2009-03-15

MARX EXCOMUNGA A RELIGIÃO DA REALIDADE


O episódio envolvendo o arcebispo de Recife e os médicos que abortaram os nascituros gêmeos de uma menina de nove anos, estuprada pelo padrasto, revela uma faceta curiosa em nossas democracias e na opinião da imprensa brasileira. Um aspecto predominante da mídia foi a capacidade incrível de mentir e deturpar os fatos. Como ela é majoritariamente pró-aborto, o enredo serviu para atacar a Igreja como um todo, na figura de um solitário bispo. Distorceram suas declarações, dando a entender que ele “excomungou” os médicos, quando na verdade, apenas afirmou a natureza de excomunhão automática ditada pelo Direito Canônico, no caso daqueles que praticassem o aborto. Isso porque nem mesmo a menina foi excomungada, tal como se diz por aí. No entanto, a imprensa conseguiu fazer recuar o clero: num ato de covardia e falta de autoridade, os bispos da CNBB titubearam e ficaram em cima do muro. Não externaram apoio explícito ao arcebispo e as suas declarações se perderam em palavras genéricas de defesa à vida. Para certos tipinhos católicos, falta de coragem, mesclada com educação, agora virou forma de polidez e “contrição”. Ninguém quer ser polemista!
Isso mostra o quanto a Igreja Católica no Brasil está dividida e desarticulada. E ainda há pessoas achando que o hábito faz um monge! Mas é natural que a religiosidade católica brasileira esteja vazia de conteúdo e espiritualidade. Isso implica dizer que a formalidade da batina ou da autoridade eclesiástica vale mais do que o conteúdo moral da pessoa ordenada para tal vocação. E o que não faltam são vigaristas disfarçados de sacerdotes cantarolando a teologia da “libertação” marxista por aí! Um bispo de passeata da CNBB, em plena mídia, no típico discurso de esquerda, dizia sempre pensar na “inclusão”.
O interessante, contudo, é que o fato demonstra um abismo cada vez maior entre a Igreja Católica e a sociedade brasileira. Esse abismo não está na postura ousada do arcebispo, que apenas repetiu aquilo que a Igreja prega. Está mesmo na divisão interna e pusilanimidade dos bispos e nas opiniões visivelmente anti-católicas na imprensa e na opinião pública em geral. Entretanto, se a Igreja perde terreno na vida social, porque ela mesma, voluntariamente se alija deste convívio, por outro lado, esse vácuo é ocupado por clichês pseudocientíficos e ideológicos, pela idéia sacralizadora e mítica da ciência como panacéia pronta para as explicações dos problemas do mundo. É partindo dessa visão que muita gente defendeu o aborto dos nascituros, envolvida pela crença de que a ciência é fórmula infalível para prever tudo, inclusive o futuro.
Isso me lembra, e muito, o pensamento do Estado soviético, das burocracias planejadoras, dos cientistas iluminados, que gerenciavam a vida social, através de fórmulas “objetivas” prontas da ciência. Nas épocas áureas de Stálin, os burocratas acreditavam planejar previamente a economia e a vida de milhões de cidadãos soviéticos, através de planilhas e mais planilhas, durante longos prazos qüinqüenais, como se tudo fosse previsto numa bola de cristal. A ciência não é “objetiva”? Se as “leis científicas” da economia e da história podem ser descobertas, não se pode prever o futuro, já que esse futuro é mera repetição dos fenômenos científicos? É curioso que, a despeito do fracasso assombroso dessa perspectiva pseudo-científica, ela contamine com profundidade o imaginário da cultura nos países democráticos. O culto da imprensa por Darwin, “evolução das espécies”, “liberação das células-tronco embrionárias”, e mesmo pelo viés surrado do materialismo histórico marxista aplicado às chamadas “ciências sociais”, parte do pressuposto de que o pensamento científico é algo exato, cartesiano, matemático, perfeito, e que os esquemas metodológicos da ciência natural estão acima de qualquer juízo de valor moral ou outras formas de conhecimento.
Este raciocínio não se restringe somente à vida política democrática. Ele é encontrado até mesmo nas questões teóricas de economia dentro das sociedades de mercado. Na crise financeira internacional pelo qual o mundo atualmente passa, é comum a ladainha de que o capitalismo é responsável pela crise, de que o mercado estava “desregulado” e que a salvação para os problemas da humanidade passa pela emergência de uma burocracia estatal toda poderosa e esclarecida, regulando os passos da economia e mesmo de nossas vidas privadas. O mercado, esse eterno vilão tolerado, deve ser controlado, em vista dos males que acarreta. As justificativas usadas pelos bem aventurados tecnocratas são a “segurança” e o “bem-estar”, partindo do pressuposto de que as forças do mercado são “irracionais” e de que os indivíduos em sociedade são meras engrenagens de um sistema, mero rebanho a ser monitorado por tão sapientíssimas cabeças. E a tecnocracia, tal como um mago detentor de um saber oculto, através dos instrumentos do Estado, da matemática e da macroeconomia, será a fiel vidente futurista dos passos econômicos, prevendo necessidades, preços, salários, juros e expectativas de milhões de pessoas. Essa ilusão de poder chega a ser quase divina.
