2009-05-15

É IMORAL TORTURAR UM TERRORISTA OU PERMITIR UM ATENTADO?





A tortura da CIA e a pergunta de Cheney



Diogo Mainardi




O prisioneiro é amarrado a uma prancha, com os olhos tapados e um pano enfiado na boca. Os interrogadores despejam água em seu rosto, sufocando-o. Essa foi uma das técnicas de interrogatório empregadas por agentes da CIA contra os terroristas da Al-Qaeda - a técnica do afogamento. Barack Obama chamou-a de tortura. Nós, os defensores da prática, impenitentes, preferimos chamá-la burocraticamente de "técnica incrementada de interrogatório".
Quem está certo? Barack Obama está certo: é tortura. Uma tortura mansa, dócil, amena, tanto que alguns jornalistas se submeteram espontaneamente a ela. E se um jornalista encara o sofrimento, é sinal de que qualquer um pode encará-lo. Mesmo assim, é tortura. E tortura é sempre imoral. Mas a pergunta repetida insistentemente por Dick Cheney, depois que Barack Obama decidiu divulgar o relatório sobre os episódios de tortura praticados pela CIA, tem de ser respondida: é mais imoral torturar um terrorista ou permitir um atentado? Porque esse é o melhor argumento usado por Dick Cheney. Ele garante que a técnica do afogamento salvou vidas, impedindo uma nova série de atentados nos Estados Unidos, nos mesmos moldes dos ataques de 11 de setembro de 2001. Ele garante também que a prova desse fato está contida nos documentos da CIA que Barack Obama, até agora, preferiu omitir, mantendo o sigilo.
O que se sabe com certeza é que Khalid Shaikh Mohammed, acusado de ser o organizador dos atentados de 11 de setembro, foi capturado nos primeiros meses de 2003, numa cidade paquistanesa. Interrogado sobre os planos da Al-Qaeda para novos atentados terroristas nos Estados Unidos, ele se limitou a dizer: "Esperem para ver". Em vez de esperar para ver, a CIA torturou-o com a técnica do afogamento. Sim: 183 vezes. Sim: deu resultado. Depois de alguns dias, Khalid Shaikh Mohammed dedurou um terrorista conhecido como Hambali, cuja captura permitiu o desmonte de uma célula composta por 17 membros da Jemmah Islamiyah, que tinha planos para realizar uma "Segunda Onda" de atentados contra os Estados Unidos, na Costa Oeste. Quantas vidas foram salvas com isso? É o que os documentos da CIA podem ajudar a esclarecer.
Os interrogadores da CIA foram comparados aos torturadores de Pol Pot. Do mesmo modo que a guerra no Iraque foi comparada às Cruzadas, Gaza foi comparada ao gueto de Varsóvia e a crise financeira do ano passado foi comparada à de 1929. Nós estamos numa era de embustes históricos, usados para camuflar a propaganda eleitoreira. É perturbador admitir que a tortura, aplicada de maneira limitada - contra Khalid Shaikh Mohammed e outros dois terroristas -, num período igualmente limitado - nos meses posteriores aos atentados de 11 de setembro de 2001 -, possa ter contribuído para salvar centenas de pessoas. Mas os fatos perturbadores precisam ser questionados sem medo, mesmo que a resposta contrarie tudo aquilo em que sempre acreditamos. O erro é "esperar para ver". Ninguém deve esperar para ver.


outra do Diogo:

Veríssimo criticou visita de Ahmadinejad
Luis Fernando Verissimo publicou uma nota de repúdio à viagem ao Brasil do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Certo: era só uma nota de rodapé, com 271 caracteres. Certo: o repúdio nem era propriamente dele, e sim da comunidade judaica. Certo: a nota de rodapé aparecia depois de um artigo sobre o papel higiênico, o lápis e o guarda-chuva. Mesmo assim, deve ter sido a primeira vez que Luis Fernando Verissimo contrariou publicamente Lula.
E o que fez Ahmadinejad, depois de causar tanto desconforto a nosso ilustre cronista? Cancelou a viagem em cima da hora, abandonando Lula na pista do aeroporto. Até agora ninguém soube dizer o motivo do cancelamento da viagem. O líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, deu sinais de que está insatisfeito com algumas atitudes de Ahmadinejad. Ao contrário de Lula, que continua a cortejar abertamente o negador do Holocausto e financiador do terrorismo. Em matéria de política interna iraniana, Lula é mais radical do que Ali Khamenei.
Lula já defendeu - com grande sucesso - mensaleiros e aloprados. Defender o negador do Holocausto e financiador do terrorismo teria sido seu maior desafio. Bem maior do que o da semana passada, quando ele defendeu os deputados federais que fizeram turismo com todas as despesas pagas pelos contribuintes. Dois anos atrás, Luis Fernando Verissimo viajou a Israel com todas as despesas pagas pela comunidade judaica. Pergunto: a viagem a Israel, com todas as despesas pagas pela comunidade judaica, influenciou a nota de rodapé em que Luis Fernando Verissimo repudiou a vinda de Ahmadinejad ao Brasil? Espero que sim. Espero que o investimento da comunidade judaica tenha sido proveitoso. Em alguns casos, uma viagem com todas as despesas pagas pode ajudar a consolidar certos princípios.
Além de Luis Fernando Verissimo, o trem da alegria kosher incluiu outros escritores: Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão, André Sant'Anna, Daniel Galera, Affonso Romano Santanna. Ignoro se algum deles publicou nota de repúdio à viagem de Ahmadinejad ao Brasil. O que eu sei é que eles compuseram poemas comendo falafel em Haifa. E que, retornando ao Brasil, foram narrar suas peripécias no programa de Ronnie Von, na TV Gazeta.
Um dia depois de cancelar sua viagem ao Brasil, Ahmadinejad inaugurou a Feira Internacional de Livros de Teerã. Em seu discurso, ele prometeu aumentar o investimento do governo em literatura, estimulando o consumo e a produção de livros. Trata-se do mesmo governo que condenou à morte Salman Rushdie. Ahmadinejad deveria convidar os escritores brasileiros para visitar seu país, com todas as despesas pagas. Quem sabe alguns deles fizessem como Lula e topassem defender suas ideias no programa de Ronnie Von.

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