2009-05-05

contra a propaganda do PT


A produção industrial e o discurso oficial
Por Jacqueline Farid, da Agência Estado.
Volto depois:
A produção industrial do País teve nos primeiros três meses de 2009 o pior trimestre desde 1991, segundo dados divulgados nesta terça-feira, 5 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O indicador caiu 14,7% ante o primeiro trimestre do ano passado e 7,9% na comparação com o quarto trimestre.
Além disso, segundo o coordenador de indústria do IBGE, Silvio Sales, no acumulado do quarto trimestre do ano passado e do primeiro trimestre de 2009, a indústria acumulou queda de 16,7%, a mais elevada perda no acumulado de dois trimestres desde o Governo Collor, no segundo trimestre de 1990. O número mostra que a produção no País está 16,7% abaixo do nível em que estava antes do agravamento da crise, que ocorreu em setembro.
Considerando apenas o mês de março, a produção industrial mostrou leve recuperação ante fevereiro e subiu 0,7% na série com ajuste sazonal. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, o indicador registrou queda forte, de 10%.
O coordenador de indústria do IBGE, observou que há um processo "inequívoco" de reação da indústria, confirmado nos indicadores de março. Segundo ele, a magnitude da queda da produção em março ante igual mês do ano passado (-10,0%) foi bem inferior às quedas, nessa comparação, observadas em fevereiro (-16,8%), janeiro (-17,5%) e dezembro (-14,7%).
Ainda segundo Sales, o resultado de março foi favorecido pelo efeito calendário - já que março de 2009 teve dois dias úteis a mais do que igual mês do ano passado -, mas não exclusivamente. "Outros indicadores, inclusive o resultado com ajuste sazonal (ante mês anterior), mostram que é inequívoco um movimento de reação na indústria, suave mas contínuo", afirmou.

Segmentos
Os segmentos industriais impulsionados pelo mercado interno, sobretudo veículos automotores (automóveis, autopeças, caminhões), estão liderando o processo de reação da indústria, segundo observou o coordenador de indústria do IBGE. "Os bens duráveis, liderados pelos automóveis, estão reagindo ao movimento de queda abrupta do final do ano passado, mas ainda longe de chegar aos patamares mais elevados de 2008", disse.
A produção de veículos automotores aumentou 56,5% em março em relação a dezembro de 2008, mês no qual foi determinada a redução do IPI para automóveis, prorrogada a partir de abril por mais três meses.
Em março, ante fevereiro, os veículos automotores registraram alta na produção de 7,0%, mas mantiveram a trajetória de queda ante igual mês do ano passado (-18,5%, mas exclusivamente os automóveis tiveram queda mais branda, de 3,2%).
"Os segmentos que estão reagindo mais estão mais vinculados ao mercado interno, com automóveis, que foram desonerados e a indústria de alimentos, que se beneficia do aumento da massa de rendimentos e a inflação controlada", disse. Segundo ele, "a indústria vem reagindo mês a mês desde o início do ano, mas o movimento tem sido ainda muito moderado".
Ainda de acordo com Sales, a recuperação dos automotores é importante porque "gera encadeamento com outros setores, se essa recuperação dos duráveis se consolidar, em algum momento vai bater nos intermediários".

Investimentos
A produção de bens de capital, que sinaliza os investimentos, caiu 6,3% em março ante fevereiro e recuou 23,0% ante março de 2008. A categoria de bens de capital foi a única a apresentar queda na produção ante mês anterior. Nessa comparação, houve expansão em bens intermediários (0,3%), bens de consumo duráveis (1,7%) e bens de consumo semi e não duráveis (0,8%).
Segundo Sales, a indústria de bens de capital foi a última categoria industrial a entrar na crise, mas também será a ultima a sair. Ele explicou que, no início das turbulências, encomendas efetuadas anteriormente evitaram uma derrocada imediata dos bens de capital mas, com o aumento da desconfiança e a deterioração do cenário econômico, os investimentos foram adiados.
"As decisões sobre aquisições de máquinas e equipamentos precisam de um cenário positivo, mais claro, possivelmente os investimentos vão sendo adiados até que o cenário fique mais claro para tomada de decisões", disse.
Na comparação com o mesmo mês do ano passado, a produção industrial de bens de consumo semi e não duráveis foi a única, entre as quatro categorias pesquisadas pelo IBGE, a registrar expansão em março (2,9%) ante março do ano passado. Nas demais categorias, os resultados em março ante março 2008 foram os seguintes: bens de capital (-23,0%), bens intermediários (-13,3%) e bens de consumo duráveis (-13,4%).

Comento
Talvez haja um princípio de recuperação na indústria, o que, segundo especialistas, não pode ser assegurado porque há dados que estão um tanto mascarados pelos incentivos oferecidos pelo governo. A recuperação, se não for interrompida, ainda que modesta, livra-nos de um cenário catastrófico — e tomara que seja mesmo assim. Mas o conjunto dos números evidencia que o discurso oficial sobre a crise ultrapassou a linha que separa a verdade da mentira.

Não faz tempo, Guido Mantega, Dilma Rousseff e o próprio Lula diziam ainda acreditar num crescimento de 4% neste 2009 — o já mercado previa 2%. Quando o governo chegou perto dos 2%, os analistas já piscaram os olhos para o zero — e até para um encolhimento. O Apedeuta mangava dos economistas, essa gente que não sabe nada... O Mestre estava convicto de que a crise era uma coisa puramente psicológica.

