Sim, escrevi a respeito em 27 de janeiro de 2007. E já empregava o termo “queremismo”. Reproduzo até um trecho:

“O sujeito tentar um terceiro mandato não é igual a tentar um segundo. Quando menos, existe um modelo firmado de reeleição, o americano, que serve como parâmetro de regime democrático. Mas também não dá para provar que o terceiro mandato seria criminoso ou antidemocrático em si: no caso de Lula, o que impede um deputado de apresentar uma emenda? Se o Congresso aprovar, restará a Lula decidir se vai ou não se lançar à aventura. Formalmente, trata-se de uma emenda mudando a Constituição, a exemplo de qualquer outra.A cultura política, no entanto, que permitiria a aprovação desse expediente é que atenta contra a democracia: porque acena, claro, com um personalismo avesso à saúde institucional. Na França, um presidente podia ficar 14 anos no poder — dois mandatos de sete. Agosta pode ficar 10 (dois mandatos de cinco), mas o regime de governo é misto, como se sabe. Só franceses conseguem conciliar presidencialismo e parlamentarismo fortes.O que Lula está fazendo? Movendo os tanques. Está, obviamente, criando um clima favorável a um movimento “queremista” (para quem precisa: pesquisar “queremismo” na Internet), que pode nascer, sabem como é, “independentemente” da sua vontade.Atenção: o PAC não precisa “DAR CERTO” para que isso ocorra. Até porque o PAC não existe, é uma peça de propaganda.”

Tio Rei não tem bola de cristal. Tem só a lógica, sempre, como aliada. E voltei ao tema algumas outras vezes.
O cordão dos puxa-sacos negava isso com aquela veemência dos áulicos. Aquele rapazola que hoje é porta-voz do jornalismo Fraklinstein era o mais exaltado. O assunto cresceu; ficou claro que a reação contrária seria grande; Lula negou a intenção com a convicção que sempre demonstra quando diz uma coisa ou o seu contrário, e o assunto foi congelado. Surgiu a possibilidade da candidatura Dilma, parecia que a coisa iria decolar e tal, mas...

Já escrevi aqui recentemente e reitero: acho difícil, a esta altura do campeonato, que o Apedeuta se lance a tal aventura. Elenquei os motivos. A emenda teria fácil tramitação na Câmara, mas seria de difícil aprovação no Senado; o quadriênio 2011-2014 não será nenhum céu de brigadeiro, o que seus auxiliares na área econômica já devem ter dito; o custo para tentar aprovar a emenda, com ou sem consulta popular, seria gigantesco. Lula me parece um pouco mais inteligente do que isso. Tentar voltar depois, como um Dom Sebastião bem-sucedido parece mais auspicioso...
Notem: não estou dizendo que ele vai tentar o terceiro mandato. Estou afirmando que voltou a flertar com a idéia. E já não cuida mais da discrição. Tem chamado seus auxiliares para ouvi-los sobre a possibilidade. Quem demonstra aquele entusiasmo dos subordinados altivos recebe em troca algumas amabilidades. Quem o desaconselha não costuma colher uma reação muito generosa. Quando menos, o Apedeuta quer que digam que ele deve tentar, sim, e que isso é o certo. Ainda que ele próprio ache um risco.
Esse movimento todo serve também para tentar desorientar as oposições e fazer do terceiro mandato uma espécie de fantasma? Claro que sim! O fato de que a ameaça atenda a esse objetivo e de que seja grande a dificuldade para aprovar a emenda não quer dizer que ele não queira continuar na Presidência. Ou vocês imaginam que Lula consiga pensar em alguém mais capacitado para o cargo? Ele é especialista em coelho, mas gosta mesmo é de comer patos...
Se eu fosse obrigado a apostar um dinheirinho no “tenta” ou “não tenta”, ficaria com a segunda alternativa. O fato, no entanto, é que o tema, que tinha sido sepultado no Planalto, está, de novo, bastante vivo.

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