2009-05-01

DIOGO E A COMPULSÃO AO JORNALISMO CHAPA BRANCA, OPS, VERMELHA



DIGO MAINARDI: Mais e menos inteiros



Aqui a íntegra da coluna do Diogo Mainardi, que está na Veja que foi às bancas nesta sexta-feira de forma antecipada em razão do feriadão.

"Um brasileiro com linfoma que toma MabThera tem mais chance de sair inteiro do lado de lá do que um brasileiro com linfoma que é atendido pelo SUS e não toma MabThera"
MabThera. É a marca do remédio usado no tratamento de linfomas iguais ao da ministra Dilma Rousseff – os linfomas de células B. Associado à quimioterapia, ele aumenta a possibilidade de cura dos pacientes em cerca de 20%. Dilma Rousseff fez bem em procurar um hospital particular.
Seus hematologistas e seus oncologistas podem receitar-lhe o MabThera, como acontece nos Estados Unidos e na Europa. Os mais de 10 000 pacientes com linfomas que todos os anos recorrem aos hospitais públicos brasileiros, por outro lado, não podem contar com o remédio. Porque ele é caro demais para o SUS: um frasco custa 8.000 reais. O que aumenta mesmo, nesses casos, é só a possibilidade de morrer.
No sábado 25, ao lado de seus médicos, Dilma Rousseff falou abertamente sobre seu estado de saúde. Depois de informar que retirara um linfoma e que passaria por um tratamento de quimioterapia, ela declarou o seguinte, com aquela sua gramática um tanto peculiar: "Nós, brasileiros, temos o hábito de sermos capazes de enfrentar obstáculos e sairmos inteiros do lado de lá".
Alguns brasileiros enfrentam obstáculos menores do que os outros. E alguns brasileiros possuem mais chance de sair inteiros do lado de lá. Os médicos de Dilma Rousseff sabem disso: um brasileiro com linfoma que toma MabThera tem mais chance de sair inteiro do lado de lá do que um brasileiro com linfoma que é atendido pelo SUS e não toma MabThera. Há brasileiros mais inteiros e brasileiros menos inteiros.
Em seu primeiro comentário público sobre o assunto, Lula garantiu que Dilma Rousseff "não tem mais nada". De certa maneira, ele está certo. Os dados do Ministério da Saúde sobre a incidência de câncer no país nem relacionam o linfoma. Para o governo, trata-se de uma categoria indiscriminada. É como se, oficialmente, o linfoma nem existisse.
Para fazer qualquer planejamento, as autoridades sanitárias brasileiras se baseiam nos dados dos Estados Unidos. Há muitos anos, os médicos da rede pública tentam inutilmente incluir o rituximabe – o nome genérico do MabThera – no tratamento dos linfomas. Mas o medicamento só costuma ser obtido na marra, por meios legais, quando um doente processa o Ministério da Saúde. O maior obstáculo que os brasileiros enfrentam, para citar Dilma Rousseff, é o governo.
Lula e o PT imediatamente levaram o linfoma de Dilma Rousseff ao palanque, usando o apelo emocional para tentar impulsionar sua candidatura a presidente. Em vez disso, teria sido mais decoroso levar o linfoma aos hospitais públicos, estendendo aos pacientes mais pobres o acesso ao MabThera. Quem sabe alguns deles conseguissem sair inteiros do lado de lá.


PODCAST DIOGO MAINARDI
Texto integral
Tic, Tac, Tic, Tac

A imprensa está acabando. E eu tenho de correr para acabar antes dela. Quanto tempo ainda me resta? Segundo Sumner Redstone, dono da CBS, menos de dez anos. Tic, tac, tic, tac.

A tiragem do New York Times, nos últimos seis meses, caiu 3,55%. A do Los Angeles Times, 6,55%. A do USA Today, 7,46%. Dos maiores jornais dos Estados Unidos, o único que conseguiu se manter no mesmo lugar foi o Wall Street Journal, de Rupert Murdoch.

Na TV a cabo americana ocorreu algo semelhante. A CNN, no horário nobre, desabou para o quarto lugar entre os canais de notícias. A MSNBC, que no ano passado ganhou um monte de espectadores fazendo campanha para Barack Obama, despencou depois que ele foi eleito. Quem cresceu nesse período, distanciando os concorrentes, foi a FOX News, com seus palpiteiros de direita. A FOX News, como o Wall Street Journal, pertence a Rupert Murdoch.

Sim, Rupert Murdoch. Em 2006, o Financial Times (menos 2,62%) perguntou-lhe se a FOX News perderia seus espectadores caso o Partido Democrata conquistasse o poder. Ele respondeu: "Isso é uma idiotice. Se o governo passar para os democratas, todos aqueles que não gostarem deles – 48% do país – vão assistir a FOX News".

Foi o que aconteceu. A imprensa pode estar acabando. Mas ela está acabando - ainda mais rapidamente e ainda mais vergonhosamente – para quem aceitou se transformar em porta-voz do governo. Ninguém quer ler matéria paga. Ninguém quer receber notícia estatal. Ninguém quer acompanhar uma cobertura domesticada e adesista.

Os telejornais das maiores redes dos Estados Unidos deram um total de dezesseis horas de notícias positivas sobre Barack Obama, em seus primeiros 50 dias de governo. George W. Bush, em seus primeiros 50 dias, ganhou apenas duas horas e meia de notícias positivas, nos mesmos telejornais.

Nesse cálculo, não entram as declarações diárias de Barack Obama e as três entrevistas coletivas transmitidas ao vivo por todas as redes de TV americanas. Corrigindo: todas as redes uma ova. Na quarta-feira, o canal FOX – é isso aí: mais uma empresa de Rupert Murdoch – esnobou a Casa Branca e transmitiu um seriado em vez da entrevista auto-promocional em que Barack Obama celebrou seus 100 dias de governo. Resultado: no horário, a FOX obteve a maior audiência da TV aberta americana. Barack Obama retaliou durante a própria entrevista coletiva, ignorando o repórter da FOX e respondendo às perguntas dos repórteres de todas as outras redes.

Quanto mais fragilizada se torna a imprensa, mais dependente ela é do governo; quanto mais dependente ela é do governo, mais fragilizada ela se torna. É o Catch-22 gutemberguiano. Só ganha uma sobrevida quem consegue romper esse mecanismo de abastardamento. E isso vale tanto para os Estados Unidos quanto para o Brasil, onde há uma compulsão doentia para o jornalismo chapa-branca.

A imprensa está acabando. Se o futuro é a internet, quero estar longe daqui quando ele chegar. Falta pouco. Tic, tac, tic, tac.

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