É evidente que não cabe a um governante ficar fazendo catastrofismo. Mas também não é preciso enganar ninguém. Se o governo brasileiro realmente não tinha noção do tamanho da crise, isso é péssimo. Se tinha noção e resolveu manipular a opinião pública, isso é péssimo também. Lembro que Lula quase nos fez crer que inexistia mercado externo: se os brasileiros não tivessem medo de comprar, a indústria continuaria a produzir, o comércio a vender, o consumidor a consumir...

Os números acima estão longe de ser uma “marolinha”. Estão mais para um maremoto. Há algumas nesgas através das quais se podem vislumbrar dias melhores. Que sejam alargadas e que a indústria realmente continue a se recuperar, ainda que a passos lentos. O que os dados evidenciam de modo inequívoco é que a crise colheu o Brasil em cheio, a exemplo do que se deu no mundo. O resto era discurso vazio.
Por Reinaldo Azevedo | 17:16 | comentários (19)

2 comentários:

Tia Cê disse...

Importação desaba e mascara saldo
Por Renata Veríssimo, no Estadão
A balança comercial brasileira apresentou em abril um superávit de US$ 3,71 bilhões, o maior resultado mensal desde maio de 2008 e 113,7% maior que em abril de 2008. O problema é que a melhora do saldo é resultado de uma deterioração das exportações e, sobretudo, das importações, provocada pela retração dos investimentos das empresas neste momento de crise mundial.
Os dados da balança mostram que apenas as exportações de produtos básicos, que não têm valor agregado, estão em alta este ano. Além disso, na outra ponta, as importações de bens de capital e matéria-primas estão em queda.
As vendas externas em abril somaram US$ 12,32 bilhões, com média diária de US$ 616,1 milhões. Foi o melhor desempenho das exportações este ano, apesar de ainda estarem 8% menores que a média diária de abril de 2008. As importações totalizaram US$ 8,61 bilhões, com média diária de US$ 430,5 milhões. A retração nas compras externas foi de 26,6% em relação à média diária de abril do ano passado.
No acumulado do ano, as exportações somaram US$ 43,5 bilhões, com queda de 16,5%, pela média diária, em relação ao mesmo período de 2008. As importações totalizaram US$ 12,32 bilhões, com retração de 22,8%. O superávit comercial no primeiro quadrimestre foi de US$ 6,72 bilhões, 49,4% maior que no mesmo período do ano passado.
Segundo os dados divulgados ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, as vendas de produtos básicos apresentaram valor recorde para os primeiros quatro meses (US$ 17,24 bilhões) e cresceram 8,7% ante o mesmo período de 2008. Já os produtos manufaturados e semimanufaturados, de alto valor agregado, tiveram queda nas vendas de 28,7% e de 21,5%, respectivamente.
Com isso, a participação dos produtos básicos na pauta de exportação passou de 30,4% no primeiro quadrimestre de 2008 para 39,6% no mesmo período deste ano. Pela série histórica anual do ministério, é o mesmo nível do início da década de 80. A participação dos produtos industrializados caiu de 66,8% para 58,2% de janeiro a abril deste ano.
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Tia Cê disse...

Marolinha apedeuta - Para analistas, resultado da indústria empurra país para a recessão
Na Folha:
O fraco desempenho da indústria desde o recrudescimento da crise, em setembro de 2008, empurrou o país para uma recessão, segundo especialistas ouvidos pela Folha. É que, se as expectativas se confirmarem, o PIB brasileiro cairá por dois trimestres consecutivos na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o que caracteriza a chamada "recessão técnica".
Pelas previsões da LCA, a economia do país encolheu de 0,5% a 1% no primeiro trimestre deste ano na comparação com o quarto trimestre de 2008 na taxa livre de influências sazonais. O IBGE constatou uma retração de 3,6% nos últimos três meses de 2008, o que interrompeu o maior ciclo de crescimento sustentado do Brasil desde o Real. Foi o pior desempenho do PIB da série histórica, iniciada em 1996.
Na comparação com o terceiro trimestre de 2008, a LCA projeta uma queda do PIB entre 1,5% e 2%. "Houve uma recuperação bem mais tímida da indústria do que o esperado, o que rebateu no PIB", afirma Bráulio Borges, economista da consultoria.
Nas contas da Tendências, o PIB deve ter recuado 1,5% do quatro trimestre de 2008 para o primeiro de 2009. "Será um dado bem negativo e claramente puxado para baixo pela indústria", afirma Marcela Prada, economista da consultoria.
Segundo Sérgio Vale, economista da MB Associados, os dados já divulgados não deixam dúvida de que o país vive um período de recessão -que não será tão prolongado como os anteriores, mas também consumirá "um bom tempo" até que ocorra uma recuperação.
Vale estima uma retração de 1,3% ante o último trimestre de 2008. Em relação ao terceiro trimestre de 2008, a projeção é de uma queda de 2,4%.
"Nessa crise, o país entrou numa recessão com uma rapidez e uma intensidade muito fortes. É de esperar, por isso, uma retomada mais rápida do que nas crises passadas. Mas essa recuperação ainda vai demorar. Vai consumir um bom tempo até que o país volte aos níveis registrados até setembro do ano passado", diz Vale.