Em parte, é dentro dessa lógica que a maioria da opinião pública toma partido em favor do aborto dos nascituros gêmeos. Ela presume que a opinião do médico é revestida de sacralidade, de rigor “científico”, que não está eivada de falhas. Como a ciência tem fundamento inquestionável, logo, pode determinar quem deve viver ou morrer. Já a Igreja Católica é vista como “retrógrada”, “obscurantista”, porque ela se recusa a sujeitar seus valores morais e éticos milenares ao rigor do que convém chamar “pensamento científico”. Os arquétipos mentais panfletários estão mais do que arraigados: a ciência é sempre “razão”, a religião é fé e “irracionalismo”, tal a impregnação da linguagem viciada difundida pela imprensa e por muitos formadores de opinião. Na prática, a “ciência”, por assim dizer, na consciência dessas pessoas, não passa de uma ilusão, uma superstição travestida de uma palavra embelezadora e vazia. Ou na pior das hipóteses, uma ideologia, uma visão ocultista da realidade.
O que está por trás da chamada “ciência”, tal como é divulgada, na instrumentalização de ataques à religião? A “ciência” aí implica moldar comportamentos, idéias, juízos de valor, através de símbolos retóricos. Neste aspecto, a chamada “ciência” camufla um amálgama de crenças políticas monstruosas, bestiais e totalitárias, em nome do “progresso”. O século XX teve exemplos de sobra neste sentido. A eugenia, na ideologia de matança de débeis mentais como política de Estado, não surgiu na Alemanha Nazista; surgiu nas universidades e, durante muito tempo, teve aura de “caso de saúde pública”, na mente de muitos médicos respeitáveis. A pregação abortista, ainda que de forma sutil, parte das mesmíssimas premissas eugênicas e “científicas”. Entretanto, essa visão pseudocientífica não se limita tão somente a questões biológicas: ela tem implicações políticas e a mais clara visão de engenharia social. Quando o governador do Rio de Janeiro afirmou que o aborto diminuiria a criminalidade, ele está dizendo, sem meias delongas, que o Estado deve legalizar a prática criminosa, no sentindo de controle da natalidade. Ou na pior das hipóteses, até mesmo incentivar a prática. É um paradoxo, para dizer o mínimo: como o governo é impotente para combater o crime, logo, ele deve matar os supostos criminosos por antecipação, para controlar o problema. É como se os pobres, potencialmente, fossem os culpados pela violência. Por definição, abole-se a presunção de inocência. Os inocentes são culpados, até que se prove o contrário. Isso porque nem mesmo os inocentes podem provar nada. Serão eliminados de pronto! Espantosa a reação da imprensa, com relação às declarações do governador. A mesmíssima imprensa que apóia o aborto irrestrito condenou as suas afirmações, por serem “preconceituosas”. É inegável que reduzir previamente o número de pobres é também, na consciência deformada de certas pessoas, um caso de "saúde pública".
Os “riscos” declarados pelos médicos sobre a gravidez da mocinha estuprada foram considerados dogmas científicos, inquestionáveis, ainda que isto implicasse apenas uma probabilidade, uma mera hipótese, e não uma evidência fática. Pouca gente pensou na probabilidade de salvar a vida dos gêmeos, ainda que houvesse indícios gravíssimos de que o aborto tenha sido feito à revelia da vontade da mãe da menor estuprada; ainda que o emprego de salvar a moça carregasse o preço de matar dois indivíduos. Havia outro agravante: como filhos de um estupro, muita gente acreditava que os nascituros não mereciam nascer.
O médico que fez o aborto na jovem foi aplaudido em um Seminário de Saúde da Mulher, em Brasília, assistido pelo Ministro da Saúde que é pró-abortista, o Sr. José Gomes Temporão. O político ainda declarou que a atitude do médico foi “brilhante”. Enquanto isso, a Igreja “obscurantista” foi duramente difamada, já que o arcebispo, isolado pelos seus pares do clero, questionava essa probabilidade duvidosa, essa visão de “ciência” demiúrgica e falaciosa. E o impasse interno em torno da opinião dos bispos acabou por colocar a Igreja numa situação de vulnerabilidade, de fraqueza. Os inimigos da Igreja Católica conseguiram uma pequena vitória publicitária, através de uma campanha de desinformação assustadora, sistemática, digna dos sistemas totalitários mais sombrios. Entretanto, não há por que se iludir: os ideais totalitários estão por trás dessa mídia de mentira compulsiva. A “ciência” preconizada por eles é puro ocultismo, pura magia negra, puro desejo inescrupuloso de poder. A Igreja Católica não luta contra uma ciência. Luta contra uma religião, ainda que falsa. Uma idolatria laica, materialista, pronta para destruir o cristianismo e implantar uma forma destrutiva de sistema político e poder. É, em suma, a luta da verdadeira religião contra o dogma ocultista de uma pseudociência e a ascensão de uma nova religião civil.
Postado por Conde Loppeux de la Villanueva às 15:04 0 comentári

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