2009-05-28

KATYN, O FILME.


Katyn, massacre comunista e mídia amestrada
por Ipojuca Pontes em 21 de maio de 2009
Opinião - Cultura



Andrzej Wajda:
filme retrata um dos piores crimes comunistas da Segunda Guerra Mundial

Assim está escrito na secção de serviço “Rio Show”, no Segundo Caderno de “O Globo”, sobre o filme “Katyn”, do cineasta polonês Andrzej Wajda (pronuncia-se “Vaida”): “Drama. Os bastidores do massacre de Katyn, meses depois da invasão nazista na Polônia, em 1939”.Tão só e nada mais.
Ignorância cega ou má fé cínica? O massacre de Katyn, um dos episódios mais torpes da 2ª Guerra Mundial, que eliminou praticamente toda a elite militar polonesa, foi perpetrado pelos comunistas soviéticos, a partir de ordens expressas do Kremlin.


Então, por que não mencionar no “Rio Show” que ele foi cometido pelos russos? Lendo o informe, o usuário do jornal, desconhecendo os fatos, vai inferir o quê? Obviamente, que os responsáveis pelo massacre de 14.700 oficiais poloneses, na Floresta de Katyn, em 1940, foram os nazistas.


Sem dúvida, é o jornalismo global a serviço da desinformação e da distorção velhaca dos acontecimentos históricos, sobretudo quando se sabe que o filme versa sobre o minigenocídio articulado a partir do acordo secreto estabelecido entre Hitler e Stalin (“Pacto Molotov-Ribbentrop”, assinado no Kremlin em agosto de 1939), que se destinava a dividir a Europa em duas esferas de influência. Neste acordo, os russos ficaram com o Leste da Polônia, Letônia, Estônia, Finlândia e Bessarábia, na Romênia, enquanto os alemães se apossaram de Lituânia e da estreita (mas extensa) faixa de terra conhecida como o “Corredor Polonês”, necessária à logística Nazi para fazer eclodir a 2ª Guerra Mundial.



(A propósito, segundo registra o historiador Simon Montefiore, em “Stalin – a Corte do Czar Vermelho” – Companhia das Letras, São Paulo, 2006 –, depois da assinatura do pacto sinistro, Stalin e Ribbentrop apertaram as mãos, o Koba russo pediu vodka e ergueu um brinde ao ditador Adolfo Hitler: “Sei o quanto a nação alemã ama o seu Führer” – disse. “Ele é um bom sujeito. Gostaria de beber à saúde dele!”).

Cadáveres de alguns dos milhares de poloneses assassinados pelos soviéticos em Katyn
A ordem para execução do massacre de Katyn partiu do próprio Stalin, que odiava a capacidade de resistência do exército polonês desde 1920, quando os bolcheviques tentaram conquistar a Polônia para disseminar a revolução comunista no Ocidente – e não conseguiram. Açulado também pelo ressentimento, na noite de 5 de março de 1940, depois de reunião a portas fechadas com os membros do Politburo, o ditador russo, fumando o seu indefectível cachimbo, rabiscou a sua assinatura no documento que ordenava, de um só golpe, a eliminação de boa parte da oficialidade polonesa. Na ocasião, Stalin repetiu aos pares a frase predileta do seu antigo assessor, Nikolai Iejov, o carrasco do Grande Terror, responsável pela execução, em 1937, de 110 mil poloneses civis: “Melhor ir longe demais do que não ir longe o suficiente”.

Mas o ditador russo não ficou por ai: ordenou a matança de mais 11 mil prisioneiros “contra-revolucionários”, entre velhos, homens e mulheres, todos considerados (junto com os oficiais) “sabotadores empedernidos do poder soviético”. Para providenciar o massacre, foi chamado o “Promotor” Laurenti Beria, chefe da NKVD (mais tarde, KGB), que, embora manifestasse (por “razões pragmáticas”) o desejo de “vê-los em campos de trabalhos forçados”, acatou as ordens do chefe e escalou o agente Blokhin, seu subordinado direto, para executar o serviço macabro.

Depois do massacre, num relatório destinado ao chefe da NKVD, o sanguinário Bloktin assinalou que, junto a dois outros asseclas, equipou uma cabana com paredes à prova de som, em Ostachkov, e estabeleceu a cota de 250 fuzilamentos por noite. Sobre o assassinato em massa, o agente relata: “Usei um avental de couro e gorro de açougueiro, matando, em 28 noites, 7 mil oficiais, portando uma pistola Walther alemã para evitar identificações futuras. Os corpos foram enterrados em vários lugares, mas 4500 do campo de Kozelsk foram sepultados na floresta de Katyn”.

Como todo sistema comunista se alicerça única e exclusivamente em cima da mentira, com a quebra do “Pacto Molotov-Ribbntrop”, em 1941, a troika Soviética passou a atribuir o massacre de Katyn aos nazistas, embora toda a Polônia soubesse que a carnificina tinha sido ordenada por Stalin e a vontade do Politburo. Aos recalcitrantes nativos que ousassem levantar a voz contra a mentira soviética, caía sobre eles a mais virulenta repressão, não raro acompanhada de novos fuzilamentos.

Ao dramatizar o sofrimento e a dor moral dos poloneses (em especial, das polonesas) que resistiam à mentira comunista institucionalizada, o filme do diretor polonês robustece a arte e faz do cinema um instrumento a serviço da consciência humana. Wajda não é um falso artista, o enganador, digamos, na linha de um Cacá Diegues, tipo que se esconde por trás da mistificação ideológica para justificar a mentira utópica. O polonês trabalha duro, e de forma inspirada, na busca de um sentido transcendente que lhe permita inquirir a verdade perversa do seu tempo com senso moral e independência. Neste sentido, Andrzej Wajda talvez seja hoje um dos raros artistas ainda atuantes na prostituída atividade cinematográfica.

Diante do sucesso artístico (e político) de “Katyn”, distinguido com o Oscar em 2008, a Rússia totalitária de Putin (ex-KGB) e Medevedv reagiu acusando o filme de ser “mais uma manifestação da histeria anti-russa”. Nada mais compreensível e, por extensão, revelador. Desde Nikita Khruschev, com a sua fraudulenta política de “coexistência pacífica”, passando por Leonid Brejnev, Andropov, Chernenko e Gorbachev (para não falar em Stalin, óbvio), todos os ditadores da URSS trataram de manter os registros e documentos do massacre de Katyn soterrados nos repositórios secretos do Partido Comunista, visto que, segundo eles, a “exposição de tais fatos poderia trazer consequências desagradáveis para o Estado Soviético e o socialismo”.

Para vir à luz, e ganhar o mundo, foi preciso que Boris Yeltsin, anticomunista tido como alcoólatra, uma vez eleito presidente da Rússia, iniciasse o processo de abertura dos “Arquivos Especiais” e, em 1991, tornasse do domínio público a documentação do massacre – escondida, sem referência, nos porões da KGB. O próprio Gorbachev, o Arauto da Glasnost (Transparência), que nunca deixou de acreditar um só instante no marxismo-leninismo, instado pelo governo polonês a liberar parte da documentação sobre o “Caso Katyn”, recomendou em memorando à Chefia da KGB: “Penso que as cópias devem permanecer onde supostamente estão”.
Para o júbilo da mídia amestrada, naturalmente

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